{"id":1286,"date":"2017-02-17T23:53:41","date_gmt":"2017-02-18T01:53:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=1286"},"modified":"2026-04-10T08:43:48","modified_gmt":"2026-04-10T11:43:48","slug":"eu-daniel-blake-e-o-convite-de-ken-loach-para-se-revoltar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/eu-daniel-blake-e-o-convite-de-ken-loach-para-se-revoltar\/","title":{"rendered":"\u201cEu, Daniel Blake\u201d e o convite de Ken Loach para se revoltar"},"content":{"rendered":"<p>\u201cSou um homem, n\u00e3o um cachorro\u201d. As palavras do protagonista do mais recente trabalho do diretor brit\u00e2nico Ken Loach s\u00e3o fortes. Imposs\u00edvel passar inc\u00f3lume ao filme \u201cEu, Daniel Blake\u201d, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2016. E isso porque, de fundo, a demolidora den\u00fancia trazida por Loach n\u00e3o se refere t\u00e3o somente ao brutal desmonte do Estado de bem-estar social, mas a algo t\u00e3o mais avassalador e desumano: a perda da dignidade de uma massa de trabalhadores simplesmente descartada ap\u00f3s uma vida de superexplora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O diretor de filmes como \u201cTerra e Liberdade\u201d e \u201cP\u00e3o e Rosas\u201d, mais uma vez joga luz sobre os setores mais pobres e explorados da classe. Daniel Blake (Dave Johns) \u00e9 um carpinteiro de 59 anos de Newscastle que, rec\u00e9m-infartado, \u00e9 afastado do servi\u00e7o por sua m\u00e9dica. Por\u00e9m, enredado na burocr\u00e1tica m\u00e1quina estatal, tem negado o aux\u00edlio-doen\u00e7a, e se v\u00ea obrigado a passar pelo humilhante p\u00e9riplo da busca por um seguro-desemprego.<\/p>\n<p>E \u00e9 a\u00ed que as coisas se complicam. V\u00eduvo, estranho ao mundo da Internet e sem trabalho, Daniel descobre a crueldade de um sistema sem lugar para algu\u00e9m n\u00e3o \u201cprodutivo\u201d sob a \u00f3tica do capital. Cada vez mais um p\u00e1ria no pr\u00f3prio pa\u00eds. Mas, mesmo massacrado por essa engrenagem, Blake encontra for\u00e7a para se indignar e, mais que isso, demonstrar solidariedade aos outros p\u00e1rias da sociedade. \u00c9 onde entra Katie (Hayley Squires), m\u00e3e solteira com dois filhos e desempregada.<\/p>\n<p>Lutando para sobreviver e sustentar os filhos, Katie representa o setor mais explorado e oprimido da classe trabalhadora: as mulheres. Aspecto inclusive retratado por Loach nos detalhes m\u00ednimos que quase passam desapercebidos, como quando Katie vai buscar a cesta b\u00e1sica fornecida para pessoas carentes e, constrangida, pergunta se h\u00e1 absorvente. \u201cN\u00e3o tem, deveria ter, n\u00e9?\u201c, responde a funcion\u00e1ria do governo.<\/p>\n<p>Retratando os efeitos da crise e seus efeitos sobre os trabalhadores, \u00e9 imposs\u00edvel ainda n\u00e3o tra\u00e7ar um paralelo com o Brasil e as filas intermin\u00e1veis por emprego, assim como o n\u00famero visivelmente maior de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua perambulando pelas cidades. (E aqui um par\u00eantesis, em uma das cenas que retrata a humilha\u00e7\u00e3o de Blake pela burocracia do governo, ele \u00e9 orientado a fazer o pedido de aux\u00edlio desemprego pela Internet, mesmo argumentando n\u00e3o ter a menor familiaridade com o computador. Escrevo esse texto um dia ap\u00f3s o brutal despejo de 700 fam\u00edlias do Jardim Colonial, Zona Leste de S\u00e3o Paulo. Em nota, o governo de S\u00e3o Paulo orienta as fam\u00edlias sem-teto, rec\u00e9m-despejadas, a requisitarem cadastro para moradia popular na\u2026 Internet!). Voltemos.<\/p>\n<p>Em entrevista ao jornal brit\u00e2nico The Guardian, Loach faz um paralelo entre a sua milit\u00e2ncia em organiza\u00e7\u00f5es socialistas nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970 e atual crise. \u201cN\u00f3s diz\u00edamos que toda crise significa mais exig\u00eancias sobre a classe trabalhadora, mais explora\u00e7\u00e3o, mas est\u00e1vamos falando no abstrato. As pessoas n\u00e3o imaginavam contratos \u2018zero-horas\u2019, ag\u00eancia de trabalho, bancos de alimentos. Quem pensaria nos anos 1960 que seria aceit\u00e1vel e normal passar fome at\u00e9 conseguir comida da caridade? \u00c9 grotesco que n\u00f3s aceitemos isso\u201c, diz.<\/p>\n<p>Blake, contudo, representa a capacidade de se indignar frente \u00e0 m\u00e1quina capitalista que tenta esmag\u00e1-lo, hip\u00f3crita e burocraticamente atrav\u00e9s de formul\u00e1rios in\u00fateis em que ele \u00e9 apenas um n\u00famero a mais.<\/p>\n<p>Se a contund\u00eancia da cr\u00edtica tecida por Loach n\u00e3o deixa de ser surpreendente, tamb\u00e9m o \u00e9 a forma como foi recebida por determinados setores. Um artigo publicado numa revista pr\u00f3xima ao PT criva o seguinte: \u201ccineasta acerta na cr\u00edtica \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es, mas ela parece insuficiente para entender o triunfo das sa\u00eddas populistas para a crise\u201d (leia <a href=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/cultura\/201ceu-daniel-blake201d-o-grito-de-ken-loach-nao-previu-o-brexit\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>). O jornalista afirma que, embora correta, a cr\u00edtica social \u00e9 \u201cinsuficiente, como o foram as tentativas de compreender como a revolta contra cortes de direito, injusti\u00e7as e governos despreparados resultaram em fen\u00f4menos como o Brexit, na Inglaterra, e Donald Trump, nos EUA, para n\u00e3o citar o impeachment em terras brasileiras\u201c.<\/p>\n<p>D\u00e1 para entender a l\u00f3gica retorcida? A \u201crevolta\u201d contra os cortes teria provocado o que o autor parece ver como fen\u00f4menos de direita, como o impeachment de Dilma. Quando li isso, a \u00fanica coisa que me veio \u00e0 mente foi: quantos Daniel Blake Dilma n\u00e3o prejudicou quando editou a Medida Provis\u00f3ria que restringiu ainda mais o acesso ao seguro-desemprego?<\/p>\n<p>Em tempos do avan\u00e7o da barb\u00e1rie capitalista, a mensagem de Loach \u00e9 v\u00e1lida, sobretudo para certos setores ditos de esquerda. Como diz o pr\u00f3prio diretor brit\u00e2nico: \u201cAquela constante humilha\u00e7\u00e3o para sobreviver, se isso n\u00e3o te deixa com raiva, que tipo de pessoa voc\u00ea \u00e9?\u201c.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: 'andale mono', monospace; font-size: 10pt;\">Por Diego Cruz<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: 'andale mono', monospace; font-size: 10pt;\">Fonte: <a href=\"http:\/\/www.pstu.org.br\/eu-daniel-blake-e-o-convite-de-ken-loach-para-se-revoltar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pstu.org.br<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSou um homem, n\u00e3o um cachorro\u201d. 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