{"id":1728,"date":"2017-12-27T11:26:05","date_gmt":"2017-12-27T13:26:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=1728"},"modified":"2017-12-27T11:26:05","modified_gmt":"2017-12-27T13:26:05","slug":"o-espirito-de-natal-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/o-espirito-de-natal-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"O esp\u00edrito de Natal do capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/271217-espirito-natal.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1729\" src=\"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/271217-espirito-natal.jpg\" alt=\"271217-espirito-natal\" width=\"696\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/271217-espirito-natal.jpg 696w, https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/271217-espirito-natal-300x115.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras desse Natal, fui a um shopping. Como sempre, cheguei antes das pessoas com quem tinha marcado. Impaciente, fui at\u00e9 o banheiro. Na porta do banheiro, uma senhorinha terceirizada da limpeza me olhava. Quando ficamos s\u00f3 eu e ela no banheiro ela veio na minha dire\u00e7\u00e3o e me disse: \u201c<em>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 indo embora?<\/em>\u201c. Achando estranho, respondi que tinha acabado de chegar. Ela ent\u00e3o falando muito baixo e r\u00e1pido: \u201c<em>\u00c9 que eu queria te pedir um favor<\/em>\u201c. E me pediu para trocar um panetone na promo\u00e7\u00e3o do shopping. Disse que me levava at\u00e9 o lugar, que era s\u00f3 juntar 400 reais em notas de compras e trocar por um panetone, mas ela n\u00e3o podia fazer isso porque trabalhava l\u00e1.<\/p>\n<p>Arrancou um bolinho amassado de notinhas fiscais do uniforme e me levou at\u00e9 o elevador de servi\u00e7o. Tentei puxar algum assunto e ela n\u00e3o respondia, apertava impaciente o bot\u00e3o do elevador e olhava para todos os lados como quem estava nervosa e com medo de ser vista. Apontou para o ponto de troca e quando eu ia comentar mais alguma coisa ela j\u00e1 tinha virado as costas e sa\u00eddo andando disfar\u00e7ando.<\/p>\n<p>Peguei a fila um pouco chocada \u2013 era s\u00f3 um panetone Bauducco, mesmo que fosse caro n\u00e3o parecia nada demais, desses que as pessoas ganham junto com cestas no final do ano. Mas j\u00e1 me bateu o \u00f3dio de saber que nada no capitalismo \u00e9 psra todo mundo. O shopping distribui panetones simples pra pessoas que nem esperavam ganhar nada, s\u00f3 s\u00e3o avisadas em alguma loja cara que com os R$ 400 \u00a0que gastaram podem ganhar um panetone. Eu mesma nunca gastaria R$ 400 \u00a0num shopping acho, ali\u00e1s, ainda \u00e9 um mist\u00e9rio para minha cabe\u00e7a como que tem gente que faz compras de verdade em shopping, se existem lugares bem mais baratos.<\/p>\n<p>Chegou minha vez e entreguei o bolinho de papel para a atendente, que fez um cadastro meu (claro, como tudo no capitalismo, o neg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 nem s\u00f3 uma promo\u00e7\u00e3o para aumentar as vendas \u2013 quem se sente estimulado a gastar R$ 400 s\u00f3 pra ganhar um panetone Bauduco? -, \u00e9 para aumentar o banco de dados de contatos do shopping para futura publicidade). A mo\u00e7a contava as notinhas quando tirou uma e disse: \u201c<em>Senhora, essa nota n\u00e3o \u00e9 daqui<\/em>\u201c. Foi a\u00ed que percebi que provavelmente a senhorinha s\u00f3 tinha juntado notinhas que achou limpando o shopping, quem sabe no lixo, observando as pessoas que sa\u00edam das lojas.<\/p>\n<p>Ao final da contagem a atendente disse de novo: \u201cEst\u00e1 faltando R$ 2 \u201c. N\u00e3o aguentei, repeti chocada: \u201c<em>Est\u00e1 faltando R$ 2 de R$ 400? Se eu pagasse o estacionamento desse shopping j\u00e1 ia dar esse valor, vou ter que pegar a fila toda de novo depois de comprar sei l\u00e1, uma casquinha?<\/em>\u201d E a atendente s\u00f3 deu de ombros porque realmente n\u00e3o podia fazer nada. O capitalismo \u00e9 assim tamb\u00e9m, toda essa compartimentaliza\u00e7\u00e3o alienante do trabalho para tirar qualquer poder de decis\u00e3o do trabalhador sobre seu pr\u00f3prio trabalho, enquanto o consumidor s\u00f3 poderia dirigir a raiva a algu\u00e9m que n\u00e3o pode fazer nada. J\u00e1 ia quase saindo quando um homem do meu lado tirou uma notinha do bolo dele e disse: \u201c<em>Ah, no meu est\u00e1 sobrando R$ 3, toma pra completar o seu<\/em>\u201c. Foi uma gentileza qualquer. Agradeci, entreguei a \u00faltima e triunfante notinha e recebi o panetone depois de mais ou menos meia hora de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tentei voltar pelo elevador de servi\u00e7o, onde mais um terceirizado esperava. Perguntei se o elevador ia subir ou descer e ele me olhou espantado, como quem n\u00e3o entendeu porque eu estava ali ou quem n\u00e3o est\u00e1 acostumado a ser percebido, e n\u00e3o respondeu. Decidi descer de escada rolante at\u00e9 o banheiro onde tinha encontrado a senhora. No caminho, passei por ela e satisfeita estendi o panetone. Para minha surpresa, ela passou reto, fingindo que n\u00e3o me viu, e foi at\u00e9 o banheiro. No banheiro ela finalmente parou de me ignorar, pegou o panetone muito feliz e disse \u201c<em>Deus te aben\u00e7oe!<\/em>\u201c. Virou e saiu andando antes que fosse vista falando comigo.<\/p>\n<p>Terr\u00edvel. Saber que certamente ela seria demitida se algu\u00e9m percebesse qualquer parte daquela movimenta\u00e7\u00e3o, mesmo uma simples conversa entre a \u201ccliente\u201d e a funcion\u00e1ria da limpeza. Um panetone, um simples panetone que muita gente ganha do servi\u00e7o e que os clientes nem queriam muito. Quem sabe n\u00e3o vai fazer o Natal feliz na casa dela, quem sabe ela n\u00e3o deu de presente para algu\u00e9m que gosta muito. Quem sabe ela j\u00e1 n\u00e3o devia estar aposentada. Mas o certo \u00e9 que ela quis arriscar muito pelo panetone. Eu mesma nem teria coragem de pedir isso para algu\u00e9m, s\u00f3 um panetone n\u00e3o ia me fazer falar com um estranho. Por mais que eu n\u00e3o fosse o p\u00fablico alvo da promo\u00e7\u00e3o, eu tamb\u00e9m n\u00e3o ligava para o panetone.<\/p>\n<p>Tudo aquilo me embrulhou o est\u00f4mago e me peguei pensando de novo no motivo pelo qual a gente luta. Por que \u00e9 que as pessoas acham normal um mundo desses e loucura \u00e9 falar de revolu\u00e7\u00e3o? Teorizamos refeit\u00f3rios p\u00fablicos, lavanderias p\u00fablicas, creches p\u00fablicas, hospitais, escolas, uma economia planificada em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 anarquia do livre mercado, pleno emprego para ningu\u00e9m mais passar por uma humilha\u00e7\u00e3o sequer. Tem gente que s\u00f3 quer um simples panetone e \u00e9 bombardeada pelo Luciano Huck num s\u00e1bado \u00e0 tarde proclamando a beleza do Natal por ser essa \u00e9poca de caridade. Mas \u00e9 o socialismo que \u00e9 a tal da \u201cutopia\u201d. Se Huck um dia tivesse que usar o SUS e visse gente chegando esfaqueada e escoltada pela PM, quem sabe deixava de ser o playboy imbecil que largou a S\u00e3o Francisco porque ganhou um programa de TV na Globo, com os contatinhos certos.<\/p>\n<p>S\u00e3o 100 anos desde a Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Os primeiros passos foram dados. Outubro criou creches, ampliou o n\u00famero de escolas, deu o direito at\u00e9 \u00e0 cultura aos trabalhadores, multiplicando teatros e \u00f3peras p\u00fablicas. A mis\u00e9ria era maior que os planos bolcheviques previram, a guerra na Europa e as guerras contrarrevolucion\u00e1rias foram duras. Mas nada \u00e9 mais duro que o capitalismo, onde a mis\u00e9ria faz parte da roda da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei voc\u00eas, mas cada gesto de gentileza das pessoas, daqueles que quem faz n\u00e3o ganha nada, refor\u00e7a a chama da esperan\u00e7a revolucion\u00e1ria. N\u00e3o somos naturalmente ruins e ego\u00edstas, somos resultado de um emaranhado complicado de rela\u00e7\u00f5es sociais. S\u00f3 falta mesmo uma fa\u00edsca de consci\u00eancia, porque somos a esmagadora maioria e temos o controle do funcionamento do mundo em nossas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Que esse Natal seja muito vermelho, que anuncie um ano de muitas lutas e greves e que o cora\u00e7\u00e3o de voc\u00eas tamb\u00e9m tenha certeza de que n\u00e3o h\u00e1 sentido algum sen\u00e3o em viver pela constru\u00e7\u00e3o de outra realidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s v\u00e9speras desse Natal, fui a um shopping. Como sempre, cheguei antes das pessoas com quem tinha marcado. 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