{"id":1899,"date":"2018-05-07T23:34:44","date_gmt":"2018-05-08T02:34:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=1899"},"modified":"2018-05-07T23:36:33","modified_gmt":"2018-05-08T02:36:33","slug":"bncc-do-ensino-medio-prejudicara-jovens-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/bncc-do-ensino-medio-prejudicara-jovens-pobres\/","title":{"rendered":"BNCC do ensino m\u00e9dio prejudicar\u00e1 jovens pobres"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1900\" aria-describedby=\"caption-attachment-1900\" style=\"width: 795px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/070518-MEC.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-1900\" src=\"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/070518-MEC-1024x683.jpg\" alt=\"Bras\u00edlia - O presidente do CNE, Eduardo Deschamps, a secret\u00e1ria executiva do MEC, Maria Helena Castro e o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Mendon\u00e7a Filho participam da entrega da BNCC (Fabio Rodrigues Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil)\" width=\"795\" height=\"530\" srcset=\"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/070518-MEC.jpg 1024w, https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/070518-MEC-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 795px) 100vw, 795px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1900\" class=\"wp-caption-text\">Bras\u00edlia &#8211; O presidente do CNE, Eduardo Deschamps, a secret\u00e1ria executiva do MEC, Maria Helena Castro e o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Mendon\u00e7a Filho participam da entrega da BNCC (Fabio Rodrigues Pozzebom\/Ag\u00eancia Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Negar aos jovens o direito a uma forma\u00e7\u00e3o integral, especialmente na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, em todas as \u00e1reas de conhecimento, \u00e9 conden\u00e1-los \u00e0 uma educa\u00e7\u00e3o inferior, sem qualidade e meramente instrumental. E ser\u00e3o os jovens pobres, matriculados nas redes p\u00fablicas, os maiores prejudicados, aumentando ainda mais o fosso que separa os estudantes das escolas p\u00fablicas em rela\u00e7\u00e3o aos estudantes das escolas privadas.<\/p>\n<p>O MEC divulgou, no \u00faltimo dia 3 de abril, a proposta de\u00a0Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino m\u00e9dio, que ser\u00e1 um instrumento de orienta\u00e7\u00e3o dos curr\u00edculos a serem desenvolvidos pelos diversos sistemas de ensino estaduais e municipais do Brasil. Esta proposta, para ser entendida na sua plenitude, deve ser analisada no contexto da Lei da reforma do \u2018novo\u2019 ensino m\u00e9dio\u201d (Lei 13.415\/2017), imposta por uma Medida Provis\u00f3ria, sem debate com a sociedade e sem a participa\u00e7\u00e3o dos jovens estudantes, os maiores interessados.<\/p>\n<p>Atualmente, o ensino m\u00e9dio \u00e9 composto por 13 disciplinas obrigat\u00f3rias, consideradas um excesso. Esta predomin\u00e2ncia de disciplinas \u00e9 questionada e apregoa-se a necessidade de uma forma\u00e7\u00e3o por \u00e1reas de conhecimento e interdisciplinar. Por\u00e9m, para Eduardo F. Mortimer, professor da Universidade Federal de Minas Geias (UFMG) e integrante da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC), \u201cpara a idade em que est\u00e3o os alunos do ensino m\u00e9dio, essa interdisciplinaridade tem que ter por base uma s\u00f3lida vis\u00e3o das disciplinas que comp\u00f5em o curr\u00edculo e, portanto, n\u00e3o se pode abrir m\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o atual, que \u00e9 disciplinar para esse campo de atua\u00e7\u00e3o dos professores. O ensino m\u00e9dio \u00e9 justamente o momento em que as disciplinas se configuram em toda a sua plenitude\u201d.<\/p>\n<p>O que mais se destaca nesta lei do ensino m\u00e9dio \u00e9 a n\u00e3o obrigatoriedade de as escolas oferecerem os cinco itiner\u00e1rios (linguagens e suas tecnologias; matem\u00e1tica e suas tecnologias; ci\u00eancias da natureza e suas tecnologias; ci\u00eancias humanas e sociais aplicadas e forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e profissional). Assim, as escolas, n\u00e3o sendo obrigadas, poder\u00e3o simplesmente optar por oferecer alguns itiner\u00e1rios em detrimento de outros, especialmente onde faltam professores, como \u00e9 o caso da f\u00edsica e qu\u00edmica, n\u00e3o permitindo que estudantes pobres de escolas p\u00fablicas cursem certas \u00e1reas, especialmente a de ci\u00eancias naturais.<\/p>\n<p>Agora, a BNCC para o ensino m\u00e9dio, completa este quadro legal, estabelecendo que apenas os componentes curriculares de portugu\u00eas e matem\u00e1tica s\u00e3o obrigat\u00f3rios. Ou seja, a reforma do ensino m\u00e9dio e a BNCC facultam oferecer menos para quem mais precisa: os jovens pobres das escolas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Outra aparente inova\u00e7\u00e3o \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o dos saberes e conhecimentos pelas compet\u00eancias, constituindo-se num dos elementos mais graves da atual proposta na BNCC, visto que atende a uma demanda dos interesses do grande capital. A Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI) defende que os estudantes apenas saibam ler e escrever, que fa\u00e7am as quatro opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas b\u00e1sicas e que compreendam a l\u00f3gica formal simples, ou seja, entendem que uma coisa tem uma causa e um efeito (Documento CNI\/2010).<\/p>\n<p>Segundo Allan Kenji, pesquisador do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a BNCC vem \u201ccompletar e, de fato, instituir que a dimens\u00e3o do conhecimento j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais um requisito escolar. Minha hip\u00f3tese \u00e9 que ela flexibiliza o suficiente para que se consiga ofertar, para diferentes escolas e para diferentes fra\u00e7\u00f5es de classe, diferentes tipos educativos. Voc\u00ea pode ter essa escola\u00a0<em>premium<\/em>\u00a0para formar as fra\u00e7\u00f5es que v\u00e3o dirigir empresas e neg\u00f3cios, e ter para diferentes tipos de escola p\u00fablica, um direcionamento das habilidades das compet\u00eancias. Para n\u00f3s, isso significa a possibilidade de eles ofertarem diferentes tipos de sistemas de ensino, conte\u00fados e materiais did\u00e1ticos para diferentes fra\u00e7\u00f5es de classe\u201d.<\/p>\n<p>Nesta perspectiva, o professor Eduardo Mortimer\u00a0 acrescenta que na \u201cconjuntura atual, as compet\u00eancias e habilidades previstas na BNCC j\u00e1 nasceram mortas, justamente por n\u00e3o se adequarem ao sistema fortemente disciplinar do ensino m\u00e9dio. Talvez seja bom mesmo criar uma demanda por um ensino interdisciplinar. Mas com certeza, para a idade em que est\u00e3o os alunos do ensino m\u00e9dio, essa interdisciplinaridade tem que ter por base uma s\u00f3lida vis\u00e3o das disciplinas que comp\u00f5e o curr\u00edculo e, portanto, n\u00e3o se pode abrir m\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o atual, que \u00e9 disciplinar para esse campo de atua\u00e7\u00e3o dos professores\u201d.<\/p>\n<p>Outro grande desafio n\u00e3o resolvido na proposta de BNCC \u00e9 tocante a forma\u00e7\u00e3o de professores. Atualmente, a maioria das universidades formam professores por componentes do curr\u00edculo do ensino m\u00e9dio: f\u00edsica, qu\u00edmica, hist\u00f3ria, geografia, biologia, matem\u00e1tica, filosofia, etc. Mas quando analisamos o que a BNCC sugere como conte\u00fados nas cinco \u00e1reas de conhecimento, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel reconhecer nenhum componente curricular praticado na forma\u00e7\u00e3o disciplinar. \u00c9 evidente que o discurso da interdisciplinaridade soa bem aos nossos ouvidos, por\u00e9m, s\u00e3o rar\u00edssimos os cursos que formam professores em curr\u00edculos interdisciplinares. Agrava-se ainda mais esta dificuldade pois ela requer que os professores tenham carga hor\u00e1ria e condi\u00e7\u00f5es de trabalho para reuni\u00f5es entre as \u00e1reas, planejamento sistem\u00e1tico e continuo, forma\u00e7\u00e3o continuada e dedica\u00e7\u00e3o quase exclusiva numa escola.<\/p>\n<p>A realidade da doc\u00eancia brasileira na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 o oposto da sonho da BNCC apresentada. Dos 494 mil professores que trabalham no ensino m\u00e9dio, 228 mil (46,3%) atuam em pelo menos uma disciplina para a qual n\u00e3o tem forma\u00e7\u00e3o, enquanto, apenas 53,7% atuam com forma\u00e7\u00e3o adequada em todas as aulas dadas. Sociologia, filosofia e artes registram os piores resultados. F\u00edsica e qu\u00edmica v\u00eam na sequ\u00eancia. Somente 27% dos professores que lecionam f\u00edsica no Brasil t\u00eam forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea. At\u00e9 no ensino fundamental 41% dos professores d\u00e3o aulas em disciplinas para as quais n\u00e3o tem forma\u00e7\u00e3o. Os professores do Brasil s\u00e3o os que mais horas trabalham por semana, atendem o maior n\u00famero de alunos na m\u00e9dia da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) e recebem cerca de 40% a menos que a m\u00e9dia de outras profiss\u00f5es com o mesmo n\u00edvel de escolaridade.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o da oferta educacional por grandes grupos econ\u00f4micos \u00e9 assustadora e irrespons\u00e1vel. Um pa\u00eds n\u00e3o pode permitir que na educa\u00e7\u00e3o superior, 75% das matr\u00edculas sejam privadas. A Kroton \u00e9 o maior grupo educacional do mundo, com 877 mil matr\u00edculas (dado \u00e9 de 2016). Praticamente o dobro da Est\u00e1cio de S\u00e1, segunda colocada, que tem 436,3 mil. A terceira \u00e9 a Unip, com 403 mil matr\u00edculas, num universo de 6 milh\u00f5es de matr\u00edculas no setor privado. Na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, dos 44 milh\u00f5es de estudantes, 82% est\u00e3o nas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese de Allan Kenji (UFSC) \u00e9 a de que esses grupos controladores v\u00e3o adquirir os sistemas de editoras e os sistemas de ensino, porque o foco deles \u00e9 o fundo p\u00fablico, seu mercado s\u00e3o as escolas de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica p\u00fablicas. E a\u00ed \u00e9 que est\u00e1 o perigo e a real conex\u00e3o entre a reforma do \u201cnovo\u201d ensino m\u00e9dio, a proposta de BNCC para o ensino m\u00e9dio, a no\u00e7\u00e3o das compet\u00eancias e habilidades defendidas pela CNI e o ataque as humanidades em processo no governo atual.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia nossa l\u00f3gica, pensamos e conclu\u00edmos, \u00e9 que est\u00e3o destruindo a educa\u00e7\u00e3o e a escola p\u00fablica brasileira, diz o pesquisador da UFSC. Mas n\u00e3o. N\u00e3o est\u00e3o. Est\u00e3o sim adequando a educa\u00e7\u00e3o ao tipo de lugar que foi determinado para o Brasil no mundo. O que a CNI e estes grupos est\u00e3o demandando em termos educacionais hoje para forma\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho? Saber ler e escrever e saber que se eu solto um objeto ele cai no ch\u00e3o. O tipo de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica que eles est\u00e3o dispostos a ofertar, seja na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica ou superior, e na infantil e fundamental tamb\u00e9m, \u00e9 perfeitamente alinhada a um projeto de pa\u00eds subordinado. Quando a gente olha a quest\u00e3o da depend\u00eancia, a gente v\u00ea que n\u00e3o s\u00e3o erros, n\u00e3o s\u00e3o pontos fora da curva; \u00e9 um eixo articulador que ao longo desses governos foi se aprofundando e, agora, possui maior intensidade.<\/p>\n<p>Portanto, reduzir a forma\u00e7\u00e3o da juventude brasileira\u00a0\u00e0 matem\u00e1tica e ao portugu\u00eas, como consta na BNCC para o ensino m\u00e9dio, \u00e9 evidenciar o desconhecimento sobre quem s\u00e3o nossos jovens e o que eles necessitam, aliado ao desprezo que sentem por eles, sem m\u00e1scaras, condenando-as \u00e0 uma educa\u00e7\u00e3o med\u00edocre, que agride o direito a aprender tudo, as liberdades individuais e coletivas, bem como conden\u00e1-los a terem a pior forma\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o da realidade que est\u00e3o inseridos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.extraclasse.org.br\/exclusivoweb\/2018\/05\/bncc-do-ensino-medio-prejudicara-jovens-pobres\/\" target=\"_blank\">ExtraClasse.org.br<\/a><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Negar aos jovens o direito a uma forma\u00e7\u00e3o integral, especialmente na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, em todas as \u00e1reas de conhecimento, \u00e9<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1900,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[61,363],"class_list":["post-1899","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-educacao","tag-mec"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1899","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1899"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1899\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1903,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1899\/revisions\/1903"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1900"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1899"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1899"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1899"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}