{"id":2055,"date":"2018-10-11T21:31:38","date_gmt":"2018-10-12T00:31:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=2055"},"modified":"2018-10-11T21:34:00","modified_gmt":"2018-10-12T00:34:00","slug":"esta-explodindo-uma-bomba-relogio-que-ninguem-quis-ver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/esta-explodindo-uma-bomba-relogio-que-ninguem-quis-ver\/","title":{"rendered":"Est\u00e1 explodindo uma bomba-rel\u00f3gio que ningu\u00e9m quis ver"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 14pt;\"><strong>Fil\u00f3sofo da USP diz que bravatas de Bolsonaro tiram o foco de projeto econ\u00f4mico rejeitado pela maioria e que nunca um candidato retirou a discuss\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"tile-rights\">M.Pimentel\/AFP<\/div>\n<div class=\"canvasImg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" lazyloaded\" title=\"45793449_403.jpg\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/esta-explodindo-uma-bomba-relogio-que-ninguem-quis-ver\/45793449_403.jpg\/@@images\/eccde159-adf2-4366-bcb3-b786e3879025.jpeg\" alt=\"45793449_403.jpg\" width=\"768\" height=\"512\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/esta-explodindo-uma-bomba-relogio-que-ninguem-quis-ver\/45793449_403.jpg\/@@images\/eccde159-adf2-4366-bcb3-b786e3879025.jpeg\" \/><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\">Para fil\u00f3sofo, com Bolsonaro, campanha saiu do espa\u00e7o p\u00fablico e se deslocou para o ambiente virtual<\/span><\/div>\n<aside id=\"column-middle\">\n<div id=\"miolo\" data-google-query-id=\"CPn-g7HS_90CFYIXgQodbC8FwQ\"><\/div>\n<\/aside>\n<div id=\"textstructured\">\n<p>Os posicionamentos de Jair Bolsonaro (PSL) sobre pautas identit\u00e1rias, como os direitos das mulheres e LGBTs, dominaram o debate eleitoral no primeiro turno e atra\u00edram o foco das aten\u00e7\u00f5es internacionais. Na leitura do fil\u00f3sofo\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/politica\/safatle-201cfrente-de-esquerda-para-que-201d\" target=\"_blank\">Vladimir Safatle<\/a>, professor da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), as declara\u00e7\u00f5es s\u00e3o utilizadas pelo candidato a partir de um c\u00e1lculo estrat\u00e9gico para esvaziar a discuss\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 DW Brasil, Safatle argumenta que a rejei\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira a medidas neoliberais trouxe o pa\u00eds a uma situa\u00e7\u00e3o &#8220;at\u00edpica&#8221;\u00a0no cen\u00e1rio global, com universidades gratuitas e duas das maiores empresas do pa\u00eds sendo p\u00fablicas.<\/p>\n<p>&#8220;Os defensores dessa agenda compreenderam que a \u00fanica maneira de impor suas reformas seria de uma maneira autorit\u00e1ria\u201d, afirma. &#8220;S\u00f3 tinha um jeito de ser implementada: escondendo-a, n\u00e3o deixando que fosse claramente exposta e tematizada&#8221;.<\/p>\n<p><em><strong>DW:\u00a0<\/strong>Como explicar a crescente ades\u00e3o ao autoritarismo no Brasil?<\/em><\/p>\n<p><strong>Vladimir Safatle<\/strong>: Nada da situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9 compreens\u00edvel sem remetermos ao que aconteceu com o fim da ditadura militar. O Brasil fracassou redondamente em conseguir\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/economia\/a-pesada-heranca-da-ditadura-para-a-economia\" target=\"_blank\">superar seu passado ditatorial<\/a>, que volta a assombrar agora. Nenhum pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina tem um risco t\u00e3o expl\u00edcito de militariza\u00e7\u00e3o e mesmo de um golpe de Estado nos moldes tradicionais quanto o Brasil. Nenhum tem uma presen\u00e7a t\u00e3o forte das For\u00e7as Armadas no cotidiano da vida p\u00fablica. Isso mostra, muito claramente, que a solu\u00e7\u00e3o conciliat\u00f3ria produzida pela transi\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia foi a maior covardia hist\u00f3rica que o pa\u00eds conheceu.<\/p>\n<p>Esse passo conciliat\u00f3rio conservou setores da classe pol\u00edtica que estavam completamente vinculados \u00e0 ditadura, assim como preservou, no seio das For\u00e7as Armadas, uma mentalidade de justificativa de situa\u00e7\u00f5es de exce\u00e7\u00e3o que volta agora. Tamb\u00e9m preservou, no seio da sociedade civil, um potencial de apoio a governos aparentemente fortes e autorit\u00e1rios devido ao fato de o Brasil, em momento algum, ter imposto um dever de mem\u00f3ria e justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o, que seria fundamental para que n\u00e3o estiv\u00e9ssemos vendo regress\u00f5es como as de agora.<\/p>\n<p><strong>DW:\u00a0<\/strong><em>E qual foi o papel da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que acaba de completar 30 anos, nesse processo?<\/em><\/p>\n<p><strong>VS:<\/strong>\u00a0A Constitui\u00e7\u00e3o de 88 foi a express\u00e3o dessa grande pol\u00edtica conciliat\u00f3ria. Fala-se muito que \u00e9 uma constitui\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, que garante direitos fundamentais. Por um lado, foi uma constitui\u00e7\u00e3o sem vig\u00eancia. At\u00e9 hoje, tivemos 95 emendas constitucionais \u2013 mais ou menos tr\u00eas por ano. Para aprovar uma emenda, o Congresso precisa de dois ter\u00e7os. No caso brasileiro, essa negocia\u00e7\u00e3o dura meses. Chega-se a uma conclus\u00e3o muito clara de que a fun\u00e7\u00e3o do Congresso Nacional desde o fim da Constituinte foi simplesmente desconstituir a Constitui\u00e7\u00e3o. Ela j\u00e1 nasceu com esse selo.<\/p>\n<p>Por outro lado, 30 anos depois, h\u00e1 leis constitucionais que nunca foram implementadas por falta de lei complementar. \u00c9 uma aberra\u00e7\u00e3o. A lei que estabelece o imposto sobre grandes fortunas \u00e9 constitucional e nunca foi aplicada, por mera falta de lei complementar. A Constitui\u00e7\u00e3o nasce letra-morta.<\/p>\n<p>Por outro lado, ela era tamb\u00e9m resultado de uma grande estrutura de concilia\u00e7\u00e3o entre v\u00e1rios setores da sociedade brasileira, inclusive ligados \u00e0 vida militar. O Ex\u00e9rcito chegou com 28 par\u00e1grafos fechados, praticamente empurrados goela abaixo aos constituintes. Entre eles, o artigo que define a fun\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas. No caso brasileiro, a preserva\u00e7\u00e3o da ordem, outra aberra\u00e7\u00e3o completa, porque a fun\u00e7\u00e3o delas \u00e9 a defesa da integridade do territ\u00f3rio nacional e ponto. Logo, o que est\u00e1 explodindo hoje era uma bomba-rel\u00f3gio que ningu\u00e9m quis ver.<\/p>\n<p><strong>DW:\u00a0<\/strong><em>\u00c9 poss\u00edvel pensar em um governo Bolsonaro nos moldes tradicionais, articulando no Congresso para governar com maioria?<\/em><\/p>\n<p><strong><em>VS<\/em>:<\/strong>\u00a0Dentro de um poss\u00edvel governo Bolsonaro, v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es se colocam \u00e0 mesa. Elas v\u00e3o depender muito dos sistemas de resist\u00eancia que ocorrer\u00e3o. Agora, \u00e9 importante lembrar algumas coisas. A primeira delas \u00e9 que o Brasil \u00e9 uma certa aberra\u00e7\u00e3o do ponto de vista dos ajustes neoliberais at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Devido aos pactos da Nova Rep\u00fablica, n\u00e3o havia condi\u00e7\u00e3o de avan\u00e7ar muito, tampouco de regredir. Havia for\u00e7as sociais claramente constitu\u00eddas que criavam um certo equil\u00edbrio. Isso fez, por exemplo, que os grandes ajustes neoliberais aplicados em outros pa\u00edses latino-americanos, como a Argentina, n\u00e3o fossem feitos aqui.<\/p>\n<p>O Brasil chega em 2018 com duas de suas maiores empresas sendo p\u00fablicas, assim como dois entre seus maiores bancos. Al\u00e9m disso, com um sistema de sa\u00fade que cobre 207 milh\u00f5es de pessoas e \u00e9 gratuito, universal, coisa que nenhum pa\u00eds com mais de 100 milh\u00f5es de habitantes tem. H\u00e1, tamb\u00e9m, 57 universidades federais completamente gratuitas.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o universidades para a elite. S\u00f3 na USP, 60% dos alunos v\u00eam de fam\u00edlias que ganham at\u00e9 dez sal\u00e1rios m\u00ednimos. Percebe-se que o brasil chega aos dias atuais numa situa\u00e7\u00e3o muito at\u00edpica do ponto de vista do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Os defensores dessa agenda compreenderam que a \u00fanica maneira de impor suas reformas seria de uma maneira autorit\u00e1ria, como no modelo chileno do Pinochet. \u00c9 um neoliberalismo claramente autorit\u00e1rio, diferente do que se tem na Europa. L\u00e1, a extrema direita \u00e9 antiliberal, protecionista, que incorpora certas pautas sociais vindas da esquerda e usa a luta contra o sistema financeiro em seu discurso.<\/p>\n<p>Exatamente por isso, o neoliberalismo na Europa tem que ser implementado por figuras mais ao centro. N\u00e3o \u00e9 o que acontece no Brasil. At\u00e9 porque pesquisas mostram que 68% da popula\u00e7\u00e3o brasileira s\u00e3o\u00a0contra as privatiza\u00e7\u00f5es; 71%, contra reformas nas leis trabalhistas e 85% contra reformas na previd\u00eancia.<\/p>\n<p><em><strong>DW:\u00a0<\/strong>A ado\u00e7\u00e3o dessa agenda seria, portanto, eleitoralmente invi\u00e1vel?<\/em><\/p>\n<p><strong>VS:<\/strong>\u00a0S\u00f3 tinha um jeito de ser implementada: escondendo-a, n\u00e3o deixando que fosse claramente exposta e tematizada. A \u00fanica forma de fazer isso era alimentar e ressuscitar os piores fantasmas autorit\u00e1rios da sociedade brasileira, colocando-os no centro do debate pol\u00edtico. Todas essas bravatas preconceituosas s\u00e3o pe\u00e7as fundamentais na estrat\u00e9gia ret\u00f3rica de anula\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o pol\u00edtico. O que n\u00f3s vimos foi uma anticampanha, baseada no esvaziamento do espa\u00e7o pol\u00edtico, exatamente por meio desse tipo de provoca\u00e7\u00e3o \u00e0s minorias vulner\u00e1veis \u2013 negros, mulheres, LGBTs \u2013 que se revoltam, com toda a justi\u00e7a, e esse jogo ocupa toda a cena da campanha.<\/p>\n<p>Por um lado, um potencial fascista que estava mais ou menos recalcado ganha direito de exist\u00eancia e aflora de maneira muito forte. Isso vem de longe. A ditadura militar teve apoiadores, e a gente conhece muito bem o padr\u00e3o racista e preconceituoso de v\u00e1rios setores da sociedade brasileira. Por outro lado, h\u00e1 um elemento fundamental e absolutamente impressionante: a campanha sai do espa\u00e7o p\u00fablico e se desloca para o ambiente virtual, dif\u00edcil de ser partilhado pela sociedade. Nesse espa\u00e7o, a produ\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de imagens e v\u00eddeos falsos de forte apelo ret\u00f3rico, que podem ser partilhados, acabam dando o tom.<\/p>\n<p>Vimos o que aconteceu com os atos do s\u00e1bado retrasado: grandes manifesta\u00e7\u00f5es populares que ocuparam as ruas do Brasil e, de repente, foram anuladas. Ningu\u00e9m estava sabendo exatamente o que aconteceu. Justo ap\u00f3s essas manifesta\u00e7\u00f5es, Bolsonaro teve um salto nas pesquisas. Depois, fomos entendendo. Com uma organiza\u00e7\u00e3o impressionante, uma rede muito vasta de circula\u00e7\u00e3o de imagens, profissionalmente constitu\u00edda, tentou anular o ato pela constru\u00e7\u00e3o de um evento falso no lugar. Faziam circular fotos que n\u00e3o tinham nada a ver com aqueles protestos, com o objetivo claro de denegrir suas propostas. Conseguiram anular um evento de rua por meio de uma mobiliza\u00e7\u00e3o virtual.<\/p>\n<p>Esses dois elementos constituem um outro modelo de campanha completamente fora dos padr\u00f5es tradicionais da democracia liberal. Ela j\u00e1 tem seus limites, mas era obrigada a conservar um espa\u00e7o p\u00fablico no interior do qual a sociedade, como um todo, podia operar um embate. Esse elemento foi brutalmente retirado. O candidato Bolsonaro levou uma facada e passou a campanha inteira fora dela. Todas as vezes em que seu vice ou economista fazia alguma declara\u00e7\u00e3o, eram falas catastr\u00f3ficas, imediatamente recha\u00e7adas. Ou seja, n\u00e3o houve campanha, no sentido tradicional do termo.<\/p>\n<p><em><strong>DW:\u00a0<\/strong>Esta elei\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 marcada pela circula\u00e7\u00e3o massiva de not\u00edcias falsas e rejei\u00e7\u00e3o ao jornalismo. Como \u00e9 poss\u00edvel haver debate se alguns grupos est\u00e3o fechados ao contradit\u00f3rio?<\/em><\/p>\n<p><strong>VS:<\/strong>\u00a0A pol\u00edtica nunca foi uma quest\u00e3o de argumenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 um erro achar isso. Trata-se da mobiliza\u00e7\u00e3o de afetos, que, por sua vez, expressam ades\u00f5es a formas de vidas distintas e conflituais. Voc\u00ea n\u00e3o argumenta contra afetos, mas os desconstitui. \u00c9 um processo diferente. Afetos n\u00e3o s\u00e3o irracionais, no entanto. Eles t\u00eam uma din\u00e2mica pr\u00f3pria, e devem ser compreendidos na sua especificidade. Em certo sentido, numa situa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica como a nossa, qualquer um pode produzir fake news.<\/p>\n<p>Quando eram s\u00f3 setores consolidados da imprensa, existia maneiras de utilizar o processo judicial para contestar e saber quem fez. De uma forma ou de outra, um certo n\u00edvel era preservado, mas, mesmo assim, longe de ser uma coisa simples. H\u00e1 v\u00e1rias modalidades de constru\u00e7\u00e3o de not\u00edcias, utilizadas constantemente por grupos midi\u00e1ticos. Mas, agora, h\u00e1 um processo no qual essa fun\u00e7\u00e3o \u00e9 invis\u00edvel: voc\u00ea n\u00e3o sabe quem produziu.<\/p>\n<p>A campanha do Bolsonaro parecia mambembe, amadora, feita \u00e0s pressas. Mas come\u00e7amos a perceber que n\u00e3o. Era extremamente organizada, pela qualidade do material que circulava. Os materiais que anularam a manifesta\u00e7\u00e3o contra ele come\u00e7aram a circular horas depois dos atos e eram extremamente bem produzidos. Eu me pergunto: quem foi o respons\u00e1vel? Em que produtora isso foi feito?<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe nem quem \u00e9 o publicit\u00e1rio do Bolsonaro. Ser\u00e1, ent\u00e3o, que n\u00e3o haveria estrat\u00e9gia de campanha, ou, na verdade, ela est\u00e1 sendo pensada em outro lugar onde a gente n\u00e3o consegue sequer enxergar? Nada bate nessa hist\u00f3ria. S\u00e3o organizadas redes no WhatsApp com mais de 8 mil pessoas, que se articulam entre si e proliferam um conjunto enorme de imagens extremamente bem editadas por profissionais.<\/p>\n<p><em><strong>DW:\u00a0<\/strong>Os cientistas pol\u00edticos costumam analisar a atual crise pol\u00edtica partindo da elei\u00e7\u00e3o de 2014. Mas qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do momento atual com os protestos de 2013?<\/em><\/p>\n<p><strong>VS:<\/strong>\u00a0Este \u00e9 um evento fundamental da hist\u00f3ria brasileira. O fen\u00f4meno de 2013 foi a maior oportunidade perdida pela esquerda daqui. Era uma manifesta\u00e7\u00e3o popular, que deixava muito claro o n\u00edvel de descontentamento, frustra\u00e7\u00e3o social, com uma perspectiva de enriquecimento que n\u00e3o ocorreu.<\/p>\n<p>Poderia, sim, ter sido utilizada pela esquerda para dizer: estamos presos em uma camisa de for\u00e7a para conseguir fazer um segundo ciclo de pol\u00edticas de crescimento e redistribui\u00e7\u00e3o de renda. A gente precisa assumir isso e lutar contra v\u00e1rios entraves pol\u00edticos e coisas dessa natureza. Mas isso n\u00e3o foi feito. A esquerda ficou com medo do fato de que a manifesta\u00e7\u00e3o jogou para a rua tanto aqueles dispostos a ir mais longe, quanto os setores reativos da sociedade.<\/p>\n<p>Toda manifesta\u00e7\u00e3o popular traz os sujeitos emergentes e os reativos. Se voc\u00ea n\u00e3o souber dar forma aos emergentes, os reativos v\u00e3o tomar conta. Foi isso que aconteceu. Um cl\u00e1ssico, literalmente. Marx mostrava isso desde 1848, quando tentou investigar como a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria se perdeu, transformando-se na ascens\u00e3o de Napole\u00e3o Terceiro, pelo golpe do 18 Brum\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os protestos de 2013 mostraram imagens do povo contra o poder. Diante das imagens do povo que foi quebrar o Congresso Nacional e acabou tacando fogo no Pal\u00e1cio do Itamaraty, sempre tem aqueles que come\u00e7am a gritar &#8220;ordem\u201d.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a fazer isso, e a\u00ed veio 2014. Ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o, eu escrevi no jornal\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em>\u00a0que a polariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o terminaria na semana seguinte e s\u00f3 iria aprofundar. \u00c9 preciso estar preparado para isso. N\u00e3o adianta imaginar que acabou a elei\u00e7\u00e3o e, agora, vai tudo voltar ao normal. Mas o governo achou que isso seria poss\u00edvel e tentou criar um modelo de concilia\u00e7\u00e3o. Juntou todos os setores conservadores dentro do governo, desmobilizou o seu lado, enquanto o outro lado foi para cima no v\u00e1cuo, porque n\u00e3o havia mobiliza\u00e7\u00e3o em rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/politica\/polarizacao-politica-reflexo-de-uma-sociedade-murada\" target=\"_blank\">Em uma sociedade polarizada<\/a>, a primeira coisa que voc\u00ea faz \u00e9 fortalecer o seu polo, porque a \u00fanica possibilidade de sobreviv\u00eancia \u00e9 uma esp\u00e9cie de balan\u00e7a, jogo de bola parada. Voc\u00ea v\u00ea que, se avan\u00e7ar demais, o outro avan\u00e7a tamb\u00e9m. Isso n\u00e3o foi feito.<\/p>\n<p>A esquerda brasileira ficou embalsamando um cad\u00e1ver, que \u00e9 o lulismo. Deu o que tinha que dar, n\u00e3o dava mais. Fala-se que Lula teria 40% dos votos, e \u00e9 verdade. Se estivesse em campanha, ele ia ganhar, isso \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Por esse motivo, teve que ser preso. Caso contr\u00e1rio, virava presidente. Mas o fato \u00e9: isso aconteceria por uma l\u00f3gica muito racional da popula\u00e7\u00e3o. O presente \u00e9 catastr\u00f3fico; o futuro, completamente incerto. Portanto, volto ao passado, que era melhor. De fato, era. Isso n\u00e3o tem a ver com o potencial de transforma\u00e7\u00e3o que Lula representa, mas com uma situa\u00e7\u00e3o de pavor social. Enquanto din\u00e2mica de transforma\u00e7\u00e3o, o lulismo j\u00e1 era um cad\u00e1ver, mesmo que ganhasse.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Por\u00a0Jo\u00e3o Soares<\/em><\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Fonte:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/esta-explodindo-uma-bomba-relogio-que-ninguem-quis-ver\" target=\"_blank\">cartacapital.com.br<\/a><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fil\u00f3sofo da USP diz que bravatas de Bolsonaro tiram o foco de projeto econ\u00f4mico rejeitado pela maioria e que nunca<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2057,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[348,18,352],"class_list":["post-2055","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-democracia","tag-destaque","tag-eleicoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2055","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2055"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2055\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2059,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2055\/revisions\/2059"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2057"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2055"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2055"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2055"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}