{"id":1809,"date":"2018-03-20T23:11:24","date_gmt":"2018-03-21T02:11:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=1809"},"modified":"2018-03-20T23:11:24","modified_gmt":"2018-03-21T02:11:24","slug":"o-filme-sobre-a-guerrilha-do-araguaia-expoe-a-perversidade-do-exercito-que-nao-poupou-nem-os-soldados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/o-filme-sobre-a-guerrilha-do-araguaia-expoe-a-perversidade-do-exercito-que-nao-poupou-nem-os-soldados\/","title":{"rendered":"O filme sobre a guerrilha do Araguaia exp\u00f5e a perversidade do Ex\u00e9rcito, que n\u00e3o poupou nem os soldados"},"content":{"rendered":"<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hUN2IEWsGBg?feature=oembed\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A guerrilha do Araguaia foi um laborat\u00f3rio de experi\u00eancias humanas mais perversas que existiu. Foi puro terror. Terror de Estado, baseado em uma doutrina de seguran\u00e7a nacional que tinha como objetivo destruir, exterminar atrav\u00e9s de t\u00e9cnicas de guerra algumas dezenas de sonhadores militantes do PCdoB que combatiam o regime de exce\u00e7\u00e3o implantado pelos militares em 1964.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O filme \u201cSoldados do Araguaia\u201d, que estreia no dia 22 de mar\u00e7o nos cinemas em S\u00e3o Paulo, conta uma faceta dessa perversidade. O diretor do filme, Belis\u00e1rio Franca, revela que ficou impressionado com a for\u00e7a do Ex\u00e9rcito em manter sil\u00eancio por tantos anos sobre a viol\u00eancia contra os cidad\u00e3os, militantes pol\u00edticos, habitantes da regi\u00e3o e pr\u00f3prios soldados. \u201cEssas hist\u00f3rias estavam escondidas\u201d, diz.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u201cSoldados do Araguaia\u201d \u00e9 um document\u00e1rio que se prop\u00f5e a dar voz \u00e0s mem\u00f3rias e traumas de recrutas e militares de baixa patente do Ex\u00e9rcito que combateram na sangrenta e nebulosa Guerrilha do Araguaia.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Esses militares foram marginalizados em todos os sentidos. Pela historiografia oficial, pelo pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito e pela comunidade onde habitam. Agora, esses homens v\u00edtimas da guerra escondida, tiveram coragem de denunciar o que sofreram. Conseguiram ultrapassar a barreira psicol\u00f3gica da timidez e do medo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Com a cara limpa, sob forte impacto emocional, soldados, cabos e sargentos contam o que foram obrigados a enfrentar, sem nunca terem tido um treinamento adequado. Aqueles que n\u00e3o se mataram ou se perderam na vida convivem diariamente com fantasmas que os atormentam sem parar. Outros sofrem com o alcoolismo, o desejo de suic\u00eddio e sofrem estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico devido ao abuso e sadismo que sofreram e testemunharam.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Esses ex-integrantes do Ex\u00e9rcito que foram obrigados a atuar contra os militantes do PCdoB e contra o seu pr\u00f3prio povo durante a repress\u00e3o \u00e0 guerrilha estavam totalmente esquecidos. Suas hist\u00f3rias ficaram invisibilizadas com o tempo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u201cTive contato com essas hist\u00f3rias que foram levantadas pelo jornalista Ismael Machado. Ele publicou parte dos casos num di\u00e1rio paraense e achei que seria necess\u00e1rio contar tudo\u201d, explica Franca.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A maior dificuldade durante a produ\u00e7\u00e3o da pel\u00edcula, diz o diretor, foi ganhar a confian\u00e7a dos soldados para que contassem tudo o que sabem. \u201cN\u00e3o estava interessado s\u00f3 numa entrevista. Havia o testemunho de mem\u00f3ria submergida. Ent\u00e3o foi preciso ter a confian\u00e7a de todos para expor essas mem\u00f3rias. Eles trouxeram as dores que convivem com eles diariamente. \u00c9 um fantasma que permanece cotidianamente na cabe\u00e7a dessas pessoas\u201d, relata Franca.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O filme mostra fielmente essas mem\u00f3rias traum\u00e1ticas, com delicadeza e respeito. Um importante marco para a hist\u00f3ria da ditadura no Brasil.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">No ano passado, o \u201cSoldados do Araguaia\u201d foi exibido especialmente num cinema na cidade de Marab\u00e1, no sul do Par\u00e1, regi\u00e3o do Araguaia. Estiveram presentes alguns protagonistas que j\u00e1 haviam gravado depoimento e outros que haviam se recusado a falar. \u201cMas aqueles que n\u00e3o quiseram falar num primeiro momento acabaram depondo em pleno cinema, ap\u00f3s a exibi\u00e7\u00e3o do filme, de t\u00e3o emocionados que ficaram\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Quando serviram o Ex\u00e9rcito no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, contam os ex-soldados, ingressar no servi\u00e7o militar era algo digno, que todos queriam. Muitos entravam para poder receber o certificado de reservista. Mas quando entraram no quartel foram surpreendidos com tamanha brutalidade.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Da regi\u00e3o de Marab\u00e1, por exemplo, eram todos filhos de camponeses ou de moradores da pacata cidade. Dos cerca de 60 que se alistaram em 1973, todos com 18 anos de idade, s\u00f3 dois tinham cursado o gin\u00e1sio (atual ensino fundamental II). O restante era pessoal da ro\u00e7a, da lavoura, que cortava castanha no meio do mato. Todos muito simples, sem viv\u00eancia social e isolados do mundo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Com 15 dias dentro do quartel e sem saber lidar com armas de fogo foram obrigados a participar de grupos de combate para ca\u00e7ar os guerrilheiros no meio da floresta Amaz\u00f4nica. \u201cN\u00e3o me orgulho disso n\u00e3o\u201d, repete o soldado Josean.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u201cA gente acordava de madrugada com eles jogando bomba debaixo das barracas da gente\u201d, diz outro soldado. Mas respirar g\u00e1s lacrimog\u00eanio era o menor supl\u00edcio a que tiveram que passar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Eram amarrados, nus, em estacas e cobertos com \u00e1gua com a\u00e7\u00facar. Formigas, marimbondos e outros bichos os atacavam impiedosamente. Foram obrigados a beber sangue de boi coagulado depois de permanecerem dois dias sem alimenta\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Para suportar os treinamentos e n\u00e3o ter d\u00f3 do que iriam enfrentar, os pr\u00f3prios soldados passavam por sess\u00f5es de tortura no quartel. Eram colocados no pau de arara. O soldado Fonseca relata que perdeu um test\u00edculo de tanto apanhar no pau de arara, que era chamado pelos militares de \u201cpau do capit\u00e3o\u201d. Fonseca chora ao lembrar dessa tortura a que foi submetido e que ficou silenciado por mais de 40 anos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Sem preparo f\u00edsico ou emocional foram submetidos a muita viol\u00eancia. Depois acabaram descartados, sem direitos ou possibilidade de tratamento psicol\u00f3gico para o que sofreram em campo dentro da selva. Tampouco tiveram perspectivas de receber alguma repara\u00e7\u00e3o pelos danos sofridos.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Foram obrigados a combater um inimigo que desconheciam. Ali\u00e1s, sabiam quem eram os chamados guerrilheiros. E por eles tinham algum respeito, pois a popula\u00e7\u00e3o local recebia ajuda dos militantes em todos os sentidos. Ajuda essa que o poder p\u00fablico n\u00e3o dava.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Finda a guerra, os soldados do Araguaia foram abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Ficaram desajustados com a sociedade em que habitam. \u201cEssa guerra, para a gente, era isso. Ou matar ou morrer. Nos colocaram numa situa\u00e7\u00e3o de risco. Eles queriam resolve o problema l\u00e1\u201d, descreve o soldado Ribamar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Soldado Fonseca narra que n\u00e3o suportou ver os moradores da regi\u00e3o serem torturados pelos militares. \u201cPegavam uma agulha grande, usada para costurar saco de castanha. Era a chamada agulha de fada. Enfiavam na unha do cara e saia aqui atr\u00e1s. Do\u00eda por dentro ver aquilo\u201d. Tamb\u00e9m foram obrigados a queimar as casas, pai\u00f3is e qualquer ro\u00e7a que pudesse gerar alimentos para a popula\u00e7\u00e3o e para os guerrilheiros.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Os militares n\u00e3o respeitavam nem os familiares dos seus soldados. \u201cDeram coronhada na barriga da minha m\u00e3e, que estava gestante. Ela morreu. Culpado disso foi essa bendita guerrilha do Araguaia\u201d, desabafa o soldado Fonseca.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Em 1975, quando todos os focos de resist\u00eancias dos militantes pol\u00edticos no Araguaia haviam sido dizimados, o Ex\u00e9rcito dispensou os soldados. \u201cSimplesmente colocaram a gente em forma e disseram que acabou. Devolveram a gente para nossa fam\u00edlia sem direito a nada. Quando voltei, meus amigos de fora era tudo inimigo\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u201cTenho medo at\u00e9 hoje de andar na rua. N\u00e3o se sabe a rea\u00e7\u00e3o das pessoas\u201d, diz o soldado Goes.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u201cTenho pesadelos horr\u00edveis todo dia. Acordo sufocado. Bati na minha mulher, dormindo. Estava sonhando que brigava com o Osvald\u00e3o (guerrilheiro l\u00edder no Araguaia)\u201d, revela Goes.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">E a viol\u00eancia do Estado assumia graus t\u00e3o refinados de crueldade que um soldado contou ter sido obrigado a presenciar a tortura do pr\u00f3prio pai. E que ap\u00f3s esse epis\u00f3dio nunca mais foi o mesmo homem.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_208886\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/o-filme-sobre-a-guerrilha-do-araguaia-expoe-a-perversidade-do-exercito-que-nao-poupou-nem-os-soldados-por-eduardo-reina\/helicoptero-araguaia\/\" rel=\"attachment wp-att-208886\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-208886\" src=\"https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/helicoptero-araguaia-600x338.jpg\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" srcset=\"https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/helicoptero-araguaia-600x338.jpg 600w, https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/helicoptero-araguaia-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/helicoptero-araguaia-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/helicoptero-araguaia-747x420.jpg 747w, https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/helicoptero-araguaia-640x360.jpg 640w, https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/helicoptero-araguaia-681x383.jpg 681w, https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/helicoptero-araguaia.jpg 1280w\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"338\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Helic\u00f3ptero usado pelo Ex\u00e9rcito no Araguaia<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"p2\"><span class=\"s1\">O filme mostra que a viol\u00eancia da ditadura militar no Araguaia era generalizada. Atingia guerrilheiros, camponeses, \u00edndios, mulheres, idosos, crian\u00e7as. E tamb\u00e9m n\u00e3o poupou seus pr\u00f3prios bra\u00e7os armados.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u201cEsses senhores podem ser contestados, mas isso n\u00e3o quebra o objetivo primordial do filme, que \u00e9 dar escuta a seus traumas. Queremos provocar a reflex\u00e3o sobre como nosso povo tem a subjetividade amea\u00e7ada, a identidade aniquilada em prol de agendas escusas. O filme pretende convocar a sociedade a refletir sobre o perigo a que todos n\u00f3s estamos submetidos quando mem\u00f3rias coletivas t\u00e3o relevantes para nossa constru\u00e7\u00e3o como na\u00e7\u00e3o s\u00e3o silenciadas por d\u00e9cadas. Silenciamento esse que \u00e9 fruto da naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia como escolha da sociedade brasileira, endossada pela impunidade que nos atravessa desde sempre\u201d reflete Belis\u00e1rio Franca.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong><span class=\"s1\">OPERA\u00c7\u00c3O ANJO DA GUARDA<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">H\u00e1 enorme dificuldade para se obter informa\u00e7\u00f5es que resgatem a hist\u00f3ria dos envolvidos na guerrilha do Araguaia junto a popula\u00e7\u00e3o local. Passados 45 anos do movimento desenvolvido pelo PCdoB e contra o regime de exce\u00e7\u00e3o que vigorava no Brasil, ainda persiste a atua\u00e7\u00e3o de agentes militares na regi\u00e3o e, principalmente, junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. H\u00e1 intimida\u00e7\u00e3o sobre as pessoas que t\u00eam algum tipo de informa\u00e7\u00e3o que possam esclarecer fatos sobre a guerrilha.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u201cFomos vigiados o tempo todo. Mesmo depois do fim da guerrilha do Araguaia e dos outros levantes. Esse processo de vigiar a gente foi ficando, ficando. Sempre com agentes de olho em tudo. Aconteceu pelo menos at\u00e9 o fim do governo de Fernando Collor de Mello (1992). Mas pode ter prosseguido\u201d, explica Luiza Canuto. Ela \u00e9 filha de Jo\u00e3o Canuto de Oliveira, ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Concei\u00e7\u00e3o do Araguaia. O sindicalista foi assassinado em dezembro de 1985.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A lei do sil\u00eancio impera no Araguaia. Filhos de lavradores t\u00eam medo de contar o que sabem. O maior temor deles \u00e9 se encontrar com o coronel Sebasti\u00e3o Curi\u00f3, que atuou na repress\u00e3o aos militantes pol\u00edticos na regi\u00e3o na d\u00e9cada de 1970.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Curi\u00f3 disse uma vez que o objetivo \u00e9 manter o m\u00e1ximo de segredo poss\u00edvel. Ele disse a jornalista certa vez que uma parte das For\u00e7as Armadas estava com ele, em sil\u00eancio. Afirmou com todas as letras que tem um pacto com algumas pessoas para matar quem contar alguma coisa. E aceita ser morto de ele pr\u00f3prio contar alguma coisa sobre a repress\u00e3o das For\u00e7as Armadas no Araguaia.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Pelo menos duas pessoas j\u00e1 perderam a vida depois de contar vers\u00f5es sobre a repress\u00e3o \u00e0 guerrilha. Em 2011, Raimundo Clarindo do Nascimento, o Caca\u00faba, foi assassinado em Serra Pelada, no Par\u00e1, distrito da cidade de Curion\u00f3polis; munic\u00edpio do qual Curi\u00f3 j\u00e1 foi prefeito.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Caca\u00faba revelou algozes de v\u00e1rios guerrilheiros e codinomes de agentes da repress\u00e3o. Acabou assassinado. Passados sete anos, a pol\u00edcia n\u00e3o descobriu quem \u00e9 o autor do crime. Ele foi um mateiro que trabalhou para o Ex\u00e9rcito, ajudando na captura de militantes.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Valdim Pereira de Souza, ex-militar e motorista de Curi\u00f3 \u00e0 \u00e9poca, disse em depoimento ao Minist\u00e9rio P\u00fablico que participou da retirada de corpos e ossadas de guerrilheiros e camponeses mortos em v\u00e1rias localidades da regi\u00e3o. Por causa dessas den\u00fancias, Souza foi amea\u00e7ado, assim como v\u00e1rios moradores das cidades da regi\u00e3o do Araguaia onde se desenvolveu a repress\u00e3o \u00e0 guerrilha. O ex-militar recebeu telefonemas com amea\u00e7as, dizendo para calar a boca e n\u00e3o se meter em encrenca.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Outro militar que participou da ca\u00e7a aos militantes pol\u00edticos, o tenente Jos\u00e9 Vargas Jimenez, tamb\u00e9m pagou com a pr\u00f3pria vida a \u201cousadia\u201d de contar parte da hist\u00f3ria da guerrilha do Araguaia em que foi protagonista. Autor de dois livros com in\u00fameras den\u00fancias \u2013 Bacaba e Bacaba II \u2013 Jimenez, que atuou sob o codinome de Chico D\u00f3lar, foi encontrado morto com dois tiros no peito em setembro de 2017 na sala de sua resid\u00eancia, em Campo Grande (MS).<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O Ex\u00e9rcito continuou a exercer forte press\u00e3o junto aos moradores locais no sul do Par\u00e1. Essa a\u00e7\u00e3o de repress\u00e3o foi denominada \u201cOpera\u00e7\u00e3o Anjos da Guarda\u201d, para monitoramento aos ex-colaboradores do Ex\u00e9rcito no Araguaia. Na cidade de Marab\u00e1 era mantido um escrit\u00f3rio que se passava como centro de elabora\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de not\u00edcias. Seria uma falsa ag\u00eancia de not\u00edcias.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Dentre os v\u00e1rios documentos apreendidos nesse local h\u00e1 um que revelou os principais alvos do Ex\u00e9rcito na Opera\u00e7\u00e3o Anjo da Guarda: \u201cApoio junto ao CIE (Centro de Intelig\u00eancia do Ex\u00e9rcito) referente \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es Anjo da Guarda (desmobiliza\u00e7\u00e3o dos ex-guias do Araguaia), Castanheira (crime organizado e madeireiras) e Gavi\u00f5es (ONGs e \u00edndios)\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Essa a\u00e7\u00e3o de intimida\u00e7\u00e3o desenvolvida pelos agentes militares foi descoberta pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000. Tal constata\u00e7\u00e3o se transformou numa a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica assinada pelo promotor Marlon Weichert, encaminhada ao juiz federal da Subse\u00e7\u00e3o Judici\u00e1ria de Marab\u00e1 (PA) em 8 de agosto de 2001.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Essa fiscaliza\u00e7\u00e3o de intimida\u00e7\u00e3o sobre os moradores das cidades localizadas na regi\u00e3o onde se desenvolveu a guerrilha no Araguaia j\u00e1 era uma constata\u00e7\u00e3o feita por pesquisadores e por familiares dos desaparecidos desde os anos 1990, quando come\u00e7aram a ser realizadas expedi\u00e7\u00f5es nessas localidades. Foram expedi\u00e7\u00f5es realizadas pela Comiss\u00e3o Especial sobre Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos e pela Comiss\u00e3o de Mortos e Desaparecidos na Guerrilha do Araguaia.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Depois das movimenta\u00e7\u00f5es, das a\u00e7\u00f5es civis abertas pelos Procuradores da Rep\u00fablica e solicita\u00e7\u00f5es junto aos \u00f3rg\u00e3os federais, essas a\u00e7\u00f5es de intimida\u00e7\u00e3o diminu\u00edram ou ficaram mais sofisticadas, sem denota\u00e7\u00e3o de repress\u00e3o e contrainforma\u00e7\u00e3o. Pelo menos aparentemente.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Um dos objetivos do Ex\u00e9rcito em manter a \u201cm\u00e3o pesada\u201d sobre os moradores locais \u00e9 dar continuidade ao car\u00e1ter secreto com que se desenvolveram as a\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o \u00e0 guerrilha do Araguaia e o sil\u00eancio dos v\u00e1rios personagens envolvidos e sobreviventes.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O sigilo com que o Ex\u00e9rcito protegeu suas opera\u00e7\u00f5es no Araguaia tinha o prop\u00f3sito de negar aos advers\u00e1rios do regime \u201co reconhecimento de que efetivos das for\u00e7as armadas estavam sendo empregados num problema de defesa interna dessa natureza\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Por Eduardo Reina<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/o-filme-sobre-a-guerrilha-do-araguaia-expoe-a-perversidade-do-exercito-que-nao-poupou-nem-os-soldados-por-eduardo-reina\/\" target=\"_blank\">DCM<\/a><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerrilha do Araguaia foi um laborat\u00f3rio de experi\u00eancias humanas mais perversas que existiu. Foi puro terror. Terror de Estado,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1810,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[249,343,344,342,338,258],"class_list":["post-1809","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-ditadura","tag-exercito","tag-luta-armada","tag-soldados-do-araguaia","tag-tortura","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1809","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1809"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1809\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1811,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1809\/revisions\/1811"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1810"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1809"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1809"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1809"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}