{"id":2273,"date":"2019-04-16T00:45:44","date_gmt":"2019-04-16T03:45:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=2273"},"modified":"2019-04-16T00:45:44","modified_gmt":"2019-04-16T03:45:44","slug":"o-governo-nao-diz-que-vai-combater-o-crime-organizado-va-la-no-assentamento-e-combata-diz-agricultor-jurado-de-morte-no-para","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/o-governo-nao-diz-que-vai-combater-o-crime-organizado-va-la-no-assentamento-e-combata-diz-agricultor-jurado-de-morte-no-para\/","title":{"rendered":"\u2018O governo n\u00e3o diz que vai combater o crime organizado? V\u00e1 l\u00e1 no assentamento e combata\u2019, diz agricultor jurado de morte no Par\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Em programa de prote\u00e7\u00e3o, tr\u00eas agricultores do Assentamento Areia falaram \u00e0\u00a0<span class=\"il\">P\u00fablica<\/span>\u00a0sobre a rotina de amea\u00e7as, mortes e trabalho escravo na comunidade dominada por madeireiros e fazendeiros<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O Projeto de Assentamento Areia (PA Areia), no munic\u00edpio de Trair\u00e3o (PA), \u00e9 a porta de entrada para uma imensid\u00e3o de floresta disputada palmo a palmo por grupos de madeireiros que h\u00e1 d\u00e9cadas dominam a \u00e1rea. Cercado de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o que formam uma das maiores \u00e1reas cont\u00ednuas de floresta tropical do planeta, o PA Areia \u00e9 uma rota privilegiada para acessar as madeiras de lei que ainda abundam ali. Por isto, o projeto de assentamento apresenta intensa reconcentra\u00e7\u00e3o dos lotes de reforma agr\u00e1ria, coleciona in\u00fameros epis\u00f3dios de viol\u00eancia, trabalho escravo e crimes ambientais j\u00e1 denunciados na Justi\u00e7a Estadual e Federal do Par\u00e1. O acesso ao PA \u00e9 controlado por madeireiros, que chegam a cobrar entrada para o local, uma \u00e1rea\u00a0<span class=\"il\">p\u00fablica<\/span>\u00a0pertencente \u00e0 Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0\u00a0<strong><span class=\"il\">P\u00fablica<\/span><\/strong>, o casal Osvalinda e Daniel Pereira e o agricultor Antonio de Paula Silva, inclu\u00eddos no Programa de Prote\u00e7\u00e3o aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), falam sobre o hist\u00f3rico de viol\u00eancia, o conv\u00edvio di\u00e1rio com as intimida\u00e7\u00f5es dos grupos madeireiros e a tentativa de implementa\u00e7\u00e3o de modelos de agroextrativismo por meio da Associa\u00e7\u00e3o de Mulheres do PA Areia, presidida por Osvalinda e apoiada pelos outros dois agricultores.<\/p>\n<p>Todos temem o acirramento dos conflitos no governo Bolsonaro. \u201cO governo t\u00e1 dizendo que vai combater o crime organizado. E \u00e9 isso que ele tem que fazer. V\u00e1 l\u00e1 no PA Areia e combata o crime organizado\u201d, desafia Daniel Pereira.<\/p>\n<figure id=\"attachment_441417\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<figure id=\"attachment_441417\" aria-describedby=\"caption-attachment-441417\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"jetpack-lazy-image jetpack-lazy-image--handled wp-image-441417 size-large\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-768x512.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" data-attachment-id=\"441417\" data-permalink=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/ultimas-noticias\/geral\/2019\/04\/o-governo-nao-diz-que-vai-combater-o-crime-organizado-va-la-no-assentamento-e-combata-diz-agricultor-jurado-de-morte-no-para\/attachment\/unnamed-215\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed.jpg\" data-orig-size=\"1920,1280\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;Paula Cinquetti&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-600x400.jpg\" data-large-file=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-1024x683.jpg\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-441417\" class=\"wp-caption-text\">O agricultor Antonio de Paula Silva, Osvalinda e Daniel Pereira, est\u00e3o inclu\u00eddos no Programa de Prote\u00e7\u00e3o aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH). Foto: Paula Cinquetti\/Ag\u00eancia P\u00fablica<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n<p><strong>Em que ano voc\u00eas foram assentados no PA Areia e quando chegaram j\u00e1 havia conflito? Como foi essa chegada de voc\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Antonio Silva:<\/strong>\u00a0Eu cheguei em 1998. J\u00e1 existia conflito na \u00e9poca em que eu cheguei. Existia uma madeireira dentro do assentamento j\u00e1, colocada em 1998.<\/p>\n<p><strong>Osvalinda Pereira:<\/strong>\u00a0N\u00f3s chegamos l\u00e1 em 2001, eu e Daniel, atr\u00e1s de uma terra sem problemas. Mas na chegada a gente j\u00e1 viu um corrent\u00e3o no port\u00e3o, na entrada [do assentamento], e tivemos que pagar uma \u201clicen\u00e7a\u201d para entrar. Mas era um assentamento maravilhoso, com umas terras boas, uma vila nova e a gente pensava que estava tudo ok. Mas quando a gente buscava ou a associa\u00e7\u00e3o de moradores ou o sindicato [de trabalhadores rurais] pra desenvolver a agricultura, era impedido. A gente foi mexendo a fundo: por que a agricultura ali n\u00e3o era desenvolvida? A\u00ed foi ver que tanto a associa\u00e7\u00e3o de moradores quanto o sindicato e todos os \u00f3rg\u00e3os da regi\u00e3o eram manipulados pelos fazendeiros e madeireiros pra n\u00e3o desenvolver a agricultura, porque o que tinha de funcionar ali dentro era a madeira. J\u00e1 havia o conflito e j\u00e1 havia v\u00e1rias mortes e ningu\u00e9m comentava. A gente foi percebendo que, como agricultor, produzia pra se manter, mas n\u00e3o tinha chance. Voc\u00ea n\u00e3o tinha direito da prefeitura pra ir numa secretaria de agricultura, ou ir num sindicato, n\u00e3o tinha apoio e nem mesmo na associa\u00e7\u00e3o de dentro do assentamento. Foi quando a gente viu necessidade de vir buscar ajuda fora. Fomos convidados a participar de um programa do IPAM [Instituto de Pesquisa Ambiental na Amaz\u00f4nia] pra trabalhar num projeto de agricultura familiar experimental, pra ver se ia funcionar na regi\u00e3o [firmado em 2003]. N\u00f3s [Osvalinda e Daniel], seu Silva e mais umas tr\u00eas fam\u00edlias dentro do Areia fomos selecionados no munic\u00edpio de Trair\u00e3o. E come\u00e7amos a ser tachados de ambientalistas por n\u00e3o usar fogo nem agrot\u00f3xico, cuidar do meio ambiente da nossa \u00e1rea. O projeto durou oito anos e nesse per\u00edodo a gente j\u00e1 resolveu abrir outra associa\u00e7\u00e3o de moradores no assentamento: como n\u00e3o tinha apoio nem da associa\u00e7\u00e3o, nem do sindicato e nem da prefeitura, n\u00f3s decidimos abrir uma associa\u00e7\u00e3o de mulheres junto com outros \u00f3rg\u00e3os de fora e movimentos sociais. E decidimos trabalhar num outro sentido, com agroextrativismo. Incentivamos os agricultores a fazer plantio de safra, n\u00e3o usar veneno ou agrot\u00f3xico. Fomos mudando a vis\u00e3o dentro do PA Areia.<\/p>\n<p><strong>Daniel Pereira:<\/strong>\u00a0A gente acabou enxergando que a associa\u00e7\u00e3o de moradores que iniciou o assentamento j\u00e1 estava manipulada pelos grandes fazendeiros e madeireiros dali, um grupo de mil\u00edcia organizado que vinha operando dentro do assentamento. E viu que as fam\u00edlias estavam numa car\u00eancia muito grande. Por isso surgiu a ideia de resgatar o direito das fam\u00edlias que j\u00e1 estavam ali. N\u00f3s consultamos o assentamento todo e colocamos em pr\u00e1tica a ideia de consultar os \u00f3rg\u00e3os da regi\u00e3o, inclusive de munic\u00edpios vizinhos, pra gente inverter essa situa\u00e7\u00e3o que ainda est\u00e1 at\u00e9 hoje: o povo que est\u00e1 dentro do assentamento n\u00e3o tem o direito de sobreviver de acordo com o programa do Incra, de agricultura familiar. As grandes empresas ilegais vivem atacando as fam\u00edlias ali dentro. \u00c9 uma vida muito cr\u00edtica, que continua at\u00e9 hoje. As fam\u00edlias acharam uma boa ideia abrir uma nova associa\u00e7\u00e3o, com esse intuito de buscar novas experi\u00eancias para a agricultura e novos apoios. E por esses motivos, come\u00e7aram a surgir alguns problemas com as empresas ilegais.<\/p>\n<p><strong>Um pouco depois que voc\u00eas chegaram come\u00e7ou o processo de cria\u00e7\u00e3o do mosaico das Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de influ\u00eancia da BR-163\u2026<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_441418\" class=\"wp-caption alignright\">\n<figure id=\"attachment_441418\" aria-describedby=\"caption-attachment-441418\" style=\"width: 392px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"jetpack-lazy-image jetpack-lazy-image--handled wp-image-441418\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-1-140x150.jpg\" sizes=\"(max-width: 392px) 100vw, 392px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-1-140x150.jpg 140w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-1.jpg 559w\" alt=\"\" width=\"392\" height=\"420\" data-attachment-id=\"441418\" data-permalink=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/ultimas-noticias\/geral\/2019\/04\/o-governo-nao-diz-que-vai-combater-o-crime-organizado-va-la-no-assentamento-e-combata-diz-agricultor-jurado-de-morte-no-para\/attachment\/unnamed-1-78\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-1.jpg\" data-orig-size=\"559,600\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed (1)\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-1-559x600.jpg\" data-large-file=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-1.jpg\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-441418\" class=\"wp-caption-text\">Osvalinda e Daniel Pereira convivem diariamente com intimida\u00e7\u00f5es. Em maio de 2018, duas covas foram constru\u00eddas em seus lotes para amea\u00e7\u00e1-los<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n<p><strong>Osvalinda:<\/strong>\u00a0Sim. E a\u00ed que come\u00e7ou mesmo a amea\u00e7a. N\u00f3s j\u00e1 est\u00e1vamos trabalhando com o IPAM nessa \u00e9poca quando veio a primeira proposta pra nossa associa\u00e7\u00e3o fazer um projeto grande, pra a gente ajudar as empresas na explora\u00e7\u00e3o de madeira. Eles iam comprar m\u00e1quinas, comprar caminh\u00e3o e uma parte do dinheiro viria pra gente. Eu n\u00e3o aceitei porque n\u00f3s abrimos uma associa\u00e7\u00e3o pra n\u00e3o estar na m\u00e3o deles, se a gente aceitasse ia estar na m\u00e3o deles. A partir desse momento que eu n\u00e3o aceitei, nossa vida come\u00e7ou a mudar. Era uma amea\u00e7a verbal o tempo todo, eles ficavam mandando recado dizendo que a associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o ia pra frente, que s\u00f3 ia prejudicar as pessoas, os agricultores. E assim come\u00e7ou a criar uma bola de neve contra a associa\u00e7\u00e3o de mulheres l\u00e1 dentro. Um dia eu fui fazer um tratamento de sa\u00fade em Santar\u00e9m. L\u00e1, eu estava numa casa de apoio e, conversando com uma assentada, ela me perguntou se eu conhecia uma mulher no Areia que chamava Osvalinda, que era presidente da associa\u00e7\u00e3o de mulheres l\u00e1. Eu falei: \u201cconhe\u00e7o\u201d. Mas eu n\u00e3o disse que era eu. Achei estranho porque a mulher era de Novo Progresso [munic\u00edpio da mesma regi\u00e3o do PA Areia]. E eu perguntei: \u201cPor que?\u201d. E ela falou: \u201cPorque essa mulher t\u00e1 jurada de morte. Ela vai morrer essa semana\u201d. O ch\u00e3o parece que sumiu. E eu perguntei de novo: \u201cpor que?\u201d. E ela: \u201cAh, porque essa mulher t\u00e1 denunciando os madeireiros l\u00e1 dentro. O Ibama entrou e queimou as m\u00e1quinas deles, os caminh\u00f5es. E \u00e9 ela que t\u00e1 denunciando.\u201d A\u00ed eu falei: \u201cEssa mulher sou eu. Eu sou a Osvalinda, mas eu n\u00e3o t\u00f4 denunciando ningu\u00e9m n\u00e3o\u201d. A\u00ed ela mudou de conversa, desconversou, disse que o marido tinha ficado sabendo. A\u00ed na mesma hora o Daniel ligou pra mim, dizendo que os madeireiros j\u00e1 tinham ido l\u00e1 no mesmo dia fazer uma proposta de servi\u00e7o com ele. E eu falei: \u201cN\u00e3o conversa com esse povo, n\u00e3o fecha neg\u00f3cio nenhum\u201d. Eu contei pra ele o que ela disse, que n\u00f3s \u00edamos morrer, que desde Uruar\u00e1 at\u00e9 Novo Progresso todos os fazendeiros e os madeireiros j\u00e1 tinham dado R$ 3 mil pra pagar os pistoleiros pra matar n\u00f3s quatro: eu, Daniel, seu Silva e dona Jeci [esposa de seu Silva]. Eu tinha que morrer porque eles tinham que marcar o territ\u00f3rio e tinham que me eliminar de l\u00e1 de dentro. Nem fiz a consulta, voltei e Daniel foi me buscar no Trair\u00e3o, na cidade. Mas a\u00ed as motos [dos pistoleiros] j\u00e1 come\u00e7aram a perseguir a gente. Quando eu cheguei em casa, s\u00f3 encostamos a nossa moto e chegaram duas Hilux cheias de homem em cima e as motos dos pistoleiros tudinho. Daquele dia em diante nossa vida mudou totalmente. Sem direito de eu falar que n\u00e3o queria essa vida pra mim.<\/p>\n<p><strong>Daniel:<\/strong>\u00a0Quando eles me procuraram, eles queriam fazer um acordo, que eu n\u00e3o aceitei. Eu tenho uma casa ali num ponto da vila do assentamento que os caminh\u00f5es [de madeira] tem que passar tudo ao lado dela. A\u00ed deram uma ideia de me pagar cem reais pra cada caminh\u00e3o que passasse ali com as madeiras. Que eu tenho a ver com caminh\u00e3o de madeira deles? Eu falei: \u201cN\u00e3o tenho nada a ver com voc\u00eas. Nunca trabalhei com voc\u00eas\u201d. E eles: \u201cN\u00e3o, mas n\u00f3s temos uma proposta boa\u201d. E eu falei que pra mim n\u00e3o fazia sentido. E eles falaram: \u201cVoc\u00ea precisa do dinheiro pra fazer o tratamento de sa\u00fade da sua mulher\u201d. Porque direto eu estava nos hospitais com ela. E eles falaram que o dinheiro ia ser bom pra mim. E eu falei: \u201cN\u00e3o, pra mim n\u00e3o vai ser bom. Eu vou pegar um dinheiro com uma coisa que eu n\u00e3o sei que servi\u00e7o que eu t\u00f4 prestando pra ganhar esse dinheiro. Eu n\u00e3o mexo com nada ilegal. Todo mundo aqui me conhece\u201d. E eles falaram: \u201cN\u00e3o, mas voc\u00ea pode aceitar. \u00c9 um servi\u00e7o s\u00f3, cara\u201d. E eu falei: \u201cN\u00e3o, deixa a Osvalinda chegar porque quem \u00e9 a presidente da associa\u00e7\u00e3o \u00e9 ela\u201d. E isso foram os pe\u00f5es dos madeireiros. Eles falaram: \u201cEu vou marcar com os patr\u00f5es l\u00e1, porque eles j\u00e1 articularam com todo mundo. Desde Altamira at\u00e9 a Serra do Cachimbo, todos os fazendeiros e madeireiros j\u00e1 t\u00e3o prontos pra fazer esse acordo com voc\u00ea.\u201d Eu n\u00e3o sabia o tamanho da articula\u00e7\u00e3o que j\u00e1 estava nos munic\u00edpios. Mas a gente n\u00e3o caiu nessa cilada. Foi quando a Osvalinda chegou de viagem, entendeu? E chegaram umas doze pessoas. Os patr\u00f5es e uns quatro pistoleiros que chegaram. Um ficou na porta, outro dentro de casa e outro na janela. Eles queriam fazer a proposta pra gente aceitar esse dinheiro, diziam que a gente tinha contato com o ICMBio, com o Ibama. E a gente dizia que n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Osvalinda:<\/strong>\u00a0Foi da\u00ed que um dos madeireiros entrou na proposta e falou pra mim que tava com uma bolsa de dinheiro, que j\u00e1 tinha falado com o Daniel, que n\u00e3o aceitou o servi\u00e7o com eles. E eles falaram pra eu aceitar a proposta deles: \u201cN\u00f3s trouxemos esse dinheiro aqui porque a senhora t\u00e1 fazendo tratamento, t\u00e1 muito doente. E n\u00f3s sabemos que voc\u00eas est\u00e3o tentando levantar a associa\u00e7\u00e3o. E esse dinheiro vai dar pra voc\u00ea fazer o tratamento e cuidar da associa\u00e7\u00e3o.\u201d E eu falei: \u201cPor qual motivo eu vou pegar esse dinheiro de voc\u00eas?\u201d E ele falou: \u201cVou falar a real pra senhora. Eu t\u00f4 sabendo que a senhora t\u00e1 denunciando a gente pro Ibama e pro ICMBio. O pessoal dos \u00f3rg\u00e3os falou que tem um casal que t\u00e1 vindo a\u00ed e denunciando e n\u00f3s sabemos que \u00e9 voc\u00eas. Esse dinheiro \u00e9 pra voc\u00eas n\u00e3o trabalharem mais com a associa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o mexer mais com a gente. O Ibama j\u00e1 entrou aqui, j\u00e1 queimou nossas m\u00e1quinas.\u201d E eu falei: \u201cEu n\u00e3o sei o que t\u00e1 acontecendo a\u00ed, \u00e9 voc\u00eas mesmo. Porque o meu trabalho de ir l\u00e1 fora \u00e9 pra ir atr\u00e1s de benef\u00edcio pra associa\u00e7\u00e3o ou cuidar da minha sa\u00fade. Eu n\u00e3o tenho nada a ver com o trabalho de voc\u00eas. Se voc\u00eas trabalham ilegal, \u00e9 problema de voc\u00eas.\u201d E eles: \u201cN\u00e3o, mas a senhora como presidente t\u00e1 indo l\u00e1 fora e esses benef\u00edcios que a senhora diz que t\u00e1 trazendo t\u00e3o prejudicando a gente\u201d. E eu falei que eu n\u00e3o ia parar com o trabalho da associa\u00e7\u00e3o. E ele falou que tinha trazido o dinheiro e que era pra eu aceitar. E eu falei: \u201cS\u00f3 aceito dinheiro seu se for pro senhor comprar nossos produtos. O senhor n\u00e3o tem gente l\u00e1 dentro, trabalhando no mato? N\u00f3s temos arroz, feij\u00e3o, abacaxi, macaxeira, polpa de fruta. O que o senhor pensar pro senhor levar pros pe\u00e3o comer. N\u00f3s vende por quilo, por saco, n\u00f3s pesa e o senhor paga o valor justo. Esse dinheiro n\u00f3s pode pegar do senhor, do produto que a gente vender. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 parente nosso pra gente pegar dinheiro de voc\u00eas.\u201d Imagina uma pessoa chegar assim com uma bolsa de dinheiro! A\u00ed ele se zangou, se levantou e disse: \u201cDona Osvalinda, pobre s\u00f3 recebe dinheiro quando morre.\u201d E eu perguntei se ele tava me amea\u00e7ando. E ele: \u201cN\u00e3o, de maneira nenhuma eu t\u00f4 te amea\u00e7ando. S\u00f3 t\u00f4 falando pra senhora que se o Ibama entrar de novo aqui dentro do Areia e queimar meus caminh\u00f5es, minhas m\u00e1quinas e meus empregados ficarem desempregados e se eles vierem aqui fazer alguma coisa, n\u00e3o fui eu que mandei n\u00e3o.\u201d Eu falei que aquilo pra mim era uma amea\u00e7a. E ele falou: \u201cN\u00e3o to te amea\u00e7ando, to te falando que se eles vierem n\u00e3o fui eu que mandei, foi porque a senhora deixou eles desempregados\u201d. Sabe quando some o ch\u00e3o? Eu s\u00f3 olhei pro Daniel e falei: \u201cSe o senhor quiser matar a gente, pode matar. N\u00e3o tem como n\u00f3s dois correr de voc\u00eas aqui. Doze homens, tudo armado, n\u00e3o tem como a gente correr. Mas se voc\u00ea n\u00e3o matar a gente, na hora que eu sair daqui eu vou denunciar voc\u00eas. Agora eu vou denunciar mesmo, mas por amea\u00e7a.\u201d Eu n\u00e3o sei onde eu arrumei tanta coragem pra falar isso, eu tava tremendo. Ele levantou e falou que n\u00e3o queria mais conversa, disse que ia vir dois funcion\u00e1rios fazer acerto depois. Eu falei: \u201cN\u00e3o manda ningu\u00e9m fazer acerto, n\u00e3o\u201d. Ele apontou pra dois que tavam na sala e falou: \u201cAmanh\u00e3 de manh\u00e3 fulano e beltrano vem aqui fazer acerto com voc\u00eas e acabou a hist\u00f3ria\u201d. E eu falei: \u201cDaniel, eles v\u00e3o vir matar a gente aqui amanh\u00e3\u201d. A proposta deles era de um acerto, mas qual era o acerto, j\u00e1 que n\u00f3s n\u00e3o quer\u00edamos dinheiro? A\u00ed n\u00f3s montamos na moto e fomos pro Trair\u00e3o, fazer um BO. Na estrada, a gente cruzou com uma vizinha que vinha chorando na moto. Eles tinham falado na vila toda que era pra n\u00e3o se preocupar, que eu ia amanhecer morta, pra mostrar que quem mandava era eles. N\u00f3s fomos na Pol\u00edcia Militar. Mas eles s\u00f3 colocaram a m\u00e3o no nosso ombro e jogaram n\u00f3s pra fora, como se a gente fosse cachorro. Veio uns pistoleiros seguindo n\u00f3s pela estrada de moto, mas n\u00f3s conseguimos despistar. A\u00ed a gente foi pra casa do vice-prefeito da \u00e9poca e nos escondemos l\u00e1. Quando foi no outro dia, a gente foi na Pol\u00edcia Civil pra fazer o BO. Eles se recusaram, disseram que se fizessem o BO quem ia presa era eu. E eu falei: \u201cPor que? Eu e meu marido fomos amea\u00e7ados de morte dentro da nossa casa\u201d. E ele falou: \u201cPois \u00e9, mas se eu fizer o BO quem vai presa \u00e9 a senhora, porque a senhora n\u00e3o tem advogada, n\u00e3o tem dinheiro, e eles t\u00eam. Eles podem alegar que \u00e9 falso testemunho, que a senhora quer prejudicar eles.\u201d E eu falei: \u201cPois ent\u00e3o, fa\u00e7a um BO que eu vou pra cadeia\u201d. Ele fez um BO bem mal feito, mas fez. Eu peguei o BO e comecei a entrar em contato com os amigos de fora pra tentar fazer outro. A\u00ed eu consegui um contato pra ir at\u00e9 Santar\u00e9m na Pol\u00edcia Federal e formalizamos a den\u00fancia. Mas o trajeto pra ir pra casa foi aquela persegui\u00e7\u00e3o. Conseguimos ir de noite. Voltando pra Trair\u00e3o, a gente conseguiu ir at\u00e9 a Prefeitura, trocamos de carro escondido \u00e0 noite e levaram a gente pra Itaituba. Mas na balsa de Itaituba j\u00e1 tinha gente deles l\u00e1 esperando. L\u00e1 na Pol\u00edcia Federal n\u00f3s ficamos besta, l\u00e1 j\u00e1 tinha um monte de den\u00fancia em nome das pessoas que foram l\u00e1 nos amea\u00e7ar. Com den\u00fancia desde 1998, 1999, 2000. Den\u00fancia velha de assassinato, morte, crime ambiental.<\/p>\n<p><strong>Daniel:<\/strong>\u00a0A gente nem sabia com quem tava lidando. A pol\u00edcia j\u00e1 sabia que existiam pessoas, grupos criminosos organizados e com muito dinheiro atuando ali, dominando as comunidades, fazendo trabalho escravo ali dentro do assentamento, como acontece at\u00e9 hoje por l\u00e1 e n\u00e3o \u00e9 uma coisa escondida. Todo mundo sabe. E a\u00ed ficamos mais assustados.<\/p>\n<figure id=\"attachment_441419\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<figure id=\"attachment_441419\" aria-describedby=\"caption-attachment-441419\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"jetpack-lazy-image jetpack-lazy-image--handled wp-image-441419 size-large\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-1024x683.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-200x133.jpg 200w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-768x512.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" data-attachment-id=\"441419\" data-permalink=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/ultimas-noticias\/geral\/2019\/04\/o-governo-nao-diz-que-vai-combater-o-crime-organizado-va-la-no-assentamento-e-combata-diz-agricultor-jurado-de-morte-no-para\/attachment\/unnamed-216\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2.jpg\" data-orig-size=\"1920,1280\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;Paula Cinquetti&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-600x400.jpg\" data-large-file=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-1024x683.jpg\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-441419\" class=\"wp-caption-text\">A Associa\u00e7\u00e3o de Mulheres do PA Areia, presidida por Osvalinda, tenta implementar modelos de agroextrativismo. Foto: Ag\u00eancia P\u00fablica<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n<p><strong>Como acontece o trabalho escravo na regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Osvalinda:<\/strong>\u00a0Eles d\u00e3o uma moto sem documento, roubada, pra um rapaz que vai pro mato pra ele trabalhar. S\u00f3 que depois eles cobram essa d\u00edvida e o que os agricultores recebem nunca cobre isso. Se a pessoa reclamar, eles matam. Agora, depois que a gente foi formalizando as den\u00fancias, que eles acalmaram de matar os agricultores. Antes eles buscavam agricultor l\u00e1 fora e depois que eles faziam o trabalho o pagamento era matar. Poucos sa\u00edam de dentro da mata.<\/p>\n<p><strong>Daniel:<\/strong>\u00a0Morreu foi uma carrada de gente. Como que uma pessoa entra na mata e nunca mais sai?<\/p>\n<p><strong>Osvalinda:<\/strong>\u00a0S\u00e3o coisas que acontecem e as pessoas n\u00e3o tem coragem de denunciar porque toda a fam\u00edlia t\u00e1 l\u00e1 dentro. Muita gente j\u00e1 abandonou o assentamento. Minhas amigas que trabalhavam comigo foram tudo embora, disseram que iam embora pra n\u00e3o me ver morrer. Uma amiga me ligou dizendo outro dia dizendo que tava indo embora porque tava sendo amea\u00e7ada de morte, mas n\u00e3o tem coragem de denunciar. O povo l\u00e1 dentro vive oprimido.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00eas tem ideia de quantas pessoas morreram no PA Areia pelo conflito?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel:<\/strong>\u00a0Nivaldinho [agricultor] foi um que morreu esquartejado a fac\u00e3o, o Nelson [agricultor] foi esfaqueado por um pistoleiro deitado em cima do banco de um barco, morreu por falta de pagamento; o Cuca [agricultor] foi morto e sumiram com ele.<\/p>\n<p><strong>Osvalinda:<\/strong>\u00a0Outra foi a Rosinha [agricultora], uma menina de 13 anos que estava gr\u00e1vida. Sumiu o corpo dela, at\u00e9 hoje n\u00e3o encontraram.<\/p>\n<p>Daniel: O Ga\u00facho [agricultor] tamb\u00e9m que foi assassinado. Isso tudo dentro da vila do assentamento.<\/p>\n<p><strong>Osvalinda:<\/strong>\u00a0Fora os outros que eles mataram e jogaram dentro das brasas da serraria. E o povo comentava: \u201cmataram e jogaram dentro das brasas\u201d. Quando fazem isso, o corpo n\u00e3o vira nem cinza, at\u00e9 a cinza desaparece. S\u00e3o v\u00e1rias mortes que aconteceram.<\/p>\n<p>Em\u00a0reportagem\u00a0publicada na\u00a0<em>Rep\u00f3rter Brasil<\/em>, h\u00e1 a estimativa de 20 mortes de agricultores entre 2010 e 2018, todas decorrentes do conflito agr\u00e1rio no PA Areia.<\/p>\n<p><strong>Daniel:<\/strong>\u00a0As fam\u00edlias sabem que os criminosos nunca foram punidos e continuam l\u00e1 dentro. Voc\u00ea acha que eles t\u00eam coragem de denunciar? As fam\u00edlias deles t\u00e3o tudo ali dentro. Eles v\u00e3o falar alguma coisa? As pessoas que come\u00e7aram a estar do lado da gente, a maioria foi tudo embora. O terror continua l\u00e1 dentro. Como voc\u00ea vai continuar trabalhando na comunidade nessa situa\u00e7\u00e3o? Amea\u00e7ados, doentes. Estamos passando no m\u00e9dico, tentando recuperar nossa sa\u00fade. Eles n\u00e3o conseguiram atingir a gente na bala, mas conseguiram atingir na sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>Quando voc\u00eas entraram para o Programa de Prote\u00e7\u00e3o a Defensores de Direitos Humanos? Foi ap\u00f3s algum epis\u00f3dio espec\u00edfico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Osvalinda:<\/strong>\u00a0Foi h\u00e1 uns tr\u00eas, quatro anos, ap\u00f3s v\u00e1rias amea\u00e7as. A gente t\u00e1 citando mais as principais amea\u00e7as. Fizemos v\u00e1rios BOs. Mas a \u00faltima que mais abalou a gente e a nossa sa\u00fade f\u00edsica e mental foi a das covas. [Em maio de 2018,\u00a0duas covas foram constru\u00eddas\u00a0nos lotes de Daniel e Osvalinda]. Deixou a gente sem ch\u00e3o. Voc\u00ea ser um agricultor e trabalhar como agroextrativista, n\u00e3o \u00e9 um trabalho que voc\u00ea ganha rios de dinheiro, \u00e9 um trabalho por amor \u00e0 terra. Voc\u00ea trabalha pra se manter, n\u00e3o pra enricar. Nesse dia, a gente levantou de manh\u00e3 cedo e n\u00f3s encontramos duas covas preparadas pra n\u00f3s. Que mal que n\u00f3s fizemos pra este povo? A gente busca fazer o bem. A gente tenta incentivar que as fam\u00edlias n\u00e3o trabalhem no trabalho escravo, que eles trabalhem pra eles mesmos na terra deles. \u00c9 isso que a gente faz. A gente passa pros agricultores que eles trabalhando pra eles mesmos eles ganham mais. A gente j\u00e1 t\u00e1 cansado de ver crian\u00e7as manipuladas. \u00c9 prostitui\u00e7\u00e3o infantil com esses fazendeiros. Eles abusam das crian\u00e7as, os pais n\u00e3o podem falar nada. As mulheres n\u00e3o podem participar da reuni\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o porque se n\u00e3o os maridos perdem o emprego. Eu n\u00e3o consigo ficar calada.<\/p>\n<p><strong>Daniel:<\/strong>\u00a0Mas a\u00ed vem a palavra-chave. Por que continua acontecendo isso? Por que? Porque a autoridade local \u00e9 dominada por eles. Nenhum vereador d\u00e1 queixa disso, nenhum prefeito faz conta disso. Nenhum. E a\u00ed esse grupo criminoso vai ganhando mais poder de continuar atuando l\u00e1 dentro. Eles t\u00eam apoio. \u00c9 o crime organizado l\u00e1 dentro que tem apoio.<\/p>\n<p><strong>Houve muita reconcentra\u00e7\u00e3o de lotes no assentamento? Fala-se em fazendas sendo formadas no PA Areia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio:<\/strong>\u00a0Isso \u00e9 verdade. Tem muito fazendeiro que comprou \u00e1rea l\u00e1 dentro e tem 20 lotes, tem 13 lotes no assentamento. Enquanto quem \u00e9 propriet\u00e1rio da terra por direito tem 50 hectares. E eu fui amea\u00e7ado foi h\u00e1 poucos dias, agora em janeiro. Eu fiz um BO, mas isso chegou nos fazendeiros e eu fui amea\u00e7ado.<\/p>\n<p><strong>Como foi a amea\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio:<\/strong>\u00a0Tinha um cara que mora no Mato Grosso que era parente de um cara que mora no Areia e ele tava visitando l\u00e1. E esse cara disse que se ele n\u00e3o tivesse as armas pra matar a gente, ele ia mandar l\u00e1 do Mato Grosso. E eu vi eles falando isso entre eles. Quando eles me viram, eles falaram: \u201cAh, mas tu tava a\u00ed?\u201d E eu falei: \u201cT\u00f4\u201d. E a\u00ed eu escorreguei fora e fui registrar o BO. E a pr\u00f3pria pol\u00edcia abriu o jogo. E a\u00ed come\u00e7ou o boato que eu podia desterrar, se n\u00e3o eu podia aparecer morto. Depois, com poucos dias, apareceu tr\u00eas pessoas encapuzadas visitando a minha casa. Eu tava em casa, s\u00f3 que eu tava escondido. Eles n\u00e3o me acharam. A\u00ed foram l\u00e1 num com\u00e9rcio perto que tem, tomaram cacha\u00e7a e falaram que tavam atr\u00e1s de um pra matar, mas n\u00e3o tinham achado. Eu ia largar de m\u00e3o, mas quando eu soube eu fui fazer o BO em Rur\u00f3polis, tive que andar sei l\u00e1 quantos quil\u00f4metros pra fazer o BO.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 pistoleiros inscritos na rela\u00e7\u00e3o de benefici\u00e1rios do assentamento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f4nio:<\/strong>\u00a0A maioria dos pistoleiros tem. Ganham lotes do lado das fazendas do patr\u00e3o. S\u00e3o os funcion\u00e1rios deles que trabalham l\u00e1. A maioria n\u00e3o \u00e9 trabalhador.<\/p>\n<figure id=\"attachment_441420\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<figure id=\"attachment_441420\" aria-describedby=\"caption-attachment-441420\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"jetpack-lazy-image jetpack-lazy-image--handled wp-image-441420 size-large\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-1-1024x781.jpg\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-1-1024x781.jpg 1024w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-1-197x150.jpg 197w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-1-600x458.jpg 600w, https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-1-768x586.jpg 768w\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"781\" data-attachment-id=\"441420\" data-permalink=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/ultimas-noticias\/geral\/2019\/04\/o-governo-nao-diz-que-vai-combater-o-crime-organizado-va-la-no-assentamento-e-combata-diz-agricultor-jurado-de-morte-no-para\/attachment\/unnamed-2-38\/\" data-orig-file=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-1.jpg\" data-orig-size=\"1920,1464\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;Paula Cinquetti&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"unnamed (2)\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-1-600x458.jpg\" data-large-file=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/20190414-unnamed-2-1-1024x781.jpg\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-441420\" class=\"wp-caption-text\">O agricultor Antonio de Paula Silva est\u00e1 desde 1998 no assentamento PA Areia. Foto: Paula Cinquetti\/Ag\u00eancia P\u00fablica<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n<p><strong>E como o Incra se posiciona quando voc\u00eas formalizam den\u00fancias sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Osvalinda:<\/strong>\u00a0Eu vou no Incra desde 2015 pra tentar legalizar os agricultores l\u00e1 dentro. Me pediram duas vezes pra fazer lista dos filhos de agricultor que n\u00e3o t\u00eam terra. Eu fiz a lista. L\u00e1 tem 92 lotes abandonados porque muita gente saiu com medo ou porque n\u00e3o conseguia trabalhar. O Incra me pediu essa lista duas vezes, eu fiz e eles n\u00e3o colocaram. Em compensa\u00e7\u00e3o, colocaram os fazendeiros e os funcion\u00e1rios na rela\u00e7\u00e3o de benefici\u00e1rios. Os fazendeiros com 22 lotes t\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o de benefici\u00e1rios por meio de um monte de laranja. Isso j\u00e1 foi pro Minist\u00e9rio P\u00fablico. Eles fazem financiamento com isso conseguem R$ 150, R$ 200 mil de cr\u00e9dito pra fazer curral e comprar gado. E os agricultores n\u00e3o conseguem nada. E todo mundo acaba tendo que trabalhar pra eles.<\/p>\n<p><strong>Daniel:<\/strong>\u00a0Mas sabe por que? Os pol\u00edticos d\u00e3o apoio aos grupos que dominam todas essas terras. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um fazendeiros. S\u00e3o grupos. Quem coloca ou tira o superintendente do Incra? Tem que ser no perfil deles. N\u00e3o adianta ir no Incra e reclamar. Quando voc\u00ea chega l\u00e1, eles chegaram primeiro. Eles t\u00eam apoio das autoridades locais pro crime continuar organizado l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p><strong>Osvalinda:<\/strong>\u00a0A m\u00e1fia \u00e9 t\u00e3o grande que voc\u00ea n\u00e3o tem pra onde correr. Eles comandam toda a regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Daniel:<\/strong>\u00a0Essa regi\u00e3o que a gente vive \u00e9 coordenada pelo crime organizado. Se n\u00e3o for na base do crime organizado, isso n\u00e3o anda.<\/p>\n<p><strong>Estamos no in\u00edcio do governo do presidente Bolsonaro. Em campanha, ele falou em \u201cacabar com os ativismos do Brasil\u201d e fez v\u00e1rias declara\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 pauta ambiental. Voc\u00eas sentem que o clima criado a partir da elei\u00e7\u00e3o pode motivar novos epis\u00f3dios de viol\u00eancia por parte desses grupos na regi\u00e3o de voc\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Osvalinda:<\/strong>\u00a0Em janeiro, a gente recebeu um recado de um filho de Deus l\u00e1 que t\u00e1 fugido. E a gente recebeu um recado dele que agora a gente n\u00e3o precisa se preocupar mais, que agora o governo \u00e9 a favor dele. Ele falou pra uns colegas nossos: \u201cAgora, n\u00f3s temos um presidente que vai nos apoiar. Pode avisar pra dona Osvalinda que agora quem manda aqui somos n\u00f3s\u201d. Em dezembro, entrou a Pol\u00edcia Federal l\u00e1 pra dentro, fez uma apreens\u00e3o e prendeu muita gente. E eu estava fora do assentamento. A PF ficou 15 dias l\u00e1 dentro. E eles ficaram achando que era eu. Mas agora nesse ano eles entraram tudo com as m\u00e1quinas de novo. Isso n\u00e3o \u00e9 den\u00fancia. Todo mundo sabe, v\u00ea por sat\u00e9lite. Depois que Bolsonaro entrou, pra n\u00f3s piorou. Voc\u00ea t\u00e1 no assentamento federal comandado pelos madeireiros e cercado de reservas comandadas por eles. Quem somos n\u00f3s pra esse governo? N\u00f3s n\u00e3o somos ningu\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Daniel:<\/strong>\u00a0O governo t\u00e1 dizendo que vai combater o crime organizado. E \u00e9 isso que ele tem que fazer. V\u00e1 l\u00e1 no PA Areia e combata o crime organizado. N\u00e3o \u00e9 isso que ele tem que fazer? Combater o crime, qualquer crime. L\u00e1 tem muito bandido. Enquanto n\u00e3o for l\u00e1 e botar aquela porcaria abaixo, o crime vai continuar mandando e n\u00e3o vai ter pra onde correr. Falta justi\u00e7a. Espero que pelo menos isso na parte do governo Bolsonaro seja feita. A gente precisa que o governo olhe com mais carinho pro verdadeiro dono da terra, aquele que trabalha e nasceu em cima da terra. A gente n\u00e3o teve essa chance por causa do crime organizado que t\u00e1 l\u00e1 sem nunca ter uma fiscaliza\u00e7\u00e3o digna. As maiores fraudes e corrup\u00e7\u00e3o est\u00e3o l\u00e1, come\u00e7aram a partir do desprezo do projeto e do direito das fam\u00edlias assentadas. Ali come\u00e7ou o crime. A gente n\u00e3o vai abandonar as fam\u00edlias, porque a gente conhece o medo estampado no rosto de cada um ali. Mas a gente tem a certeza que o dia de amanh\u00e3, a gente n\u00e3o conta. Cada entrevista que a gente d\u00e1, muitas vezes a gente pensa que \u00e9 a \u00faltima. Enquanto a justi\u00e7a n\u00e3o for feita, o crime vai continuar acontecendo. Talvez essa seja a nossa \u00faltima entrevista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/ultimas-noticias\/geral\/2019\/04\/o-governo-nao-diz-que-vai-combater-o-crime-organizado-va-la-no-assentamento-e-combata-diz-agricultor-jurado-de-morte-no-para\/\" target=\"_blank\">Sul21<\/a><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em programa de prote\u00e7\u00e3o, tr\u00eas agricultores do Assentamento Areia falaram \u00e0\u00a0P\u00fablica\u00a0sobre a rotina de amea\u00e7as, mortes e trabalho escravo na<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2275,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-2273","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2273","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2273"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2273\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2277,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2273\/revisions\/2277"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2275"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2273"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2273"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2273"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}