{"id":2141,"date":"2018-12-18T15:20:19","date_gmt":"2018-12-18T17:20:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=2141"},"modified":"2018-12-18T15:20:19","modified_gmt":"2018-12-18T17:20:19","slug":"e-preciso-criar-rapido-bloco-de-resistencia-no-rs-o-que-se-anuncia-aqui-e-um-novo-carajas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/e-preciso-criar-rapido-bloco-de-resistencia-no-rs-o-que-se-anuncia-aqui-e-um-novo-carajas\/","title":{"rendered":"\u201c\u00c9 preciso criar r\u00e1pido bloco de resist\u00eancia no RS. O que se anuncia aqui \u00e9 um novo Caraj\u00e1s\u201d"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 um bloco de projetos de explora\u00e7\u00e3o mineral que pretendem se instalar na metade sul do Rio Grande do Sul para explorar fosfato, chumbo, zinco, cobre, tit\u00e2nio e, talvez, ouro e prata tamb\u00e9m. As empresas respons\u00e1veis pelos mesmos garantem que os mesmos impulsionar\u00e3o a economia da regi\u00e3o, gerando emprego e renda, sem destruir o meio ambiente. As comunidades atingidas por esses empreendimentos, por\u00e9m, olham com desconfian\u00e7a para os mesmos, n\u00e3o s\u00f3 pelos riscos de contamina\u00e7\u00e3o ambiental como tamb\u00e9m pela amea\u00e7a de perder as terras onde vivem hoje e o seu modo de vida. \u201cO que se anuncia aqui \u00e9 um novo Caraj\u00e1s. H\u00e1 um bloco de projetos de explora\u00e7\u00e3o mineral que pretendem se instalar nesta regi\u00e3o, alterando de forma radical toda a identidade cultural, social e econ\u00f4mica destas comunidades\u201d, diz M\u00e1rcio Zonta, integrante da coordena\u00e7\u00e3o nacional do Movimento pela Soberania Popular na Minera\u00e7\u00e3o (MAM).<\/p>\n<p>Zonta participou do I Encontro sobre Impactos da Minera\u00e7\u00e3o nos Pescadores Artesanais e do II Semin\u00e1rio Regional sobre os Impactos dos Projetos de Minera\u00e7\u00e3o, realizados de 13 a 15 dezembro em Rio Grande e em S\u00e3o Jos\u00e9 do Norte. Em entrevista ao\u00a0<strong>Sul21<\/strong>, ele falou sobre os impactos ambientais e sociais desses projetos e alertou para a urg\u00eancia que paira sobre a cabe\u00e7a das comunidades que poder\u00e3o ser atingidos por esses empreendimentos:<\/p>\n<p>\u201cO projeto que est\u00e1 vindo para essa regi\u00e3o \u00e9 um bloco, devendo atingir, por baixo, mais de 20 munic\u00edpios, afetando toda a biodiversidade da regi\u00e3o. Caso esse projeto seja implantado, teremos uma profunda regress\u00e3o social do c\u00f3digo civilizat\u00f3rio que norteia a vida dessas comunidades. Um pescador n\u00e3o se reinventa na cidade. Ele vai passar a ser um trabalhador precarizado que n\u00e3o se reconhece como sujeito que est\u00e1 acoplado a uma identidade cultural. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e1 mais um territ\u00f3rio como forma de sustenta\u00e7\u00e3o, seja por meio da pesca ou da agricultura como acontece em S\u00e3o Jos\u00e9 do Norte\u201d.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<em>A ind\u00fastria mineradora, que j\u00e1 vinha expandindo suas atividades no pa\u00eds, nos \u00faltimos anos, alimenta grandes ambi\u00e7\u00f5es com as promessas de desregulamenta\u00e7\u00e3o de normas e leis ambientais anunciadas pelo governo Bolsonaro. Qual sua avalia\u00e7\u00e3o sobre o que vem por a\u00ed a partir do pr\u00f3ximo dia 1<sup>o<\/sup>. de janeiro?<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_433923\" class=\"wp-caption alignleft\">\n<p><figure id=\"attachment_433923\" aria-describedby=\"caption-attachment-433923\" style=\"width: 420px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"jetpack-lazy-image jetpack-lazy-image--handled wp-image-433923\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181215-marciozonta-600x400.jpg\" sizes=\"(max-width: 420px) 100vw, 420px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181215-marciozonta-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181215-marciozonta-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181215-marciozonta-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181215-marciozonta.jpg 960w\" alt=\"\" width=\"420\" height=\"280\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-433923\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e1rcio Zonta: \u201co que ach\u00e1vamos ruim na atual legisla\u00e7\u00e3o ambiental se tornar\u00e1 ainda pior\u201d. (Adufpel\/Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0M\u00e1rcio Zonta<\/strong>: A vit\u00f3ria de Bolsonaro est\u00e1 estreitamente relacionada com esse tema da explora\u00e7\u00e3o dos recursos minerais. Pelas rela\u00e7\u00f5es que Bolsonaro tem feito sobre minera\u00e7\u00e3o, terras ind\u00edgenas, quilombolas e meio ambiente de modo geral, h\u00e1 uma tentativa de abrir uma era plena da minera\u00e7\u00e3o, em que podemos chegar a um patamar marcado pelo vale tudo. Ser\u00e1 poss\u00edvel minerar em terras ind\u00edgenas, terras quilombolas e em \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o ambiental. Ele promover\u00e1 um leque de mudan\u00e7as e de aniquila\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00f5es, tanto da legisla\u00e7\u00e3o sobre a atividade mineradora que j\u00e1 existe quanto da legisla\u00e7\u00e3o ambiental. J\u00e1 se discute minera\u00e7\u00e3o em terras quilombolas e ind\u00edgenas, como mencionei, mas tamb\u00e9m se discute a minera\u00e7\u00e3o em \u00e1reas de fronteira. N\u00f3s temos 27% do territ\u00f3rio brasileiro como \u00e1reas de fronteira.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<em>Qual \u00e9 o tamanho das \u00e1reas de fronteira?<\/em><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Zonta<\/strong>: \u00c9 uma faixa de 150 quil\u00f4metros a partir das fronteiras do Brasil. Essa lei \u00e9 de 1979, ainda no per\u00edodo militar portanto, e estabelece que a explora\u00e7\u00e3o de recursos minerais nestas \u00e1reas s\u00f3 pode ser exercida por empresas brasileiras, mediante autoriza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do Conselho de Defesa Nacional. Essas \u00e1reas foram pensadas como um espa\u00e7o de resguardo da soberania nacional. Agora, elas podem ser abertas tamb\u00e9m para a explora\u00e7\u00e3o do capital internacional. Bolsonaro deu uma entrevista ao Valor Econ\u00f4mico, onde ele diz que se encontrou com representantes do setor minerador brasileiro e internacional. Nesta conversa, as empresas teriam pedido 30 mil lotes de minera\u00e7\u00e3o que est\u00e3o em poder do governo. Prontamente, ele atendeu o pedido e disse que iria mandar 20 mil dessas \u00e1reas \u00e0 leil\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, com a vit\u00f3ria de Bolsonaro h\u00e1 uma guinada nas rela\u00e7\u00f5es do Brasil com os Estados Unidos que deve ser marcada por uma postura muito entreguista. Na mesma mat\u00e9ria do Valor Econ\u00f4mico, Bolsonaro disse que os Estados Unidos reclamaram da burocracia da legisla\u00e7\u00e3o ambiental brasileira e da inseguran\u00e7a jur\u00eddica para \u201capostar no Brasil\u201d. Em resposta a isso, ele disse que vai criar uma c\u00e2mara direta de negocia\u00e7\u00e3o, algo pior que um tratado de livre com\u00e9rcio. Se isso ocorrer, o que ach\u00e1vamos ruim na atual legisla\u00e7\u00e3o ambiental se tornar\u00e1 ainda pior. Poderemos chegar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do M\u00e9xico onde, em uma semana, pode-se obter uma licen\u00e7a ambiental para minerar. Teremos assim um avan\u00e7o muito r\u00e1pido do capital mineral sobre v\u00e1rias \u00e1reas do Brasil.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<em>Isso tende a aumentar a conflitividade nos territ\u00f3rios que hoje s\u00e3o protegidos e passar\u00e3o a ser cobi\u00e7ados pelas empresas mineradoras\u2026<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_392455\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><figure id=\"attachment_392455\" aria-describedby=\"caption-attachment-392455\" style=\"width: 600px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"jetpack-lazy-image jetpack-lazy-image--handled wp-image-392455 size-full\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/20170925-mapa-renca.jpg\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/20170925-mapa-renca.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/20170925-mapa-renca-200x127.jpg 200w\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"380\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-392455\" class=\"wp-caption-text\">Com 47 mil quil\u00f4metros quadrados, entre o Par\u00e1 e o Amap\u00e1, a Renca tem potencial para explora\u00e7\u00e3o de ouro e \u00e9 cobi\u00e7ada pelas mineradoras| Foto: Clube da Minera\u00e7\u00e3o\/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0M\u00e1rcio Zonta<\/strong>: Sim, deve aumentar muito. Se considerarmos que vamos ter 20 mil novas \u00e1reas de minera\u00e7\u00e3o, devemos ter em mente que estamos falando de um processo de lavra e tamb\u00e9m de um processo de escoamento da produ\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o escoa a produ\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio por avi\u00e3o. \u00c9 preciso um sistema log\u00edstico que \u00e9 feito ou por meio de caminh\u00f5es, ou por esteiras ou por trem at\u00e9 chegar ao porto de onde \u00e9 transportado para seu destino final, geralmente um destino internacional. Com a soma das \u00e1reas da lavra e desse sistema log\u00edstico teremos uma gama de atingidos pela minera\u00e7\u00e3o que pode duplicar ou at\u00e9 triplicar. H\u00e1 uma estimativa que, hoje, temos cerca de 5 milh\u00f5es de pessoas atingidas pela minera\u00e7\u00e3o no Brasil. Poderemos chegar rapidamente a mais de 15 milh\u00f5es de pessoas atingidas. Ter\u00edamos assim uma parcela consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o brasileira em conflito com a minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas popula\u00e7\u00f5es v\u00e3o reagir, o que pode trazer outra problem\u00e1tica, porque o bra\u00e7o repressor pensado por esse novo governo tende a atacar a luta por direitos sociais com viol\u00eancia policial e estado de exce\u00e7\u00e3o jur\u00eddico. Ent\u00e3o, creio que h\u00e1 uma perspectiva de muito conflito pela frente.<\/p>\n<p><strong>Sul21:<\/strong>\u00a0<em>Em sua fala no semin\u00e1rio sobre os impactos da minera\u00e7\u00e3o, voc\u00ea falou sobre uma nova guerra do ouro que estaria em curso, capitaneada por Estados Unidos e China. Quais s\u00e3o os principais interesses geopol\u00edticos envolvidos neste movimento de expans\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o, especialmente na America Latina e na \u00c1frica?<\/em><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Zonta<\/strong>: Essa ofensiva vem ocorrendo desde 2006 pelo menos e, em 2010, ela teve um \u00e1pice. No contexto de crise do capitalismo internacional, as grandes corpora\u00e7\u00f5es, principalmente chinesas e americanas, foram brigar por recursos naturais de outros pa\u00edses, em especial na \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina. Como os Estados Unidos controlam a emiss\u00e3o do d\u00f3lar, os chineses passaram a apostar no ouro como moeda de acumula\u00e7\u00e3o internacional capaz de fazer frente ao d\u00f3lar. Na America Latina hoje, quase metade dos pedidos de lavra e de pesquisa est\u00e3o associados \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de ouro. A corrida pelo ouro no mundo voltou a ter uma relev\u00e2ncia extremamente importante. No Brasil, os caso mais emblem\u00e1ticos s\u00e3o os de Belo Sul, no Xingu, Paracatu, em Minas Gerais e, agora, a possibilidade de explora\u00e7\u00e3o na Renca, reserva na Amaz\u00f4nia que teria uma grande quantidade de ouro.<\/p>\n<figure id=\"attachment_434022\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<figure id=\"attachment_434022\" aria-describedby=\"caption-attachment-434022\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"jetpack-lazy-image jetpack-lazy-image--handled wp-image-434022 size-full\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181217-catalao.jpg\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181217-catalao.jpg 640w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181217-catalao-200x113.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181217-catalao-600x338.jpg 600w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"361\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-434022\" class=\"wp-caption-text\">Na cidade de Catal\u00e3o (GO), a polui\u00e7\u00e3o do ar causada pela mineradora \u00e9 chamada de \u201ccheiro de barata\u201d \/ MST<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00f3s temos uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica em curso, que demanda minerais como o ni\u00f3bio e as terras raras. China e Estados Unidos tamb\u00e9m sa\u00edram pelo mundo atr\u00e1s desses minerais. Esses dois pa\u00edses disputam hoje \u00e1reas no Brasil, especialmente em Goi\u00e1s, onde essa disputa \u00e9 muito acirrada. Isso torna o nosso territ\u00f3rio cada vez mais vulner\u00e1vel \u00e0 possibilidade de uma grande empresas chegar e se instalar. Esse processo de instala\u00e7\u00e3o costuma ser extremamente violento. As mineradoras se utilizam de estrat\u00e9gias militares, trabalhando com uma mapa de domina\u00e7\u00e3o e de controle social das regi\u00f5es. Fazem pesquisas de car\u00e1ter psicol\u00f3gico, sociol\u00f3gico e econ\u00f4mico, procurando identificar as lideran\u00e7as que j\u00e1 existem e iniciando um processo de coopta\u00e7\u00e3o das simbologias locais, comprando grandes festividades populares, ou de entrada nos curr\u00edculos escolares e das universidades. Tamb\u00e9m come\u00e7am a fazer um cerceamento dos espa\u00e7os pr\u00f3ximos \u00e0 regi\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o. Pescadores passam a ser impedidos de pescar em determinadas \u00e1reas, por exemplo, gerando conflitos crescentes.<\/p>\n<p>Pelo que estamos vendo do futuro governo Bolsonaro, creio que poderemos ter tamb\u00e9m, infelizmente, casos de aniquila\u00e7\u00e3o f\u00edsica, de assassinatos. S\u00f3 neste per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o para o novo governo, j\u00e1 tivemos quatro assassinatos por motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas associadas ao discurso de Bolsonaro: o Mestre Moa, em Salvador, o rapaz que foi assassinado em um com\u00edcio do PT no Cear\u00e1, e os dois sem terra mortos recentemente na Para\u00edba. Acredito que as mineradoras aproveitar\u00e3o esta onda da vit\u00f3ria de Bolsonaro para aumentar ainda mais o seu n\u00edvel de repress\u00e3o contra as comunidades que resistirem aos seus projetos.<\/p>\n<p>Por outro lado, estamos vendo que a popula\u00e7\u00e3o das comunidades atingidas tem assumido formas de organiza\u00e7\u00e3o de maneira criativa e um pouco mais sofisticada para resistir a esses processos das mineradoras. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que enfrentaremos esse boom da minera\u00e7\u00e3o. Em 2010, 2011, as coisas j\u00e1 estavam bem acirradas.<\/p>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<em>Qual a estrat\u00e9gia de a\u00e7\u00e3o que o MAM pretende adotar neste cen\u00e1rio? A tend\u00eancia \u00e9 que o movimento torne-se cada vez mais conhecido nacionalmente, considerando o aumento dos conflitos nesta \u00e1rea pelo pa\u00eds afora.<\/em><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Zonta<\/strong>: O MAM \u00e9 um movimento que nasceu na Amaz\u00f4nia brasileira em meio \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es do capital mineral da Vale, no projeto Caraj\u00e1s, que atingiu uma s\u00e9rie de comunidades ind\u00edgenas, quilombolas, ribeirinhas e camponeses. A popula\u00e7\u00e3o dessa regi\u00e3o come\u00e7ou a caminhar para o conflito de maneira organizada. As popula\u00e7\u00f5es ao redor da mina de Caraj\u00e1s passaram a bloquear a passagem do trem como uma forma de protesto, por exemplo. Foram criando pedagogias de luta popular contra a minera\u00e7\u00e3o. O bloqueio do trem \u00e9 uma delas. Por meio dessa forma de protesto, voc\u00ea n\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o, mas interrompe a circula\u00e7\u00e3o do capital da empresa. Se esse bloqueio se estender no tempo, acaba interrompendo a produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, pois n\u00e3o h\u00e1 onde estocar. Tivemos v\u00e1rios casos deste tipo na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7amos a organizar nosso movimento, percebemos que se ele tivesse um car\u00e1ter regional, nasceria j\u00e1 morto porque a mineradora \u00e9 um ente global que seq\u00fcestrou os estados nacionais. Ela tem um poder que vem de fora para dentro que \u00e9 gigantesco. Decidimos ent\u00e3o ser um movimento nacional e nacionalizar as lutas nesta \u00e1rea, adotando o trip\u00e9 b\u00e1sico dos movimentos sociais: organicidade, mobiliza\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Fizemos um exerc\u00edcio de sair pelo Brasil para incidir sobre diferentes conflitos miner\u00e1rios. Alem disso, tamb\u00e9m decidimos valorizar a rela\u00e7\u00e3o internacional, pois o bloco minerador que ataca o Brasil hoje \u00e9 o mesmo bloco que ataca a Am\u00e9rica Latina. Fizemos v\u00e1rios interc\u00e2mbios internacionais e chegamos a conclus\u00e3o de que est\u00e1vamos sendo atacados em bloco, o que exigiria que a nossa resist\u00eancia tamb\u00e9m estivesse articulada internacionalmente.<\/p>\n<p>Somos um movimento super recente. Estamos fazendo esse exerc\u00edcio de nacionaliza\u00e7\u00e3o de 2012 pra c\u00e1. Agora, pretendemos ingressar em um per\u00edodo de massifica\u00e7\u00e3o. N\u00f3s podemos empreender lutas nacionais em v\u00e1rios sentidos, seja em torno da quest\u00e3o do Ni\u00f3bio em Goi\u00e1s, ou da quest\u00e3o do ouro em Minas Gerais, no Centro Oeste e na Amaz\u00f4nia. A pedagogia de saque e de viol\u00eancia do processo de minera\u00e7\u00e3o tem 500 anos de idade. Ela pode ter sofrido altera\u00e7\u00f5es, ter aperfei\u00e7oado suas t\u00e1ticas, mas a ess\u00eancia permanece.<\/p>\n<figure id=\"attachment_434023\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><figure id=\"attachment_434023\" aria-describedby=\"caption-attachment-434023\" style=\"width: 958px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"jetpack-lazy-image jetpack-lazy-image--handled wp-image-434023 size-full\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181217-projetoretiro.jpg\" sizes=\"(max-width: 958px) 100vw, 958px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181217-projetoretiro.jpg 958w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181217-projetoretiro-200x125.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181217-projetoretiro-600x376.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/20181217-projetoretiro-768x482.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"958\" height=\"601\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-434023\" class=\"wp-caption-text\">Projeto Retiro pretende extrair tit\u00e2nio e outros minerais em uma faixa de terra entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atl\u00e2ntico. (Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure><figcaption class=\"wp-caption-text\">\n<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Sul21<\/strong>:\u00a0<em>Como avalia a situa\u00e7\u00e3o dos projetos de minera\u00e7\u00e3o aqui no Rio Grande do Sul e a capacidade das comunidades atingidas resistir \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o dos mesmos?<\/em><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rcio Zonta<\/strong>: Pela reflex\u00e3o que fizemos no primeiro dia do semin\u00e1rio aqui em Rio Grande, estamos entendendo que aqui se anuncia um novo Caraj\u00e1s. H\u00e1 um bloco de projetos de explora\u00e7\u00e3o mineral que pretendem se instalar aqui nesta regi\u00e3o, alterando de forma radical toda a identidade cultural, social e econ\u00f4mica destas comunidades. Esse grande p\u00f3lo minerador pretende explorar fosfato, chumbo, tit\u00e2nio e, talvez, ouro e prata tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c9 muito comum na estrat\u00e9gia das mineradoras ir trabalhando de comunidade em comunidade. Elas n\u00e3o anunciam o grande bloco minerador que est\u00e1 sendo pensado e articulado. V\u00e3o de comunidade em comunidade, fragmentando os processos de negocia\u00e7\u00e3o. Infelizmente, as comunidades tendem a sucumbir a essa l\u00f3gica. Na minha fala aqui em Rio Grande eu disse que estava vendo v\u00e1rias bandeiras de v\u00e1rias reivindica\u00e7\u00f5es, por localidades, que sofrer\u00e3o o mesmo processo e o mesmo impacto. Essas organiza\u00e7\u00f5es e grupos de reivindica\u00e7\u00e3o que v\u00e3o surgindo precisam se unir e formar um grande bloco de resist\u00eancia, buscando o apoio das diversas manifesta\u00e7\u00f5es religiosas e culturais que existem nesta regi\u00e3o do extremo sul.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que n\u00e3o podemos esperar muito para fazer isso. \u00c0s vezes a gente acha que determinado projeto est\u00e1 parado, que a concess\u00e3o da licen\u00e7a ainda vai demorar cinco anos, quando ela j\u00e1 pode estar acordada e eles est\u00e3o esperando apenas o melhor momento para vir e instalar o projeto. Por isso, as comunidades precisam ter um ritmo um pouco mais acelerado de organiza\u00e7\u00e3o, definindo uma pauta m\u00ednima que unifique todos os grupos que est\u00e3o dispostos a travar essa luta. O projeto que est\u00e1 vindo para essa regi\u00e3o \u00e9 um bloco, devendo atingir, por baixo, mais de 20 munic\u00edpios, afetando toda a biodiversidade da regi\u00e3o, a Lagoa dos Patos e o pr\u00f3prio oceano.<\/p>\n<p>Caso esse projeto seja implantado, teremos uma profunda regress\u00e3o social do c\u00f3digo civilizat\u00f3rio que norteia a vida dessas comunidades. Um pescador n\u00e3o se reinventa na cidade. Ele vai passar a ser um trabalhador precarizado que n\u00e3o se reconhece como sujeito que est\u00e1 acoplado a uma identidade cultural. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e1 mais um territ\u00f3rio como forma de sustenta\u00e7\u00e3o, seja por meio da pesca ou da agricultura como acontece em S\u00e3o Jos\u00e9 do Norte. Veremos em S\u00e3o Jos\u00e9 do Norte o que j\u00e1 existe em Rio Grande: um processo de faveliza\u00e7\u00e3o e proletariza\u00e7\u00e3o do pescador. Ele vai se engalfinhar pelos servi\u00e7os que forem oferecidos, j\u00e1 sob o regime da Reforma Trabalhista, ou seja, com a rela\u00e7\u00e3o de trabalho totalmente precarizada. Ou ent\u00e3o ele vai se favelizar, como j\u00e1 acontece em Rio Grande, sobretudo depois que o p\u00f3lo naval ficou praticamente paralisado.<\/p>\n<p>O est\u00e1gio seguinte \u00e9 o da degrada\u00e7\u00e3o social. Se voc\u00ea tem uma juventude que n\u00e3o tem perspectiva nem de estudo nem de trabalho, ela vai se perder das mais diversas formas, entre elas via o crack, uma droga de controle social que deixa de fora uma parte da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o vai entrar no mercado de trabalho. Caso esse bloco minerador se instale na regi\u00e3o, cidades como Rio Grande, S\u00e3o Jos\u00e9 do Norte, Ca\u00e7apava do Sul e Bag\u00e9 est\u00e3o amea\u00e7adas de sofrer um processo de degrada\u00e7\u00e3o cultural, ambiental, econ\u00f4mica e social de dif\u00edcil revers\u00e3o no curto prazo.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/areazero\/2018\/12\/e-preciso-criar-rapido-bloco-de-resistencia-no-rs-o-que-se-anuncia-aqui-e-um-novo-carajas\/\" target=\"_blank\">Sul21.com.br<\/a><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um bloco de projetos de explora\u00e7\u00e3o mineral que pretendem se instalar na metade sul do Rio Grande do Sul<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2143,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-2141","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2141","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2141"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2141\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2144,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2141\/revisions\/2144"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2143"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2141"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2141"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2141"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}