{"id":1670,"date":"2017-10-13T21:57:33","date_gmt":"2017-10-14T00:57:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=1670"},"modified":"2017-10-16T22:22:02","modified_gmt":"2017-10-17T00:22:02","slug":"doencas-ligadas-a-alimentacao-ja-sao-principal-problema-de-saude-publica-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/doencas-ligadas-a-alimentacao-ja-sao-principal-problema-de-saude-publica-no-mundo\/","title":{"rendered":"\u2018Doen\u00e7as ligadas \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o j\u00e1 s\u00e3o principal problema de sa\u00fade p\u00fablica no mundo\u2019"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1671\" aria-describedby=\"caption-attachment-1671\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/131017_doencas_alimentos.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1671\" src=\"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/131017_doencas_alimentos.jpg\" alt=\"Patrick Caron: \u201c\u00c9 uma revolu\u00e7\u00e3o completa que precisa ser feita na agricultura e nos sistemas alimentares\u201d. (Foto: Guilherme Santos\/Sul21)\" width=\"900\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/131017_doencas_alimentos.jpg 900w, https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/131017_doencas_alimentos-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1671\" class=\"wp-caption-text\">Patrick Caron: \u201c\u00c9 uma revolu\u00e7\u00e3o completa que precisa ser feita na agricultura e nos sistemas alimentares\u201d. (Foto: Guilherme Santos\/Sul21)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XX foi marcado, na agricultura, pelas promessas da Revolu\u00e7\u00e3o Verde de aumento da produ\u00e7\u00e3o e da produtividade para vencer o espectro da fome diante do crescimento demogr\u00e1fico. Essas promessas foram, em parte, cumpridas, mas n\u00e3o conseguiram resolver o problema da fome e da desnutri\u00e7\u00e3o no mundo. Al\u00e9m disso, desenvolveram um modelo de agricultura baseado fortemente no uso de insumos qu\u00edmicos, agrot\u00f3xicos e, mais recentemente, organismos transg\u00eanicos. Para al\u00e9m de seus resultados econ\u00f4micos, esse modelo deixou um legado ambiental e de sa\u00fade p\u00fablica que come\u00e7a a cobrar seu pre\u00e7o.<\/p>\n<p>O pesquisador franc\u00eas Patrick Caron, presidente do Painel de Alto N\u00edvel de Especialistas (HLPE) do Comit\u00ea de Seguran\u00e7a Alimentar da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO), defende a necessidade de uma revolu\u00e7\u00e3o em nossos h\u00e1bitos alimentares e no sistema agr\u00edcola como um todo. Caron veio a Porto Alegre a convite da presid\u00eancia da Assembleia Legislativa e do curso de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Desenvolvimento Rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para participar de um semin\u00e1rio sobre pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea da agroecologia. Em entrevista ao<strong>\u00a0Sul21<\/strong>, ele falou sobre os limites do atual modelo de agricultura e sobre as possibilidades abertas pela agroecologia:<\/p>\n<p>\u201cTemos que inventar outra agricultura, uma agricultura que n\u00e3o se baseie na qu\u00edmica, mas que invente novas modalidades e incorpore as quest\u00f5es da sa\u00fade, do meio ambiente, da gera\u00e7\u00e3o de emprego e do bom estar dos produtores. \u00c9 uma revolu\u00e7\u00e3o completa que precisa ser feita na agricultura e nos sistemas alimentares. Hoje, as doen\u00e7as ligadas \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, como enfermidades cardiovasculares, c\u00e2ncer e diabetes, j\u00e1 s\u00e3o o principal problema de sa\u00fade p\u00fablica no mundo\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_393581\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<figure id=\"attachment_393581\" aria-describedby=\"caption-attachment-393581\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-393581 size-full\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4272-02.jpg\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4272-02.jpg 900w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4272-02-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4272-02-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4272-02-768x512.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"600\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-393581\" class=\"wp-caption-text\">\u201cT\u00ednhamos esquecido que a seguran\u00e7a alimentar era um problema mundial ou n\u00e3o quer\u00edamos nos lembrar\u201d. (Foto: Guilherme Santos\/Sul21)<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<strong>Qual o papel que o Painel de Alto N\u00edvel de Especialistas, do Comit\u00ea de Seguran\u00e7a Alimentar da FAO, desempenha hoje no debate sobre os problemas relacionados \u00e0 fome e \u00e0 m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o no mundo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Patrick Caron<\/strong>: O Comit\u00ea de Seguran\u00e7a Alimentar foi criado nos anos 70 como um \u00f3rg\u00e3o intergovernamental sediado na FAO, em Roma. Em 2008, ocorreram protestos contra a fome em 37 pa\u00edses do mundo. T\u00ednhamos esquecido que a seguran\u00e7a alimentar era um problema mundial ou n\u00e3o quer\u00edamos nos lembrar. Ap\u00f3s esses protestos, chegou-se \u00e0 conclus\u00e3o de que era preciso refor\u00e7ar a governan\u00e7a mundial. Foi feita, ent\u00e3o, uma reforma na FAO e tamb\u00e9m no Comit\u00ea de Seguran\u00e7a Alimentar das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que passou a ser mais inclusivo, integrando vozes n\u00e3o governamentais que n\u00e3o tinham sido incorporadas no processo at\u00e9 ent\u00e3o. A segunda perna da reforma de 2010 foi a cria\u00e7\u00e3o do Painel de Especialistas de Alto N\u00edvel, composto por cientistas, com tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficas.<\/p>\n<p>A primeira delas \u00e9 analisar a evolu\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a alimentar e nutricional no mundo. Como a FAO j\u00e1 faz isso, em conjunto com outras ag\u00eancias das Na\u00e7\u00f5es Unidas, o Painel acabou n\u00e3o atuando muito nesta \u00e1rea. A segunda fun\u00e7\u00e3o \u00e9 elaborar relat\u00f3rios sobre temas cr\u00edticos e controversos para definir o que sabemos sobre o tema em quest\u00e3o, o que n\u00e3o sabemos e quais s\u00e3o os pontos de desacordo e controv\u00e9rsia. Uma vez que \u00e9 entregue o relat\u00f3rio come\u00e7a um processo de negocia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Produzir um relat\u00f3rio desses demora, em geral, mais de um ano. H\u00e1 uma consulta sobre o foco do relat\u00f3rio e, depois, uma chamada para convidar os maiores especialistas do mundo a trabalhar juntos sobre o tema escolhido. Ap\u00f3s, \u00e9 realizada uma consulta p\u00fablica sobre uma primeira vers\u00e3o do relat\u00f3rio e uma revis\u00e3o do texto pelos pares cient\u00edficos. Conclu\u00eddas essas etapas, o relat\u00f3rio \u00e9 apresentado para o Comit\u00ea de Seguran\u00e7a Alimentar e inicia um processo de negocia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Tanto o ponto de partida quanto o ponto de chegada envolvem uma negocia\u00e7\u00e3o intergovernamental.<\/p>\n<p>A terceira fun\u00e7\u00e3o do Painel \u00e9 identificar, para o Comit\u00ea, quais s\u00e3o as tem\u00e1ticas cr\u00edticas e emergentes envolvendo a seguran\u00e7a alimentar e nutricional que dever\u00e3o ser consideradas nos pr\u00f3ximos anos. Algumas delas podem se tornar tema para relat\u00f3rios futuros.<\/p>\n<p>J\u00e1 foram publicados doze relat\u00f3rios, desde 2010, sobre temas como clima, relatividade dos pre\u00e7os, apropria\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, o papel da pecu\u00e1ria, os recursos h\u00eddricos e a seguran\u00e7a social. O \u00faltimo relat\u00f3rio, publicado semana passada, \u00e9 sobre nutri\u00e7\u00e3o e sistemas alimentares. Todos eles podem ser acessados, sem custo, pela internet, na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.fao.org\/cfs\/cfs-hlpe\/en\/\" target=\"_blank\">p\u00e1gina do Comit\u00ea de Seguran\u00e7a Alimentar<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_393583\" class=\"wp-caption alignright\">\n<figure id=\"attachment_393583\" aria-describedby=\"caption-attachment-393583\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-393583\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4289-04-600x400.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4289-04-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4289-04-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4289-04-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4289-04.jpg 900w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-393583\" class=\"wp-caption-text\">\u201cH\u00e1 uma necessidade absoluta de se repensar a agricultura atrav\u00e9s de uma melhor potencializa\u00e7\u00e3o dos ciclos ecol\u00f3gicos\u201d. (Foto: Guilherme Santos\/Sul21)<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n<p><strong>\u00a0Sul21<\/strong>:\u00a0<strong>Neste \u00faltimo relat\u00f3rio, sobre nutri\u00e7\u00e3o e sistemas alimentares, quais foram as controv\u00e9rsias que motivaram a realiza\u00e7\u00e3o do estudo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Patrick Caron<\/strong>: H\u00e1 v\u00e1rias. Uma delas envolve a quest\u00e3o do sobrepeso e obesidade no mundo. Esse relat\u00f3rio trabalhou com o conceito de meio ambiente alimentar, ou seja, o conjunto de todos os elementos que fazem com que o consumidor escolha este ou aquele produto. Entre a\u00ed, por exemplo, a quest\u00e3o da publicidade para crian\u00e7as, de alimentos que n\u00e3o s\u00e3o saud\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<strong>Voc\u00ea poderia citar exemplos de tem\u00e1ticas cr\u00edticas e emergentes envolvendo a seguran\u00e7a alimentar e nutricional no presente e no futuro pr\u00f3ximo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Patrick Caron<\/strong>: Claramente, a agroecologia, que foi identificada como uma das novas tem\u00e1ticas que devem ser estudadas melhor. \u00c9 preciso entender melhor como ela funciona e contribui para o desenvolvimento sustent\u00e1vel e tamb\u00e9m como ela pode ter impacto em grande escala.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<strong>Aqui no Brasil, ainda h\u00e1 muita gente que acha que a agroecologia n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel em grande escala. Qual a sua opini\u00e3o sobre esse tema?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Patrick Caron<\/strong>: Essa \u00e9 a controv\u00e9rsia principal que precisa ser respondida. \u00c9 poss\u00edvel que um dos pr\u00f3ximos relat\u00f3rios do Painel seja sobre isso. Devemos reunir todas as evid\u00eancias e pontos de vista dispon\u00edveis para fazer um balan\u00e7o e tentar entender melhor o tema. Uma dos princ\u00edpios da agroecologia \u00e9 basear-se sobre a internaliza\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es que, at\u00e9 ent\u00e3o, foram completamente externas \u00e0 agricultura. O impacto ao meio ambiente \u00e9 um exemplo disso. Nunca essa quest\u00e3o foi considerada nas avalia\u00e7\u00f5es do rendimento de uma determinada cultura. A quest\u00e3o do clima \u00e9 outro exemplo. Nunca se procurou saber tamb\u00e9m que quantidade de carbono \u00e9 sequestrada dentro do solo em fun\u00e7\u00e3o de uma certa pr\u00e1tica agr\u00edcola. Somos obrigados a olhar para isso agora.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do emprego \u00e9 outro tema importante. Uma determinada pr\u00e1tica agr\u00edcola cria ou diminui o emprego e a renda para os produtores? Essas quest\u00f5es foram deixadas de lado e olh\u00e1vamos apenas o rendimento biof\u00edsico da cultura. Temos que olhar essa quest\u00e3o de outra maneira, para que possamos ter um sistema alimentar sustent\u00e1vel. Saindo do meu papel de presidente do Painel e falando como pesquisador, entendo que h\u00e1 uma necessidade absoluta de se repensar a agricultura atrav\u00e9s de uma melhor potencializa\u00e7\u00e3o dos ciclos ecol\u00f3gicos, mais do que for\u00e7ar pelo lado da qu\u00edmica e da gen\u00e9tica. Esse \u00e9 um grande assunto para o futuro.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:<strong>\u00a0O debate sobre a agroecologia est\u00e1 diretamente associado, entre outras coisas, ao tema dos agrot\u00f3xicos. O Brasil lidera o ranking mundial de uso desses produtos e o Rio Grande do Sul lidera o ranking no Brasil. Um dos produtos mais utilizados \u00e9 o glifosato, que est\u00e1 proibido em v\u00e1rios pa\u00edses. Um deles \u00e9 a Fran\u00e7a que pretende inclusive estender essa proibi\u00e7\u00e3o para o \u00e2mbito da Uni\u00e3o Europeia. Como est\u00e1 esse debate hoje na Europa?<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_393584\" class=\"wp-caption alignleft\">\n<figure id=\"attachment_393584\" aria-describedby=\"caption-attachment-393584\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-393584\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4325-05-600x400.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4325-05-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4325-05-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4325-05-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4325-05.jpg 900w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-393584\" class=\"wp-caption-text\">\u201cO debate sobre agrot\u00f3xicos na Europa \u00e9 muito forte hoje\u201d. (Foto: Guilherme Santos\/Sul21)<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n<p><strong>\u00a0Patrick Caron:\u00a0<\/strong>\u00c9 um debate muito forte. Eu falei antes sobre a internaliza\u00e7\u00e3o da pegada ecol\u00f3gica e da pegada social no debate sobre a agricultura. Podemos tamb\u00e9m olhar para a pegada em termos de sa\u00fade p\u00fablica. A pol\u00eamica sobre esse tema est\u00e1 muito viva na Europa envolvendo a agricultura, a sa\u00fade e o meio ambiente. Estamos no in\u00edcio do processo de combinar esses tr\u00eas elementos. O s\u00e9culo XX foi marcado pelo aumento da produ\u00e7\u00e3o e da produtividade para vencer o espectro da fome diante do crescimento demogr\u00e1fico. Agora, temos que inventar outra agricultura, uma agricultura que n\u00e3o se baseie na qu\u00edmica, mas que invente novas modalidades e incorpore as quest\u00f5es da sa\u00fade, do meio ambiente, da gera\u00e7\u00e3o de emprego e do bom estar dos produtores. \u00c9 uma revolu\u00e7\u00e3o completa que precisa ser feita na agricultura e nos sistemas alimentares.<\/p>\n<p>Temos o costume de olhar para isso como um problema o que, certamente, \u00e9 verdade. Mas temos a\u00ed tamb\u00e9m a perspectiva de olhar para a agricultura como uma maneira de buscar um desenvolvimento sustent\u00e1vel. Existe uma rela\u00e7\u00e3o muito forte entre o clima, a sa\u00fade, os ecossistemas, a agricultura, a coes\u00e3o dos territ\u00f3rios e a estabilidade pol\u00edtica. Se tomarmos a agricultura como uma alavanca para abordar essas conex\u00f5es podemos abrir um novo caminho.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<strong>A ONU divulgou um comunicado esta semana afirmando que a fome, ap\u00f3s um decl\u00ednio constante por mais de uma d\u00e9cada, a fome est\u00e1 novamente em ascens\u00e3o no mundo. Quais as raz\u00f5es disso e quais as regi\u00f5es mais afetadas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Patrick Caron<\/strong>: A fome nunca deixou de ser um problema. Como vimos acontecer em 2008, quando pensamos que n\u00e3o \u00e9 mais um problema, ela volta a aparecer. Se olharmos para o que aconteceu, desde 1970, sempre houve aproximadamente 800 milh\u00f5es de pessoas padecendo de fome no mundo. \u00c9 claro que, como a popula\u00e7\u00e3o dobrou em termos globais, a propor\u00e7\u00e3o diminuiu. Tivemos resultados espetaculares em pa\u00edses emergentes como Brasil, China e \u00cdndia, onde tivemos uma sa\u00edda da fome muito expressiva.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pode ser que tenha se criado uma percep\u00e7\u00e3o que o problema estava desaparecendo. Mas n\u00e3o \u00e9 isso. O que a ONU est\u00e1 fazendo agora \u00e9 um alerta forte e relevante em torno de dois problemas. O primeiro est\u00e1 ligado \u00e0s \u00e1reas de conflito envolvendo Iemen, Som\u00e1lia, Nig\u00e9ria e algumas partes do Sud\u00e3o do Sul que t\u00eam sua situa\u00e7\u00e3o agravada pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e pela pobreza. O segundo \u00e9 o aumento da pobreza que est\u00e1 atingindo pessoas no mundo inteiro. Esse alerta serve para nos lembrar que a fome ainda \u00e9 um flagelo muito grave no mundo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_393582\" class=\"wp-caption alignleft\">\n<figure id=\"attachment_393582\" aria-describedby=\"caption-attachment-393582\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-393582\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4283-03-600x400.jpg\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4283-03-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4283-03-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4283-03-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/20171005-jornal-sul21-gs-041017-4283-03.jpg 900w\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-393582\" class=\"wp-caption-text\">\u201cUma em cada tr\u00eas pessoas do planeta sofre algum problema alimentar. (Foto: Guilherme Santos\/Sul21)<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<strong>Voc\u00ea poderia falar um pouco sobre as diferen\u00e7as entre os conceitos de seguran\u00e7a alimentar e seguran\u00e7a nutricional? Al\u00e9m do problema da fome, no outro extremo, h\u00e1 um grave problema de sa\u00fade envolvendo obesidade e sobrepeso. Como esses dois temas se relacionam?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Patrick Caron<\/strong>: Mesmo antes do surgimento do problema da obesidade e do sobrepeso, j\u00e1 havia a ideia de que a seguran\u00e7a alimentar n\u00e3o era apenas uma quest\u00e3o de oferta alimentar. Em 1996, a seguran\u00e7a alimentar foi redefinida atrav\u00e9s de quatro dimens\u00f5es: a disponibilidade, o acesso ao alimento, a qualidade e estabilidade no tempo. Hoje, temos uma estimativa de que cerca de 2 bilh\u00f5es de pessoas sofrem de car\u00eancia alimentar, 800 milh\u00f5es de fome e outros 2 bilh\u00f5es de sobrepeso, dos quais 600 milh\u00f5es em situa\u00e7\u00e3o de obesidade. Ou seja, uma em cada tr\u00eas pessoas sofre com um desses problemas. Nos anos 2000, passamos a incorporar as quest\u00f5es da nutri\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade no debate sobre a seguran\u00e7a alimentar. Hoje, as doen\u00e7as ligadas \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, como enfermidades cardiovasculares, c\u00e2ncer e diabetes, j\u00e1 s\u00e3o o principal problema de sa\u00fade p\u00fablica no mundo.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<strong>A ind\u00fastria da alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 dominada hoje por algumas grandes corpora\u00e7\u00f5es que, ao mesmo tempo, produzem sementes, agrot\u00f3xicos e outros insumos qu\u00edmicos. Essas corpora\u00e7\u00f5es participam, de algum modo, deste debate promovido pela ONU sobre a seguran\u00e7a alimentar e nutricional?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Patrick Caron<\/strong>: Em primeiro lugar, \u00e9 importante assinalar que h\u00e1 evid\u00eancias concretas de que a concentra\u00e7\u00e3o neste setor est\u00e1 aumentando. Esses grupos est\u00e3o representados no Comit\u00ea de Seguran\u00e7a Alimentar por um mecanismo particular que \u00e9 o mecanismo do setor privado. Algumas empresas come\u00e7am a perceber que \u00e9 preciso mudar alguma coisa e manifestam interesse em se envolver neste processo. N\u00e3o \u00e9 por caridade. \u00c9 uma quest\u00e3o de sustentabilidade para elas mesmas tamb\u00e9m pensar em temas como assegurar o abastecimento no longo prazo ou em como n\u00e3o sofrer campanhas por parte de consumidores. D\u00e1 para perceber que h\u00e1 um debate crescente sobre com\u00e9rcio solid\u00e1rio, com\u00e9rcio justo e inven\u00e7\u00e3o de novos circuitos de comercializa\u00e7\u00e3o, que afeta todas as cadeias de comercializa\u00e7\u00e3o e questiona os grandes grupos industriais. Est\u00e1 sendo produzido um relat\u00f3rio agora sobre esse tema, que dever\u00e1 estar pronto dentro de um ano.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<strong>Voc\u00ea veio a Porto Alegre participar de um debate sobre agroecologia e pol\u00edticas p\u00fablicas. Poderia indicar um desafio que considera importante para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas nesta \u00e1rea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Patrick Caron<\/strong>: O debate sobre pol\u00edticas p\u00fablicas em agroecologia \u00e9, sem d\u00favida, muito importante e deve buscar conectar uma vis\u00e3o do que est\u00e1 acontecendo no mundo com uma vis\u00e3o do que acontece em n\u00edvel regional nos diferentes pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Penso que um dos grandes desafios do futuro nesta \u00e1rea \u00e9 reconhecer que nenhuma localidade est\u00e1 isolada e h\u00e1 uma conex\u00e3o muito grande entre o que acontece no mundo e o que acontece localmente. A capacidade de entender essas rela\u00e7\u00f5es e conex\u00f5es \u00e9 muito importante para acompanhar as transforma\u00e7\u00f5es em curso no mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Por: Marco Weissheimer<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/jornal\/doencas-ligadas-alimentacao-ja-sao-principal-problema-de-saude-publica-no-mundo\/\" target=\"_blank\">Sul21<\/a><\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O s\u00e9culo XX foi marcado, na agricultura, pelas promessas da Revolu\u00e7\u00e3o Verde de aumento da produ\u00e7\u00e3o e da produtividade<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1671,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[316,36,168,50],"class_list":["post-1670","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-agroecologia","tag-agrotoxico","tag-alimento","tag-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1670","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1670"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1670\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1674,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1670\/revisions\/1674"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}