{"id":2145,"date":"2018-12-17T15:21:08","date_gmt":"2018-12-17T17:21:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=2145"},"modified":"2018-12-18T15:24:43","modified_gmt":"2018-12-18T17:24:43","slug":"debora-diniz-todas-as-mulheres-fazem-aborto-mas-so-em-algumas-a-policia-bota-a-mao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/debora-diniz-todas-as-mulheres-fazem-aborto-mas-so-em-algumas-a-policia-bota-a-mao\/","title":{"rendered":"Debora Diniz: \u201cTodas as mulheres fazem aborto, mas s\u00f3 em algumas a pol\u00edcia bota a m\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"articulo-subtitulo\">Refer\u00eancia nos estudos sobre o tema no Brasil, ela est\u00e1 sendo perseguida e amea\u00e7ada. Em entrevista ela explica porque a criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto \u00e9 inconstitucional<\/h2>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras das audi\u00eancias p\u00fablicas convocadas pelo\u00a0Supremo Tribunal Federal\u00a0para discutir a descriminaliza\u00e7\u00e3o\u00a0do aborto, que acontecem nos pr\u00f3ximos dias 03 e 06 de agosto, uma das figuras mais importantes sobre o tema na Am\u00e9rica Latina est\u00e1 sendo perseguida e amea\u00e7ada a ponto de ter sido inclu\u00edda no Programa de Prote\u00e7\u00e3o aos Defensores de Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos. Trata-se da antrop\u00f3loga e professora da UnB Debora Diniz, que em 2016 figurou entre os cem pensadores globais de destaque na revista\u00a0<em>Foreign Policy<\/em>\u00a0e um ano antes foi homenageada em um evento para professores da Unesco. Ela tamb\u00e9m ganhou o pr\u00eamio Jabuti por seu livro \u201cZika: do sert\u00e3o nordestino \u00e0 amea\u00e7a global\u201d e \u00e9 pesquisadora da\u00a0organiza\u00e7\u00e3o Anis Instituto de Bio\u00e9tica, consultora do Psol\u00a0na ADPF (Argui\u00e7\u00e3o de Descumprimento de Preceito Fundamental) 442, que questiona a constitucionalidade da criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, examinada pelo STF.<\/p>\n<p>Em entrevista exclusiva \u00e0 P\u00fablica, Debora Diniz conta que decidiu deixar a cidade onde mora por um tempo para n\u00e3o precisar se deslocar permanentemente com escolta e diz que a pol\u00edcia est\u00e1 avan\u00e7ando nas investiga\u00e7\u00f5es. Mas prefere focar a conversa no que para ela \u00e9 o mais importante: trazer \u00e0 luz uma discuss\u00e3o qualificada e baseada em evid\u00eancias sobre a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto no pa\u00eds, para que mulheres deixem de morrer ou serem presas por um procedimento realizado no Brasil por uma a cada 5 mulheres at\u00e9 40 anos, como aponta a\u00a0Pesquisa Nacional do Aborto (PNA) realizada pela Anis em 2016. Ainda segundo o trabalho, cerca de 48% das mulheres que abortaram completaram o ensino fundamental, e 26% tinham ensino superior. Do total, 67% j\u00e1 tinha filhos, 56% eram cat\u00f3licas e 25% protestantes ou evang\u00e9licas.<\/p>\n<p>A ADPF 442, que chegou ao STF em mar\u00e7o de 2017, pede a descriminaliza\u00e7\u00e3o da interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez at\u00e9 12 semanas. \u201cO c\u00f3digo penal de 1940 manda prender mulheres que fizeram o aborto. A Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1988 e portanto posterior a 1940. Uma leitura do C\u00f3digo Penal pela Constitui\u00e7\u00e3o diz que eu n\u00e3o posso prender mulheres se \u00e9 uma necessidade de sa\u00fade, se \u00e9 uma quest\u00e3o de cidadania, se o aborto \u00e9 parte da dignidade da vida das mulheres ao tomar essa decis\u00e3o. Ent\u00e3o uma leitura da Constitui\u00e7\u00e3o sobre o C\u00f3digo Penal diz que ele \u00e9 inconstitucional\u201d explica Debora na entrevista. Para julgar a ADPF a Ministra Relatora\u00a0Rosa Weber\u00a0convocou essas audi\u00eancias p\u00fablicas. Especialistas, institui\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, jur\u00eddicas e da sociedade civil v\u00e3o apresentar suas posi\u00e7\u00f5es e a partir disso o STF far\u00e1 o julgamento, ainda sem prazo definido. \u201cOs melhores dados e a melhor ci\u00eancia dispon\u00edvel sobre o tema v\u00e3o ser apresentados ao Supremo. Ent\u00e3o essa \u00e9 uma possibilidade de giro do debate das multid\u00f5es, do \u00f3dio, das redes sociais, para a qualifica\u00e7\u00e3o do debate a partir do que sabemos de aborto. Esse \u00e9 um momento de fazer algo que no campo jur\u00eddico e no campo cient\u00edfico se conhece muito, que \u00e9 um argumento baseado em evid\u00eancias\u201d. Leia a entrevista:<\/p>\n<p><strong>Pergunta.<\/strong>\u00a0A imprensa tem noticiado que voc\u00ea saiu de Bras\u00edlia e que far\u00e1 parte do Programa de Prote\u00e7\u00e3o aos Defensores de Direitos Humanos do governo federal, por estar sofrendo amea\u00e7as inclusive pessoalmente. Pode contar o que est\u00e1 acontecendo?<\/p>\n<p><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0Sim, eu estou no Programa de Prote\u00e7\u00e3o aos Defensores de Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos, estou fora de Bras\u00edlia viajando a trabalho e tamb\u00e9m por uma escolha pessoal, para evitar me deslocar permanentemente com escolta. A pol\u00edcia est\u00e1 investigando e n\u00e3o houve obriga\u00e7\u00e3o de sair de Bras\u00edlia nesse processo. S\u00e3o amea\u00e7as que come\u00e7aram primeiro por redes sociais, no Facebook da Anis por inbox, no meu Whatsapp, at\u00e9 que chegou em uma situa\u00e7\u00e3o em que eu fui falar em um evento e alguns homens estavam na porta me esperando. Eles tinham um perfil diferente dos que estavam no evento e a coordena\u00e7\u00e3o sugeriu que eu sa\u00edsse pelos fundos para n\u00e3o haver nenhum encontro. As amea\u00e7as come\u00e7aram de uma maneira mais forte depois da convoca\u00e7\u00e3o das audi\u00eancias p\u00fablicas e em particular depois do an\u00fancio dos participantes, e foram crescendo. A den\u00fancia tem mais de dois meses e meio. Ela vazou para a imprensa depois, mas eu tinha decidido n\u00e3o falar nada at\u00e9 a pol\u00edcia avan\u00e7ar na investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Seu trabalho \u00e9 refer\u00eancia em bio\u00e9tica, direitos reprodutivos das mulheres e direitos humanos. Essas amea\u00e7as s\u00e3o algo novo ou aumentaram nos \u00faltimos tempos?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0No tempo da discuss\u00e3o sobre a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto em caso de fetos com anencefalia elas existiam muito fortemente, em particular no trabalho em parceria com um promotor de justi\u00e7a do DF chamado Diaulas Ribeiro. N\u00f3s fizemos um livro juntos e, nessa ocasi\u00e3o, ele solicitou escolta policial para o lan\u00e7amento do livro. Eu passei alguns constrangimentos, inclusive dando aula, um sujeito entrou, eu fiz uma queixa crime, foi uma \u00e9poca em que houve uma tens\u00e3o inclusive de proximidade f\u00edsica. Depois isso se acalmou, passaram-se alguns anos sem maiores perturba\u00e7\u00f5es e a\u00ed, no ano passado, com a apresenta\u00e7\u00e3o do caso da Rebeca Mendes no Supremo, elas voltaram com alguma for\u00e7a. Um sujeito que se diz do jornalismo investigativo fez um v\u00eddeo bastante intimidat\u00f3rio e isso causou uma repercuss\u00e3o. Eu resolvi n\u00e3o me movimentar muito sobre esse v\u00eddeo e eles voltaram com mais for\u00e7a agora em abril e maio, inclusive fazendo p\u00e1ginas coletivas que tinham centenas de coment\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Temos visto discursos de \u00f3dio ganharem muita for\u00e7a recentemente. Voc\u00ea acha que o que est\u00e1 vivendo tem a ver com esse momento ou com a aproxima\u00e7\u00e3o das audi\u00eancias no STF?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Eu acho que isso tem a ver com duas grandes coisas. O tema do aborto \u00e9 muito f\u00e1cil para momentos de grande crise pol\u00edtica. O Brasil vive uma crise pol\u00edtica permanente nos \u00faltimos anos, com uma crise de representatividade pol\u00edtica inclusive \u2013 n\u00f3s n\u00e3o sabemos muito bem quem s\u00e3o os partidos, o que eles prop\u00f5em, as propostas de governo, como eles fazem coaliz\u00f5es, inclusive com religi\u00f5es. E nesse contexto de fragilidade pol\u00edtica, temas com forte apelo emocional e que s\u00e3o capazes de movimentar multid\u00f5es como \u201csim\u201d ou \u201cn\u00e3o\u201d, \u201ccontra\u201d ou \u201ca favor\u201d, como \u00e9 o caso da descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, da maconha, do uso de porte de armas, movimentam rapidamente multid\u00f5es e d\u00e3o uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ent\u00e3o parte destes tempos sombrios surgem por causa dessa instabilidade, em que grandes quest\u00f5es democr\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o discutidas como parte de um processo pol\u00edtico. N\u00f3s estamos no Rio de Janeiro com uma interven\u00e7\u00e3o militar desde fevereiro e isso n\u00e3o \u00e9 uma pauta pol\u00edtica permanente de reflex\u00e3o s\u00e9ria no pa\u00eds. Tudo isso faz com que temas f\u00e1ceis \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o, e uma n\u00e3o reflex\u00e3o sobre quais s\u00e3o as quest\u00f5es postas, movimentem multid\u00f5es. Esse \u00e9 um pano de fundo importante. E o segundo ponto \u00e9 a pr\u00f3pria arena das m\u00eddias sociais em que a gente ainda precisa de uma cultura pol\u00edtica e de comunica\u00e7\u00e3o para ocupar esses espa\u00e7os. Qualquer coisa vale, de uso de identidades falsas a agress\u00f5es. O aborto \u00e9 um tema que provoca paix\u00f5es, que exige um arsenal de informa\u00e7\u00f5es e de cautela para o debate, caso contr\u00e1rio ele cai imediatamente na agress\u00e3o. Ent\u00e3o, essa dificuldade j\u00e1 faz parte da hist\u00f3ria do pr\u00f3prio tema e, quando ainda se colocam esse dois condicionantes nossos, isso se torna um tema de risco.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Falando sobre essas audi\u00eancias do STF. A Anis assina, juntamente com o Psol, a a\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 discutida. Me parece que h\u00e1 uma confus\u00e3o sobre o que ser\u00e1 julgado e de que forma. Pode explicar o que vai acontecer nos pr\u00f3ximos dias?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0O c\u00f3digo penal de 1940 manda prender mulheres que fizeram o aborto. A Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1988 e portanto posterior a 1940. Uma leitura do C\u00f3digo Penal pela Constitui\u00e7\u00e3o diz que eu n\u00e3o posso prender mulheres se \u00e9 uma necessidade de sa\u00fade, se \u00e9 uma quest\u00e3o de cidadania, se o aborto \u00e9 parte da dignidade da vida das mulheres ao tomar essa decis\u00e3o. Ent\u00e3o uma leitura da Constitui\u00e7\u00e3o sobre o C\u00f3digo Penal diz que ele \u00e9 inconstitucional. Todas as leis anteriores \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o t\u00eam que ser revistas. S\u00f3 que ningu\u00e9m nunca provocou o Supremo a revisar o C\u00f3digo Penal, \u00e0 luz da Constitui\u00e7\u00e3o, sobre o aborto. E a Suprema Corte \u00e9 um espa\u00e7o leg\u00edtimo para essa revis\u00e3o do c\u00f3digo penal, muito anterior \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o. Esse pedido foi feito pela Anis e pelo Psol em mar\u00e7o de 2017. A ministra relatora Rosa Weber convocou audi\u00eancias p\u00fablicas \u2013 que ainda s\u00e3o momentos raros dentro do Supremo. As primeiras convocadas na hist\u00f3ria foram as da anencefalia e as primeiras realizadas foram as de c\u00e9lula tronco. Nessa a\u00e7\u00e3o, o primeiro ato da ministra, um ano depois da apresenta\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o, foi dizer \u201cvou convocar audi\u00eancias p\u00fablicas, eu quero ouvir especialistas, comunidade cient\u00edfica, comunidades de f\u00e9 e a sociedade civil para ouvir o que elas t\u00eam a dizer sobre aborto\u201d, sobre o pedido feito na a\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o de n\u00e3o prender as mulheres. Esse \u00e9 um momento muito importante, tanto politicamente quanto de qualifica\u00e7\u00e3o do debate p\u00fablico, porque \u00e9 um momento em que o Supremo se curva \u00e0 sociedade dizendo \u201ceu preciso ouvi-la antes da tomada de decis\u00e3o\u201d. Estes momentos, dias 3 [amanh\u00e3] e dia 6, s\u00e3o os das audi\u00eancias p\u00fablicas. E h\u00e1 uma novidade: Pela primeira vez a ministra disse que o que for apresentado nas audi\u00eancias p\u00fablicas \u2013 e por isso ela pede tanto tempo antes das apresenta\u00e7\u00f5es \u2013 ser\u00e1 anexado ao processo, far\u00e1 parte dos documentos a serem consultados pelos outros ministros. O que pode acontecer a partir da\u00ed? Ela pode a qualquer momento convocar o julgamento. N\u00e3o h\u00e1 um calend\u00e1rio. Vai ser no tempo da corte. No caso da anencefalia durou 8 anos. As audi\u00eancias p\u00fablicas s\u00e3o o momento de qualifica\u00e7\u00e3o do debate, n\u00e3o \u00e9 o julgamento ainda. Ser\u00e3o 40 expositores entre cientistas, especialistas, comunidade jur\u00eddica, comunidades de f\u00e9, a sociedade civil. Os melhores dados e a melhor ci\u00eancia dispon\u00edvel sobre o tema v\u00e3o ser apresentados ao Supremo. Ent\u00e3o essa \u00e9 uma possibilidade de giro do debate, que antes n\u00f3s fal\u00e1vamos, das multid\u00f5es, do \u00f3dio, das redes sociais, para a qualifica\u00e7\u00e3o do debate a partir do que sabemos de aborto. Esse \u00e9 um momento de fazer algo que no campo jur\u00eddico e no campo cient\u00edfico se conhece muito, que \u00e9 um argumento baseado em evid\u00eancias seguras para aquilo que se sustenta sobre o aborto. H\u00e1 risco de morte? Sim ou n\u00e3o, quais s\u00e3o os dados apresentados? Quem \u00e9 a mulher que aborta? Qual \u00e9 o perfil? Aborto tem risco para a sa\u00fade mental? Quais s\u00e3o os dados apresentados? Ou seja, as perguntas que s\u00e3o feitas para decidir o \u201csim\u201d ou \u201cn\u00e3o\u201d \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto precisam ser respondidas na audi\u00eancia. E por que \u00e9 importante agora? Eu daria duas respostas. Uma nacional porque n\u00f3s temos as elei\u00e7\u00f5es daqui a dois meses ent\u00e3o esse \u00e9 um momento em que se soubermos bem usar o que vai ser apresentado, podemos usar para qualificar o debate p\u00fablico. E a ministra foi muito sens\u00edvel a esse tema porque poderia parecer quase que um momento inadequado, ela sendo inclusive presidente do Superior Tribunal Eleitoral. Mas eu acredito que \u00e9 o momento de respeito \u00e0 democracia. E h\u00e1 uma segunda raz\u00e3o, que \u00e9 de uma geopol\u00edtica regional.\u00a0A Argentina vota a decis\u00e3o no Senado no dia 8 pr\u00f3ximo. Ent\u00e3o, como uma alegoria, eu poderia dizer que h\u00e1 uma onda verde na regi\u00e3o, que \u00e9 um momento na hist\u00f3ria. Na Irlanda recentemente tamb\u00e9m, no Chile, na Bol\u00edvia que descriminalizaram em parte a interrup\u00e7\u00e3o da gravidez, elas no Chile morriam, n\u00e3o podiam fazer aborto nem com risco de morte. H\u00e1 um momento hist\u00f3rico do qual o Brasil faz parte.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0O que querem as mulheres que pedem a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0A descriminaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a retirada desse dispositivo, dessa coisa do c\u00f3digo penal que diz que se uma mulher fizer aborto ela vai presa. Presa! N\u00f3s nunca podemos esquecer disso! \u00c9 uma a cada 5 mulheres aos 40 anos [que aborta]! Pelo menos meio milh\u00e3o de mulheres a cada ano. Uma em cada 5 mulheres com at\u00e9 40 anos que voc\u00ea conhece, eu conhe\u00e7o. Uma delas ao menos teria passado pela pris\u00e3o. Essa \u00e9 uma mulher comum, ela tem filhos, ela vai \u00e0 igreja, vai ao templo, trabalha, ela n\u00e3o tem o perfil de uma \u201cmulher fora da lei\u201d, de uma mulher criminosa. \u00c9 uma mulher comum que se v\u00ea diante de uma necessidade de sa\u00fade, uma necessidade de vida, e ela tem que ir \u00e0 clandestinidade pra fazer um aborto, seja para comprar medicamentos, buscar uma clinica ou, se ela tem mais dinheiro, pegar um avi\u00e3o para um pa\u00eds onde o aborto \u00e9 legalizado. Por que a descriminaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante? Quando voc\u00ea retira o crime de uma pr\u00e1tica voc\u00ea pode falar dela abertamente. As institui\u00e7\u00f5es do Estado podem desenhar pol\u00edticas para prevenir, para proteger e para cuidar. Como se previne o aborto? H\u00e1 estudos sistem\u00e1ticos que mostram que uma mulher quando faz o aborto, alguma coisa est\u00e1 errada em sua vida. Seja no uso dos m\u00e9todos, ou ela teve efeitos colaterais ou ela n\u00e3o soube usar, ou porque ela \u00e9 muito jovem e sofre viol\u00eancia sexual dentro da pr\u00f3pria casa, porque sofre viol\u00eancia do parceiro, n\u00e3o tem dinheiro para acessar os m\u00e9todos\u2026 H\u00e1 v\u00e1rias raz\u00f5es para os m\u00e9todos falharem. Os companheiros n\u00e3o permitem que elas usem, elas n\u00e3o conseguem negociar o uso da camisinha\u2026 Ent\u00e3o quando o aborto \u00e9 crime essa mulher entra na situa\u00e7\u00e3o de sa\u00fade e n\u00e3o fala a verdade, ela tem medo de ser denunciada. Esse m\u00e9dico, essa enfermeira perdem a oportunidade de saber o que esta acontecendo de errado e prevenir um segundo aborto. Se voc\u00ea vir por exemplo a Col\u00f4mbia, que descriminaliza o aborto por uma decis\u00e3o da corte h\u00e1 mais de 10 anos, uma mulher que faz aborto por sa\u00fade mental por exemplo, ela j\u00e1 sai do sistema de sa\u00fade com m\u00e9todo de planejamento familiar, com m\u00e9todo contraceptivo adequado \u00e0 sua sa\u00fade e \u00e0 sua vida. A descriminaliza\u00e7\u00e3o permite inclusive diminuir a taxa de abortos, que \u00e9 o que tanto querem aqueles que querem prender as mulheres. O Brasil est\u00e1 na regi\u00e3o que mais pune e que mais faz aborto do mundo. Quanto mais se pune mais aumenta a persegui\u00e7\u00e3o e a dificuldade de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, e as mulheres fazem mais abortos porque algo est\u00e1 errado.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0O que a Pesquisa Nacional do Aborto realizada em 2016 concluiu? Quem s\u00e3o as mulheres que realizam aborto no pa\u00eds?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0\u00c9 a mulher comum. N\u00e3o \u00e9 aquela mulher que se imagina como prom\u00edscua, como adolescente irrespons\u00e1vel ou como profissional do sexo. Ela \u00e9 qualquer uma de n\u00f3s. \u00c9 claro que as mulheres mais empobrecidas, vulner\u00e1veis, dependentes do SUS para acesso a prote\u00e7\u00e3o de sa\u00fade s\u00e3o as mais vulner\u00e1veis aos efeitos da criminaliza\u00e7\u00e3o. Todas as mulheres est\u00e3o sob a amea\u00e7a da criminaliza\u00e7\u00e3o, da pris\u00e3o, mas s\u00f3 algumas correm o risco verdadeiro de serem perseguidas, punidas ou presas, que s\u00e3o aquelas mulheres mais dependentes do estado. Mulheres pretas e pardas, ind\u00edgenas, da periferia, mulheres com menor n\u00edvel de escolaridade e mulheres mais pobres. S\u00e3o elas que tem que se arriscar a n\u00e3o conhecer e n\u00e3o saber sobre o medicamento que fazem uso, s\u00e3o elas sem acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o digital sobre a melhor forma de utilizar um medicamento, s\u00e3o elas que procuram o SUS e que s\u00e3o denunciadas \u00e0 policia. As mulheres com mais acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, as mulheres mais urbanas, as mulheres com maior n\u00edvel de escolaridade recorrem a m\u00e9todos um pouco mais seguros apesar da clandestinidade. N\u00f3s estamos falando da desigualdade brasileira no perfil da mulher, que faz aborto e corre risco de ser pega pelo c\u00f3digo penal. Todas as mulheres \u2013 as brancas, as negras, as de classe media, as mais pobres, as das elites, dos melhores bairros, das periferias \u2013 fazem aborto. Mas s\u00f3 aquelas mesmas que o Estado, que a pol\u00edcia bota a m\u00e3o, s\u00e3o aquelas em quem a pol\u00edcia vai botar a m\u00e3o quando fazem aborto. Aqui a seletividade do sistema, do racismo e da desigualdade de classe brasileira \u00e9 t\u00e3o perversa que a mesma lei s\u00f3 pega algumas, s\u00f3 p\u00f5e algumas em maior risco, s\u00f3 algumas morrem como foi o caso recente da mulher do interior do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Na Argentina a descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto j\u00e1 passou na C\u00e2mara, depende agora da aprova\u00e7\u00e3o do Senado, e milhares de pessoas t\u00eam tomado as ruas pedindo que seja lei. Na sociedade brasileira, no entanto, \u00e9 quase um tabu. Por que voc\u00ea acha que isso acontece?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0A Argentina tamb\u00e9m \u00e9 um pa\u00eds muito conservador em que o aborto \u00e9 um tabu. N\u00f3s estamos falando de diferentes mobiliza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e pelo momento pol\u00edtico do pa\u00eds. N\u00f3s somos muito parecidos, Brasil e Argentina nesse tema, e a Argentina tem um papa argentino, teria todas as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de n\u00e3o ter essa mobiliza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o eu n\u00e3o diria que \u00e9 o conservadorismo da sociedade brasileira ou da sociedade argentina. H\u00e1 uma onda conservadora vindo em toda a regi\u00e3o, no entanto, a Argentina teve um movimento como o\u00a0<em>Ni Una Menos<\/em>\u00a0que mobilizou o tema da viol\u00eancia de g\u00eanero e sobre o que representavam as estruturas do Estado contra as mulheres. E por n\u00e3o ter vivido uma crise pol\u00edtica, que \u00e9 imobilizadora como a do Brasil recente, houve essa enorme mobiliza\u00e7\u00e3o das mulheres, dos velhos, dos homens, das crian\u00e7as pelas ruas, especialmente de Buenos Aires.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Com as elei\u00e7\u00f5es se aproximando, voc\u00ea acha que os candidatos ir\u00e3o discutir esse assunto?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Todas as elei\u00e7\u00f5es mostram, seja na reta final ou quando h\u00e1 alguma grande disputa, esse tema vem. E ele n\u00e3o vem na expectativa de um debate razo\u00e1vel e fundamentado em dados, ele vem intimidat\u00f3rio e coercitivo sobre aqueles que lan\u00e7am posi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o sejam conservadoras. A minha expectativa \u00e9 que as audi\u00eancias no Supremo permitam uma qualifica\u00e7\u00e3o do debate nas elei\u00e7\u00f5es, mas eu acredito que isso n\u00e3o vir\u00e1 como uma pol\u00edtica de governo dos candidatos porque \u00e9 sempre um tema intimidat\u00f3rio, especialmente nas comunidades religiosas, que t\u00eam muita for\u00e7a no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/02\/politica\/1533241424_946696.html?rel=mas\" target=\"_blank\">El Pa\u00eds<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Refer\u00eancia nos estudos sobre o tema no Brasil, ela est\u00e1 sendo perseguida e amea\u00e7ada. 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