{"id":2010,"date":"2018-07-27T09:40:09","date_gmt":"2018-07-27T12:40:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=2010"},"modified":"2018-07-30T11:49:29","modified_gmt":"2018-07-30T14:49:29","slug":"na-hora-de-abrir-as-pernas-nao-foi-ruim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/na-hora-de-abrir-as-pernas-nao-foi-ruim\/","title":{"rendered":"&#8220;Na hora de abrir as pernas n\u00e3o foi ruim&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><i>Do sonho ao pesadelo, relatos de viol\u00eancia obst\u00e9trica revelam os impactos sofridos por m\u00e3es na hora do parto<\/i><\/p>\n<p>O sonho da vida de Maria estava prestes a se tornar realidade naquela manh\u00e3 de calor. Achava-se uma mulher forte e por isso considerava o parto normal \u00fanica regra para trazer ao mundo a filha que carregava no ventre. Os \u00faltimos nove meses haviam sido tranquilos e dos casos de enjoos que acometem as gr\u00e1vidas s\u00f3 ouvira falar. Mas no dia em que acreditava que viveria o sonho, teve um pesadelo. Todas as dores que n\u00e3o sentira na gesta\u00e7\u00e3o vieram em quest\u00f5es de horas. N\u00e3o pela crian\u00e7a ao ventre. Mas pela viol\u00eancia obst\u00e9trica.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o se chama Maria. Foi assim batizada pela reportagem, porque disse ainda ter medo do hospital onde dera a luz. Um trauma que ainda trabalha com idas \u00e0 terapia, mas que se vai quando v\u00ea ou mostra uma fotografia da filha que gerou. Ela conta sua hist\u00f3ria por telefone. Chora. Embarga a voz. E diz que se \u00e9 para ajudar outros, na inten\u00e7\u00e3o de alertar sobre o que \u00e9 a viol\u00eancia obst\u00e9trica e o mal que ela pode causar, prossegue nas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>O l\u00edquido come\u00e7ou a vazar ainda na madrugada. A princ\u00edpio, Maria hesitou, tomou um banho e acreditou que n\u00e3o fosse a bolsa. \u00c0s 3h, mais um banho precisou ser tomado e \u00e0s 5h decidiu enf\u00e1tica: \u201cVou para o hospital\u201d.<\/p>\n<p>Maria n\u00e3o queria ir sem ter certeza, mas diante da quantidade de l\u00edquido que expelia sentia que chegara a hora chave, mas foi surpreendida por ter apenas um dedo de dilata\u00e7\u00e3o. Ainda era preciso esperar. Nos seus planos, a crian\u00e7a nasceria de parto normal. As dores seriam as comuns do parto, e em poucas horas estaria com a filha nos bra\u00e7os. Por\u00e9m como uma hist\u00f3ria em que seu corpo e o tratamento lhe quitaram a autonomia, precisou esperar.<\/p>\n<p>No leito de hospital, separada apenas por um biombo de outra mulher que tivera a infelicidade de perder a crian\u00e7a no parto, conta, chorava, at\u00e9 gritava. Recebera na veia um soro para que lhe fosse facilitada a dilata\u00e7\u00e3o, e isso lhe causara dores quase insuport\u00e1veis.\u00a0\u00a0\u201cA\u00ed mandaram eu me calar porque estava \u2018atrapalhando o procedimento\u2019. Sabe, eu achava que eu era o problema!\u201d, recorda-se do que ouviu e do que sentiu.<\/p>\n<p>O relato de Maria vai al\u00e9m. \u201cJ\u00e1 sa\u00eda muito sangue de mim, que jorrava no meu p\u00e9. E eu gritava de dor, mas a enfermeira dizia: \u2018Pare, Maria! Daqui uns dois anos tu ta aqui de novo. Engra\u00e7ado que na hora de abrir as pernas n\u00e3o foi ruim\u2019 E davam risada. Na hora eu n\u00e3o parei pra analisar tudo isso. Tem m\u00e3e que chega e faz. Mas eu n\u00e3o tinha dilata\u00e7\u00e3o. Eu queria parto normal, mas n\u00e3o aguentava.\u201d<\/p>\n<p>O que ela sentia era que o corpo for\u00e7ava-se a fazer algo que n\u00e3o conseguia. Um movimento contr\u00e1rio \u00e0 sua capacidade, induzido por meio do soro e amortecido pelas vozes que a mandavam calar-se, a respirar mais, pois se n\u00e3o fizesse isso \u201co filho iria morrer\u201d.<\/p>\n<p><b>Tive que lutar<\/b><br \/>\n\u201cO que vivia ali parecia uma prova de resist\u00eancia. Um Big Brother, onde quem resistir, ganha a vida, e quem n\u00e3o resistir, fica l\u00e1. E eu nunca fui t\u00e3o regrada na minha vida, como recebendo aquelas ordens. Tive que lutar para ter minha filha\u201d, relembra.<\/p>\n<p>Seu pai, conta, tamb\u00e9m interviu ao n\u00e3o aguentar mais ouvir os berros da filha que tinha seu momento m\u00e1gico indo por \u00e1gua abaixo. Ao ele se aproximar, Maria diz que uma enfermeira a abra\u00e7ou forte. Mas n\u00e3o em acalento. Para a m\u00e3e, era um abra\u00e7o de quem queria que ela morresse, por n\u00e3o se calar. \u201cE ela tamb\u00e9m falou ao meu pai: Eu tive dois e n\u00e3o morri. E minhas for\u00e7as se acabavam com isso\u201d.<\/p>\n<p>Maria disse que perdeu a no\u00e7\u00e3o do tempo em que as coisas aconteciam, e por isso lembrar hor\u00e1rios se torna um desafio. Nos seus c\u00e1lculos, chegara ao hospital 9h, quando recebera o soro, e por volta das 18h30, ainda estava deitada na mesma maca, dolorida, sendo xingada, e sem a crian\u00e7a nascer.<\/p>\n<p>Uma m\u00e9dica, diz, lhe fez exames de toque, sem avisar que o faria, o que lhe causava dor e desconforto. Em um deles foi constatado nove dedos de dilata\u00e7\u00e3o, com mais um, a filha de Maria poderia nascer. Mas, segundo Maria diz, a m\u00e9dica falou que havia um pouco de \u201ccoroa\u201d na regi\u00e3o interna, e o tirou. O procedimento era para agilizar o processo. S\u00f3 que o que Maria viu, foi seu sangue nas m\u00e3os da m\u00e9dica e uma dilata\u00e7\u00e3o quase completa diminuir gradualmente enquanto o colo do \u00fatero inchava por um edema.<\/p>\n<p>\u201cMinha filha nunca iria sair por ali. Por volta das 19h, eu acho, me levaram de cadeira de rodas at\u00e9 a sala de cirurgia. Teria que ser ces\u00e1rea. Tinha sangue por todo o meu corpo e eu sentia muita dor. Quando cheguei l\u00e1 disseram que a sala estava vaga desde \u00e0s 17h! A pr\u00f3pria m\u00e9dica chamou a aten\u00e7\u00e3o da equipe de enfermagem pedindo o porqu\u00ea n\u00e3o me levaram antes. E ali, quando pensei que enfim ficaria tudo bem, me sentia mais invadida. Perguntavam se do\u00eda e riam de mim. Quando foram me dar a inje\u00e7\u00e3o eu disse ter medo de ficar paral\u00edtica, e ouvi de volta: \u2018Com esse pensamento n\u00e3o vou fazer! Vai na dura sorte!\u2019. Eu sentia que estava indo\u201d.<\/p>\n<p>O indo era a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o sair da cama de cirurgia viva. Mas os \u00faltimos resqu\u00edcios de for\u00e7a, a crian\u00e7a nasceu. E Maria sobreviveu. Deixando para tr\u00e1s uma hist\u00f3ria de viol\u00eancia obst\u00e9trica que at\u00e9 hoje \u00e9 tratada em terapia.<\/p>\n<p><b>Viol\u00eancia Obst\u00e9trica<\/b><br \/>\nSegundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), constitui-se viol\u00eancia obst\u00e9trica qualquer abuso (f\u00edsico ou emocional), maltrato, neglig\u00eancia e desrespeito durante o parto, tornando-se uma viola\u00e7\u00e3o aos direitos humanos fundamentais das mulheres, como descrevem as normas e princ\u00edpios de direitos humanos adotados internacionalmente.<\/p>\n<p>No Brasil, al\u00e9m do alto \u00edndice de partos tipo cesariana, cresce a visibilidade sobre relatos de mulheres, como Maria, que d\u00e3o conta de situa\u00e7\u00f5es se desconforto, inconformidade ou mesmo de agress\u00e3o durante o atendimento em institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade.<\/p>\n<p>De acordo com a presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (Abenfo) do Rio Grande do Sul, Vrginia Leismann Moretto, que tamb\u00e9m \u00e9 professora da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e\u00a0integrante da C\u00e2mara T\u00e9cnica Sa\u00fade da Mulher do Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Sul (Coren-RS), \u00e9 urgente a necessidade de se trabalhar o assunto para informar \u00e0s mulheres sobre os impactos da viol\u00eancia e para ter equipes capazes de atender as pacientes sem que haja a agress\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela ressalta os severos impactos que uma viol\u00eancia obst\u00e9trica pode ter na ordem f\u00edsica e tamb\u00e9m psicol\u00f3gica da mulher. A recomenda\u00e7\u00e3o, de acordo com a especialista, \u00e9 a den\u00fancia. \u201cMesmo que a viol\u00eancia tenha acontecido anos atr\u00e1s, \u00e9 importante que a mulher, a partir do momento que se deu conta que sofreu uma viol\u00eancia obst\u00e9trica, denuncie ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, ou busque o 180 que atende a viol\u00eancia contra a mulher. Hoje a gente carece um pouco de dados sobre o assunto, ent\u00e3o essas den\u00fancias ajudam a contabilizarmos e ver a real situa\u00e7\u00e3o do nosso estado\u201d, explica.<\/p>\n<p>No Rio Grande do Sul, o Coren-RS tem atuado em campanhas sobre o parto humanizado para sensibilizar a categoria da import\u00e2ncia de respeitar a mulher no contexto do parto. Como a enfermagem \u00e9 uma categoria majoritariamente feminina, a entidade sente que ela pode fazer a diferen\u00e7a neste atendimento.<\/p>\n<p>A \u00faltima atividade nesse sentido foi realizada no m\u00eas de mar\u00e7o, com uma campanha chamada &#8220;Parto com respeito &#8211; voc\u00ea pode fazer a diferen\u00e7a na vida de outra mulher&#8221;. A entidade tamb\u00e9m diz estar aberta na defesa do parto humanizado e oferece o canal de ouvidoria para den\u00fancias de abusos.<\/p>\n<p><b>DENUNCIE<\/b><br \/>\nMulheres que sentem ter sido v\u00edtimas de viol\u00eancia obst\u00e9trica podem denunciar exigindo c\u00f3pia do prontu\u00e1rio junto \u00e0 institui\u00e7\u00e3o que foi atendida. Esta documenta\u00e7\u00e3o pertence \u00e0 paciente e \u00e9 um direito.<br \/>\nProcure a Defensoria P\u00fablica \u2013 independente de usar servi\u00e7o p\u00fablico ou privado.<br \/>\nLigue\u00a0 para 180 (viol\u00eancia contra a mulher) ou 136 (Disque Sa\u00fade).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.diariodamanha.com\/noticias\/ver\/45068\/%22Na+hora+de+abrir+as+pernas+n%C3%A3o+foi+ruim%22+\" target=\"_blank\">diariodamanha.com<\/a><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do sonho ao pesadelo, relatos de viol\u00eancia obst\u00e9trica revelam os impactos sofridos por m\u00e3es na hora do parto O sonho<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2011,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-2010","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2010","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2010"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2010\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2012,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2010\/revisions\/2012"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2011"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}