{"id":1351,"date":"2017-04-07T13:47:23","date_gmt":"2017-04-07T16:47:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=1351"},"modified":"2026-04-10T08:43:48","modified_gmt":"2026-04-10T11:43:48","slug":"sistema-da-divida-quebra-estado-e-impede-direitos-sociais-diz-ex-auditora-fiscal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/sistema-da-divida-quebra-estado-e-impede-direitos-sociais-diz-ex-auditora-fiscal\/","title":{"rendered":"&#8220;Sistema da d\u00edvida quebra Estado e impede direitos sociais&#8221;, diz ex-auditora fiscal"},"content":{"rendered":"<h4><a href=\"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/070417-sistema-da-divida.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1352\" src=\"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/070417-sistema-da-divida.jpg\" alt=\"070417-sistema-da-divida\" width=\"640\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/070417-sistema-da-divida.jpg 640w, https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/070417-sistema-da-divida-300x164.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/h4>\n<h4>Para Maria Lucia Fattorelli, da Auditoria Cidad\u00e3 da D\u00edvida, \u00e9 a d\u00edvida p\u00fablica que causa desequil\u00edbrio econ\u00f4mico<\/h4>\n<p>H\u00e1 um discurso un\u00edssono, oficial, no pa\u00eds: sem a reforma da Previd\u00eancia P\u00fablica proposta pelo governo Temer, o pa\u00eds periga quebrar, amea\u00e7ando outros direitos sociais. A Previd\u00eancia Social, como est\u00e1, seria insustent\u00e1vel, garantem a grande m\u00eddia e o governo. A solu\u00e7\u00e3o seria uma reforma que penaliza profundamente o povo e os trabalhadores. A reforma da Previd\u00eancia, a reforma trabalhista rec\u00e9m-aprovada, a diminui\u00e7\u00e3o dos gastos sociais com sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, a entrega das riquezas nacionais, a volta do pa\u00eds a uma posi\u00e7\u00e3o internacional subordinada, tudo isso faz parte de um objetivo: que o Estado beneficie uns poucos poderosos, pouco importando a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Objetivo de um governo ileg\u00edtimo e, literalmente, reacion\u00e1rio &#8211; pois o esp\u00edrito que o anima, que congrega todos que o apoiam, \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o aos ganhos sociais que, mesmo insuficientes, caracterizaram a hist\u00f3ria recente brasileira. Chancelando esse programa, o discurso que garante: \u201co Estado est\u00e1 falido, gastou demais, de forma irrespons\u00e1vel e paternalista, com pol\u00edticas p\u00fablicas desarrazoadas, com direitos sociais excessivos. O jeito, agora, \u00e9 fazer sacrif\u00edcios em prol da retomada do desenvolvimento, do emprego e da renda no futuro\u201d. Sacrif\u00edcios sempre maiores para os mais pobres e futuro incerto, sempre postergado.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1, realmente, desequil\u00edbrio nas contas p\u00fablicas? Se h\u00e1, qual sua verdadeira origem? Maria Lucia Fattorelli responde que h\u00e1, sim, desequil\u00edbrio, mas que sua causa n\u00e3o \u00e9, de forma alguma, o investimento social, mas o gasto com uma d\u00edvida p\u00fablica imensa, e deliberadamente mal explicada \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Auditora da Receita Federal por 30 anos, Maria Lucia Fattorelli tem estudado, h\u00e1 quase 20 anos, a d\u00edvida p\u00fablica, como coordenadora da Auditoria Cidad\u00e3 da D\u00edvida, uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos que tem se debru\u00e7ado sobre um pesado jogo de interesses que traz ganhos nababescos a uma min\u00fascula camada do setor financeiro e preju\u00edzo ao povo e \u00e0s contas p\u00fablicas. Fattorelli tem o conhecimento de quem j\u00e1 estudou a fundo, munida da expertise de auditora, a d\u00edvida p\u00fablica do Brasil e de pa\u00edses como o Equador e a Gr\u00e9cia. Na Gr\u00e9cia, ela fez parte, com outros especialistas internacionais, do Comit\u00ea pela Auditoria da D\u00edvida Grega, trabalho semelhante ao que j\u00e1 havia feito, antes, no Equador, e que foi fundamental para o pa\u00eds reduzir em 70% o estoque de seu endividamento. No Brasil, na Gr\u00e9cia, no Equador, apesar das particularidades, a mesma situa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica: uma d\u00edvida p\u00fablica que suga recursos do pa\u00eds e trava investimentos sociais. Uma d\u00edvida que \u00e9 ileg\u00edtima e mesmo, em certos aspectos, ilegal. E numa \u00e9poca em que a corrup\u00e7\u00e3o est\u00e1 na ordem do dia, ela afirmou, certa vez: \u201ca d\u00edvida p\u00fablica pode ser vista como um mega-esquema de corrup\u00e7\u00e3o institucionalizado\u201d.<\/p>\n<p>A seguir, Maria Lucia Fattorelli explica e analisa essa quest\u00e3o crucial, mas (talvez por isso) t\u00e3o pouco debatida, da d\u00edvida p\u00fablica brasileira.<\/p>\n<p><em>Rubens Campante:<\/em><strong> Voc\u00ea poderia come\u00e7ar explicando o que \u00e9 a d\u00edvida p\u00fablica, como ela se formou e como ela se desdobra em d\u00edvida externa e d\u00edvida interna, e como foi o trabalho da Auditoria Cidad\u00e3 da D\u00edvida no levantamento deste problema.<\/strong><\/p>\n<p><em>Maria Lucia Fattorelli:<\/em> Teoricamente, a d\u00edvida p\u00fablica abrangeria empr\u00e9stimos contra\u00eddos pelo Estado junto a institui\u00e7\u00f5es financeiras p\u00fablicas ou privadas, no mercado financeiro interno ou externo, bem como junto a empresas, organismos nacionais e internacionais, pessoas ou outros governos. Pode ser interna ou d\u00edvida externa, de acordo com a localiza\u00e7\u00e3o dos seus credores e com a moeda envolvida nas opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A origem oficial, portanto, da d\u00edvida p\u00fablica seriam recursos, empr\u00e9stimos, recebidos pelo Estado brasileiro. Afinal, d\u00edvida, de forma geral, \u00e9 a contrapartida pelo recebimento de algum tipo de recurso, e com a d\u00edvida p\u00fablica n\u00e3o deveria ser diferente. Contudo, na pr\u00e1tica, a Auditoria Cidad\u00e3 da D\u00edvida tem detectado a gera\u00e7\u00e3o de d\u00edvida p\u00fablica por meio de mecanismos meramente financeiros que n\u00e3o significam o ingresso de recurso algum.<\/p>\n<p>O ciclo atual do endividamento brasileiro teve in\u00edcio na d\u00e9cada de 1970, na modalidade de d\u00edvida externa, e, a partir do Plano Real, ocorreu a explos\u00e3o da d\u00edvida interna.<\/p>\n<p>O forte crescimento da d\u00edvida externa brasileira, a partir de 1971, decorreu do fim da paridade d\u00f3lar-ouro nos Estados Unidos, por iniciativa do Banco Central norte-americano (FED), que \u00e9 privado e controlado por grandes bancos privados. Esse fato possibilitou a impress\u00e3o de grandes volumes de d\u00f3lares que passaram a ser ofertados pelos bancos privados internacionais a diversos pa\u00edses, inclusive o Brasil, a taxas de juros aparentemente baixas, por\u00e9m vari\u00e1veis. Os bancos privados que controlavam o FED eram em grande parte os mesmos credores da d\u00edvida externa brasileira e de outros pa\u00edses que ca\u00edram na sedu\u00e7\u00e3o da oferta de cr\u00e9ditos baratos vinculados a taxas flutuantes.<\/p>\n<p>No final da d\u00e9cada de 1970, o FED passou a elevar as taxas de juros, que alcan\u00e7aram 20,5% ao ano no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, provocando a chamada \u201ccrise da d\u00edvida\u201d de 1982, utilizada como justificativa para a interfer\u00eancia do FMI em assuntos internos do pa\u00eds. Assim, desde 1983, quando assinamos a primeira Carta de Inten\u00e7\u00f5es com o FMI, este organismo tem sido um dos grandes respons\u00e1veis pelo crescimento da d\u00edvida p\u00fablica brasileira e pela submiss\u00e3o ao modelo econ\u00f4mico que emperra o nosso pa\u00eds e impede o nosso desenvolvimento socioecon\u00f4mico.<\/p>\n<p>V\u00e1rios fatos graves marcaram as sucessivas negocia\u00e7\u00f5es da d\u00edvida externa. Cabe ressaltar os seguintes aspectos, documentados durante a CPI da D\u00edvida P\u00fablica, conclu\u00edda em 2010, na C\u00e2mara dos Deputados:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">1) Os contratos disponibilizados \u00e0 CPI comprovaram apenas uma parte que n\u00e3o chega a 20% do estoque da d\u00edvida externa com bancos privados internacionais na d\u00e9cada de 1970;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">2) A partir de 1983, as d\u00edvidas do setor privado (nacional e internacional instalado no pa\u00eds) foram transferidas ao Banco Central do Brasil, mediante contratos firmados em Nova York e regidos pelas leis de NY, em completa afronta \u00e0 soberania;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">3) Em 1992, h\u00e1 forte suspeita de prescri\u00e7\u00e3o da d\u00edvida externa com bancos privados internacionais, que correspondia a quase 90% de toda a d\u00edvida externa brasileira;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">4) Em 1994, essa d\u00edvida suspeita de prescri\u00e7\u00e3o foi trocada por t\u00edtulos, no chamado Plano Brady, em Luxemburgo, conhecido para\u00edso fiscal;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">5) A partir da\u00ed, esses t\u00edtulos passaram a ser trocados por d\u00edvida interna (a juros que chegavam a 49% ao ano!) ou utilizados como moeda para comprar empresas privatizadas a partir de 1996.<\/p>\n<p>A explos\u00e3o da d\u00edvida interna se deu a partir do Plano Real e ela vem crescendo aceleradamente, principalmente devido \u00e0 pol\u00edtica monet\u00e1ria exercida pelo Banco Central: elevad\u00edssimas taxas de juros (que n\u00e3o servem para controlar o tipo de infla\u00e7\u00e3o que existe no Brasil); opera\u00e7\u00f5es de enxugamento de moeda com farta remunera\u00e7\u00e3o aos bancos por isso; a contabiliza\u00e7\u00e3o de juros como se fosse amortiza\u00e7\u00e3o, entre outros que geram centenas de bilh\u00f5es de reais de \u201cd\u00edvida p\u00fablica\u201d, sem contrapartida alguma!<\/p>\n<p>Fica claro, portanto, que a d\u00edvida p\u00fablica, historicamente, n\u00e3o tem funcionado como instrumento de financiamento do Estado, mas como uma engrenagem que promove cont\u00ednua transfer\u00eancia de recursos p\u00fablicos para o setor financeiro privado nacional e internacional. O privil\u00e9gio do gasto com a d\u00edvida \u00e9 revelado na execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria federal. No ano passado, quase 44 % do or\u00e7amento geral da Uni\u00e3o executado destinou-se ao pagamento de juros e amortiza\u00e7\u00f5es da d\u00edvida.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de absorver quase a metade do or\u00e7amento federal e boa parte dos or\u00e7amentos estaduais e municipais, a chamada d\u00edvida p\u00fablica tem sido a justificativa para cont\u00ednuas contrarreformas, como a da Previd\u00eancia; privatiza\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de outras medidas de ajuste fiscal, como o aumento da desvincula\u00e7\u00e3o das receitas da Uni\u00e3o (DRU) e dos entes federados (DREM) para 30%, e a Emenda Constitucional 95 que estabeleceu teto somente para as despesas prim\u00e1rias \u2013 por 20 anos! \u2013 para que sobrem mais recursos ainda para as despesas n\u00e3o prim\u00e1rias, que s\u00e3o justamente as despesas financeiras com a d\u00edvida.<\/p>\n<p>Por tudo isso, a Auditoria Cidad\u00e3 da D\u00edvida insiste na reivindica\u00e7\u00e3o de uma completa auditoria dessa d\u00edvida, com participa\u00e7\u00e3o social, pois sequer sabemos para quem devemos, j\u00e1 que o nome dos detentores dos t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica brasileira \u00e9, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, informa\u00e7\u00e3o sigilosa!!!<\/p>\n<p>\u00c9 preciso levar essas informa\u00e7\u00f5es a toda a sociedade que est\u00e1 pagando essa pesada conta. Por isso \u00e9 importante incentivar a participa\u00e7\u00e3o de todos na Consulta Nacional sobre Reformas e Auditoria da D\u00edvida.<\/p>\n<p><strong>O Brasil passa, atualmente, por um per\u00edodo de reformas do Estado, sob a justificativa de que este enfrenta uma crise financeira profunda. N\u00e3o s\u00f3 o atual governo federal tem proposto cortes profundos em investimentos e direitos sociais (e a reforma da Previd\u00eancia est\u00e1 na pauta, punindo os trabalhadores), como os estados encontram-se, quase todos, em situa\u00e7\u00e3o desesperadora. O que a quest\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica tem a ver com isso?<\/strong><\/p>\n<p>A crise atual \u00e9 uma crise totalmente desnecess\u00e1ria, fabricada principalmente pela pol\u00edtica monet\u00e1ria suicida praticada pelo Banco Central, que, al\u00e9m de criar cen\u00e1rio de escassez de recursos, o que impede a realiza\u00e7\u00e3o de investimentos geradores de emprego e renda, gera despesa elevad\u00edssima que sobrecarrega o or\u00e7amento p\u00fablico e cria mais d\u00edvida p\u00fablica ainda.<\/p>\n<p>Sob o argumento de \u201ccontrolar a infla\u00e7\u00e3o\u201d, o Banco Central do Brasil tem aplicado uma pol\u00edtica monet\u00e1ria fundada em dois pilares: (1) ado\u00e7\u00e3o de juros elevados e (2) redu\u00e7\u00e3o da base monet\u00e1ria, ou seja, do volume de moeda em circula\u00e7\u00e3o. Na pr\u00e1tica, tais instrumentos t\u00eam se mostrado um completo fracasso.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de n\u00e3o controlar a infla\u00e7\u00e3o, os juros elevados t\u00eam afetado negativamente n\u00e3o s\u00f3 a economia p\u00fablica %u212 provocando o crescimento exponencial da d\u00edvida p\u00fablica, que exige crescentes cortes em investimentos essenciais %u212, mas tamb\u00e9m tem afetado negativamente a ind\u00fastria, o com\u00e9rcio e a gera\u00e7\u00e3o de empregos.<\/p>\n<p>Por sua vez, a redu\u00e7\u00e3o da base monet\u00e1ria utiliza mecanismos que enxugam mais de um trilh\u00e3o de reais dos bancos, instituindo cen\u00e1rio de profunda escassez de recursos, o que acirra a eleva\u00e7\u00e3o das taxas de juros de mercado e empurra o Pa\u00eds para essa profunda crise socioecon\u00f4mica.<\/p>\n<p>Adicionalmente, o Banco Central remunera os bancos por esse volume brutal de recursos, onerando pesadamente o or\u00e7amento federal.<\/p>\n<p>Segundo o famoso economista franc\u00eas Thomas Piketty, seria um suic\u00eddio deixar de utilizar, em momentos de crise, o instrumento de emiss\u00e3o de moeda e a pr\u00e1tica de juros baixos. No Brasil, o Banco Central tem feito o contr\u00e1rio e, adicionalmente, ainda alimenta o mercado com ra\u00e7\u00e3o muito cara: opera\u00e7\u00f5es de swap cambial que t\u00eam gerado centenas de bilh\u00f5es de reais de preju\u00edzos que s\u00e3o pagos \u00e0 custa de emiss\u00e3o de mais t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica!<\/p>\n<p>O rombo das contas p\u00fablicas no Brasil decorre desses gastos financeiros. E dizem que s\u00e3o os direitos sociais que prejudicam o equil\u00edbrio fiscal do Estado, mas, na verdade, \u00e9 o sistema da d\u00edvida p\u00fablica que quebra o Estado e impede os direitos sociais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a reforma da Previd\u00eancia decorre dessa gan\u00e2ncia insaci\u00e1vel do mercado financeiro, de abocanhar a fatia de recursos que ainda \u00e9 destinada \u00e0 Previd\u00eancia, que atinge mais de 60 milh\u00f5es de pessoas no Brasil e \u00e9 o maior programa de distribui\u00e7\u00e3o de renda, para destin\u00e1-la ao pagamento de juros da chamada d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m do fato de aumentar enormemente o mercado de Previd\u00eancia Privada\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Sim, certamente, a cada vez que o governo vem a p\u00fablico, com o falacioso discurso de \u201cd\u00e9ficit\u201d, ele presta um servi\u00e7o ao mercado financeiro, pois muitas pessoas acabam sendo empurradas para adquirir planos privados de previd\u00eancia, gerando um grande volume de neg\u00f3cios para o setor financeiro.<\/p>\n<p>O sistema financeiro foi desenvolvido, originalmente, para ser um meio, e n\u00e3o um fim, isto \u00e9, sua fun\u00e7\u00e3o seria a de apoiar, de capitalizar, a economia real, da produ\u00e7\u00e3o, do com\u00e9rcio. Mas parece que, de uns tempos para c\u00e1, a especula\u00e7\u00e3o financeira, os ganhos nababescos auferidos com um \u201cdinheiro\u201d que n\u00e3o tem lastro palp\u00e1vel, tornaram-se hegem\u00f4nicos, e a economia real passou a ficar a reboque.<\/p>\n<p><strong>Isso \u00e9 um elemento fundamental de uma crise mundial que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 econ\u00f4mica, mas social, com o aumento da desigualdade e da exclus\u00e3o, e tamb\u00e9m pol\u00edtica, com o recrudescimento da extrema direita, do racismo, da xenofobia, da viol\u00eancia etc. Voc\u00ea concordaria com essa avalia\u00e7\u00e3o a respeito da hegemonia do sistema financeiro especulativo e de suas consequ\u00eancias? Se sim, qual o papel que a d\u00edvida p\u00fablica desempenharia nessa situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O atual modelo capitalista entrou em uma fase de financeiriza\u00e7\u00e3o cada dia mais aprofundada. O setor financeiro domina o poder pol\u00edtico na maioria dos pa\u00edses, bancando campanhas eleitorais; e ele domina n\u00e3o s\u00f3 o pr\u00f3prio mercado financeiro, como det\u00e9m a propriedade de empresas estrat\u00e9gicas, adquiridas nos question\u00e1veis processos de privatiza\u00e7\u00f5es mundo afora.<\/p>\n<p>Um importante estudo acad\u00eamico realizado em 2011 &#8211; A rede de controle corporativo global, revelou a impressionante concentra\u00e7\u00e3o de poder e propriedade, de parte relevante da economia mundial, nas m\u00e3os de reduzido grupo de institui\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias, A investiga\u00e7\u00e3o partiu da amostra composta pelos 43.000 maiores neg\u00f3cios do mundo e descobriu a exist\u00eancia de mais de um milh\u00e3o de v\u00ednculos de propriedades entre eles. Revelou que 40% do controle daqueles 43.000 maiores neg\u00f3cios mundiais est\u00e1 concentrado nas m\u00e3os de apenas 147 institui\u00e7\u00f5es propriet\u00e1rias, que conformam um n\u00facleo altamente conectado entre si. A maioria desse n\u00facleo &#8211; 75% &#8211; s\u00e3o entidades financeiras, e a propriedade dessas 147 institui\u00e7\u00f5es est\u00e1 nas m\u00e3os de pouco mais de 50 grandes bancos, que possuem o controle do n\u00facleo.<\/p>\n<p>Essa concentra\u00e7\u00e3o de poder, controle e propriedade dos neg\u00f3cios mundiais nas m\u00e3os dos bancos tem permitido a interfer\u00eancia deles em pol\u00edticas e decis\u00f5es governamentais estrat\u00e9gicas, concretizada nessa hegemonia financeira que voc\u00ea mencionou.<\/p>\n<p>A d\u00edvida p\u00fablica tem sido um dos principais alimentos desse capitalismo financeirizado, favorecendo a concentra\u00e7\u00e3o de renda no setor financeiro e aumentando ainda mais o seu poder. Por isso, o endividamento \u00e9 um problema presente em quase todos os pa\u00edses capitalistas.<\/p>\n<p>No Brasil, estat\u00edsticas do pr\u00f3prio Banco Central demonstram que em 2015, apesar da desindustrializa\u00e7\u00e3o, da queda no com\u00e9rcio, do desemprego e da retra\u00e7\u00e3o do PIB em quase 4%, o lucro dos bancos alcan\u00e7ou o patamar de R$ 96 bilh\u00f5es e foi 20% superior ao de 2014.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que o problema da d\u00edvida p\u00fablica, que ultrapassa a quest\u00e3o meramente econ\u00f4mica, recebe a devida aten\u00e7\u00e3o na Academia, na m\u00eddia e em outros canais de discuss\u00e3o e express\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o. \u00c9 um tema bloqueado at\u00e9 mesmo nas faculdades de economia, onde a d\u00edvida aparece apenas de passagem, como uma das vari\u00e1veis econ\u00f4micas, comparada com o pr\u00f3prio dinheiro, como se a d\u00edvida fosse uma outra forma de recurso, de moeda. Ou seja, uma vis\u00e3o totalmente descolada do papel que a chamada d\u00edvida p\u00fablica exerce na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Poucas pessoas se dedicam ao estudo do endividamento, dissecando os contratos desde a sua origem e os mecanismos que geram d\u00edvida continuamente. A maioria parte do senso comum, de que se existe uma d\u00edvida, houve o ingresso do recurso e estaria tudo certo. Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim. A experi\u00eancia de auditorias cidad\u00e3s, tanto no Brasil como em outras partes do mundo, tem demonstrado a atua\u00e7\u00e3o do que denominamos \u201cSistema da D\u00edvida\u201d, que corresponde \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o do endividamento p\u00fablico \u00e0s avessas, ou seja, em vez de servir para aportar recursos ao Estado, o processo de endividamento tem funcionado como um instrumento que promove uma cont\u00ednua e crescente subtra\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos, que s\u00e3o direcionados principalmente ao setor financeiro privado. \u00c9 por isso que \u00e9 t\u00e3o importante realizar a auditoria dessas d\u00edvidas, a fim de mostrar a verdade e segregar o que \u00e9 d\u00edvida leg\u00edtima e ileg\u00edtima.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 que \u00e9 t\u00e3o importante, realmente, conhecer e discutir essa quest\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica, essas informa\u00e7\u00f5es que a senhora passa est\u00e3o dispon\u00edveis e acess\u00edveis em algum local?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Temos diversos artigos e publica\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis em nossa <a href=\"http:\/\/www.auditoriacidada.org.br\/\" target=\"_blank\"><strong>p\u00e1gina<\/strong> <\/a>e no <strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/auditoriacidada.pagina\/?ref=ts&amp;fref=ts\" target=\"_blank\">Facebook<\/a><\/strong>. O respaldo das informa\u00e7\u00f5es que mencionei aqui pode ser verificado tamb\u00e9m nas <strong><a href=\"http:\/\/www.auditoriacidada.org.br\/blog\/2016\/08\/15\/documentos-da-cpi-da-divida-publica-20092010\/\" target=\"_blank\">An\u00e1lises T\u00e9cnicas<\/a><\/strong> que realizamos para a CPI da D\u00edvida P\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em><span style=\"font-family: 'andale mono', monospace;\">*Por Rubens Goyat\u00e1 Campante<\/span><\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><em><span style=\"font-family: 'andale mono', monospace;\">Coordenador do N\u00facleo de Pesquisas da Escola Judicial do TRT-3\u00aa Regi\u00e3o<\/span><\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><em><span style=\"font-family: 'andale mono', monospace;\">Carta Maior<\/span><\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><em><span style=\"font-family: 'andale mono', monospace;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/04\/05\/o-sistema-da-divida-quebra-o-estado-e-impede-os-direitos-sociais-diz-estudiosa\/\" target=\"_blank\">Jornal Brasil de Fato<\/a><\/span><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Maria Lucia Fattorelli, da Auditoria Cidad\u00e3 da D\u00edvida, \u00e9 a d\u00edvida p\u00fablica que causa desequil\u00edbrio econ\u00f4mico H\u00e1 um discurso<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1352,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[18,267,230,66],"class_list":["post-1351","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-destaque","tag-direitos-sociais","tag-divida-publica","tag-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1351","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1351"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1351\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1353,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1351\/revisions\/1353"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1352"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}