{"id":1076,"date":"2016-07-14T14:05:41","date_gmt":"2016-07-14T17:05:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=1076"},"modified":"2026-04-10T08:42:27","modified_gmt":"2026-04-10T11:42:27","slug":"desigualdade-estudos-sobre-as-familias-ricas-mostram-que-os-pobres-sao-os-mesmos-de-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/desigualdade-estudos-sobre-as-familias-ricas-mostram-que-os-pobres-sao-os-mesmos-de-sempre\/","title":{"rendered":"Desigualdade: estudos sobre as fam\u00edlias ricas mostram que os pobres s\u00e3o os mesmos de sempre"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt; color: #993366;\"><em>Por Mauro Donato<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No ano de 1427, a ent\u00e3o pequena prov\u00edncia de Floren\u00e7a elaborou um censo entre seus habitantes com a finalidade de cobrar impostos. Ali ficou registrado, al\u00e9m do nome, o que faziam, quanto ganhavam e qual o patrim\u00f4nio dos moradores da cidade que j\u00e1 tinha dado ao mundo Dante Alighieri e ainda nos presentearia com Leonardo Da Vinci.<\/p>\n<p>Recentemente aquele levantamento foi digitalizado e disponibilizado na internet. Foi ent\u00e3o que dois economistas da Banca D\u2019Italia (o Banco Central italiano), realizaram um estudo com base nas informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis cruzando-as com as declara\u00e7\u00f5es de renda de fam\u00edlias remanescentes na cidade at\u00e9 2011. Guglielmo Barone e Sauro Mocetti ficaram espantados. Num arco de seis s\u00e9culos, mais precisamente ap\u00f3s 584 anos, as fam\u00edlias mais ricas em 1427 eram as mesmas em 2011. E ainda: os sobrenomes dos contribuintes mais pobres tamb\u00e9m n\u00e3o haviam mudado.<\/p>\n<p>A tecnologia da digitaliza\u00e7\u00e3o permitiu n\u00e3o apenas fazer um comparativo sobre uma linha temporal longa, como colocou em d\u00favida alguns mitos sobre o capitalismo. No geral esses estudos cobrem 2 ou 3 gera\u00e7\u00f5es cont\u00edguas e podem dar uma sensa\u00e7\u00e3o de altern\u00e2ncia ou de migra\u00e7\u00e3o de riqueza para outras m\u00e3os. Por vezes, um filho playboy mais rebelde e inconsequente termina mal e isso indicaria, numa medi\u00e7\u00e3o precipitada, que haveria uma anula\u00e7\u00e3o na transmiss\u00e3o de bens e nas vantagens sociais e econ\u00f4micas. Errado. A hereditariedade e os mecanismos de prote\u00e7\u00e3o das elites, quando analisados numa linha de tempo maior, comprovam uma estabilidade assombrosa.<\/p>\n<p>Nas estat\u00edsticas, desde ent\u00e3o a renda per capita em Floren\u00e7a foi multiplicada por doze, a popula\u00e7\u00e3o aumentou dez vezes e a cidade cresceu. \u00c9 a maior cidade e tamb\u00e9m capital da Toscana. Em n\u00fameros frios, tudo melhorou, certo? Por\u00e9m os mais ricos continuam sendo os mais ricos e os mais pobres permanecem ralando dia e noite para chegar l\u00e1, sem sucesso. Onde est\u00e1 a mobilidade social?<\/p>\n<p>Os italianos n\u00e3o foram os \u00fanicos a constatarem essa realidade. Pesquisadores ingleses tamb\u00e9m j\u00e1 tinham feito um outro levantamento no qual ficou demonstrado que fam\u00edlias da Inglaterra s\u00e3o ricas e poderosas h\u00e1 28 gera\u00e7\u00f5es. Uma prova de que o 1% est\u00e1 no alto do p\u00f3dio h\u00e1 mais de 800 anos.<\/p>\n<p>O trabalho dos pesquisadores da terra da rainha abrangeu o per\u00edodo entre os anos de 1170 e 2012 e, al\u00e9m de analisarem os dados priorizando os sobrenomes das fam\u00edlias, utilizaram informa\u00e7\u00f5es sobre grau de escolaridade e institui\u00e7\u00f5es de ensino frequentadas. Da\u00ed vemos aquela confirma\u00e7\u00e3o daquilo que todos intu\u00edmos.<\/p>\n<p>Gregory Clark e Neil Cummins revelaram que as famosas Oxford e Cambridge despontam entre as classes mais ricas e evidenciam uma seletividade obscena mesmo com o acesso livre durante um per\u00edodo. Os pesquisadores acreditavam que o apoio do Estado com o fornecimento de bolsas para o ingresso nas universidades iria ser traduzido em uma maior variedade de sobrenomes entre aqueles que nelas se formavam. \u201cN\u00e3o h\u00e1 nenhuma evid\u00eancia disso. Os nomes da elite persistiram t\u00e3o tenazmente a partir de 1950 como antes do incentivo. O status social \u00e9 fortemente herdado\u201d, afirmaram. Ou seja, de nada resolve abrir as portas do ensino universit\u00e1rio sem ter oferecido uma boa base.<\/p>\n<p>\u201cEssa correla\u00e7\u00e3o \u00e9 inalterada ao longo dos s\u00e9culos. Ainda mais not\u00e1vel \u00e9 a falta de um sinal de qualquer decl\u00ednio na persist\u00eancia de status social durante os per\u00edodos de mudan\u00e7as institucionais como a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial do s\u00e9culo XVIII, a dissemina\u00e7\u00e3o da escolariza\u00e7\u00e3o universal no final do s\u00e9culo XIX, ou a ascens\u00e3o do estado social-democrata no s\u00e9culo XX. A mobilidade social na Inglaterra em 2012 foi pouco maior do que no tempo pr\u00e9-industrial\u201d, cravou Neil Cummins, da London School of Economics.<\/p>\n<p>Thomas Piketty, em seu \u201cO capital no s\u00e9culo XXI\u201d, sustenta que a concentra\u00e7\u00e3o de renda vem aumentando os \u00edndices de desigualdade. Os estudos dos economistas italianos e ingleses n\u00e3o afirmam isso mas ratificam o livro do franc\u00eas. Se o topo da sociedade \u00e9 habitado pelos mesmos h\u00e1 s\u00e9culos, se a correla\u00e7\u00e3o entre sobrenomes e status social n\u00e3o se altera nunca, \u00e9 l\u00f3gico supor que a propens\u00e3o \u00e9 por um maior distanciamento entre as camadas.<\/p>\n<p>O que esses estudos dizem com todas as letras (e n\u00fameros) \u00e9 que os ricos se mant\u00e9m ricos ao longo de s\u00e9culos sem muitas dificuldades. E que o capitalismo que sugere ser din\u00e2mico, meritocr\u00e1tico, justo, etc e tal, n\u00e3o passa de propaganda enganosa. No longo prazo, pouca coisa muda. \u00c9 culpa exclusiva do sistema ent\u00e3o? N\u00e3o, at\u00e9 porque concentra\u00e7\u00e3o de renda \u00e9 ruim para o pr\u00f3prio capitalismo. O dinheiro n\u00e3o circula, est\u00e1 sempre as m\u00e3os dos mesmos. Mas sem uma preocupa\u00e7\u00e3o social de base, que realmente d\u00ea oportunidades iguais a todos, teremos que continuar a responder \u00e0 pergunta \u201cQual a possibilidade de um jovem mudar seu destino em rela\u00e7\u00e3o a suas origens?\u201d com um desanimador \u201cPraticamente nenhuma\u201d.<\/p>\n<p>O Brasil tem uma hist\u00f3ria recente (italianos e ingleses fizeram levantamentos desde um per\u00edodo em que Cabral nem haviam chegado por aqui), n\u00e3o temos portanto nenhum estudo que passe perto disso. Mas se puxarmos as listas da publica\u00e7\u00e3o Forbes, \u00e9 poss\u00edvel constatar que n\u00e3o fugiremos da regra. O primeiro ranking da revista, feito em 1987, contava com apenas tr\u00eas brasileiros: Roberto Marinho, Sebasti\u00e3o Camargo e Antonio Erm\u00edrio de Moraes. Vinte e sete anos depois, em 2014, j\u00e1 eram 65 os bilion\u00e1rios brasileiros na lista e l\u00e1 continuavam os Marinho, os Camargo e os Moraes. Com um detalhe que confirma as pesquisas de Mocetti, Barone, Clark e Cummins: dos 65 brasileiros, 25 eram parentes.<\/p>\n<p>Este ano, a Forbes aponta uma redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de bilion\u00e1rios verdes-e-amarelos. S\u00e3o 31 mas\u2026 tcharam! L\u00e1 est\u00e3o nosso amigos de sempre em companhia de nomes que sabemos ir\u00e3o se perpetuar e facilmente identificados em levantamentos recentes: Safra, Moreira Salles e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>O filho de Michel Temer j\u00e1 possui um patrim\u00f4nio de R$ 2 milh\u00f5es em im\u00f3veis. Michelzinho tem 7 anos de idade. O que ele fez para isso? Nada, nasceu. Essa \u00e9 a forma mais eficiente de ficar rico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><em><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Fonte:\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/desigualdade-estudos-sobre-as-familias-ricas-mostram-que-os-pobres-sao-os-mesmos-de-sempre-por-donato\/\" target=\"_blank\">diariodocentrodomundo.com.br<\/a><\/span><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mauro Donato &nbsp; No ano de 1427, a ent\u00e3o pequena prov\u00edncia de Floren\u00e7a elaborou um censo entre seus habitantes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1077,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[206,207,53],"class_list":["post-1076","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-capitalismo","tag-concentracao-de-renda","tag-desigualdade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1076","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1076"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1076\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1078,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1076\/revisions\/1078"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1077"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1076"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1076"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1076"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}