{"id":2312,"date":"2019-04-24T23:26:20","date_gmt":"2019-04-25T02:26:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=2312"},"modified":"2019-04-24T23:26:20","modified_gmt":"2019-04-25T02:26:20","slug":"desfaca-tudo-essas-reservas-diz-produtora-a-secretario-em-reuniao-de-fazendeiros-do-para-com-governo-federal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/desfaca-tudo-essas-reservas-diz-produtora-a-secretario-em-reuniao-de-fazendeiros-do-para-com-governo-federal\/","title":{"rendered":"\u201cDesfa\u00e7a tudo essas reservas\u201d, diz produtora a secret\u00e1rio em reuni\u00e3o de fazendeiros do Par\u00e1 com governo federal"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2314\" aria-describedby=\"caption-attachment-2314\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2314\" src=\"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/240419_apublica_ruralistas.jpg\" alt=\"Tratado como \u201cvice-ministro\u201d, Nabhan Garcia pediu um voto de confian\u00e7a ao governo Bolsonaro\" width=\"750\" height=\"502\" srcset=\"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/240419_apublica_ruralistas.jpg 750w, https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/240419_apublica_ruralistas-300x201.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2314\" class=\"wp-caption-text\">Tratado como \u201cvice-ministro\u201d, Nabhan Garcia pediu um voto de confian\u00e7a ao governo Bolsonaro<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em encontro fechado no Minist\u00e9rio da Agricultura, ruralistas do Par\u00e1 cobram do governo Bolsonaro \u2013 apoiado por eles desde a campanha \u2013 medidas contra pol\u00edtica ambiental, e mesmo ilegais, como fim da fiscaliza\u00e7\u00e3o e revoga\u00e7\u00f5es de UCs<\/p>\n<p>Quem entrasse desavisado pela porta do audit\u00f3rio Olacyr de Moraes, no Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento (Mapa), no in\u00edcio da tarde do \u00faltimo dia 10, teria dificuldade em saber que se tratava de um encontro entre grandes fazendeiros paraenses e autoridades das \u00e1reas da agricultura e do meio ambiente do governo Jair Bolsonaro. Em vez dos esses chiados, t\u00edpicos do sotaque do Par\u00e1, ouvia-se na plateia os erres marcados dos sotaques sulistas, comuns entre os que det\u00eam latif\u00fandios em solo amaz\u00f4nico. Reunidos no audit\u00f3rio, os produtores rurais foram \u00e0 Bras\u00edlia apresentar a fatura do apoio enf\u00e1tico dado a Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial.<\/p>\n<p>A reportagem da P\u00fablica presenciou as quase quatro horas do encontro, idealizado pela Federa\u00e7\u00e3o de Agricultura e Pecu\u00e1ria do Par\u00e1 (Faepa) e bancado pelo governo, sobretudo pelo titular da Secretaria Especial de Assuntos Fundi\u00e1rios (Seaf), Luiz Ant\u00f4nio Nabhan Garcia. Ex-presidente da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Ruralista (UDR), Nabhan Garcia foi tratado na reuni\u00e3o como \u201cvice-ministro\u201d apesar da inexist\u00eancia formal do cargo. Foi ele quem gravou v\u00eddeos disparados pelo WhatsApp convocando os produtores ao encontro. O convite empolgou: o audit\u00f3rio ficou completamente abarrotado e alguns fazendeiros ficaram do lado de fora, esticando o pesco\u00e7o para acompanhar a discuss\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/g1wO1Zgr1tc\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>A titular do Mapa, ministra Teresa Cristina, fez quest\u00e3o de reconhecer o pronto apoio dado pelo agroneg\u00f3cio, grande protagonista da economia brasileira nos \u00faltimos anos, em campanha. \u201cPodem ter certeza que o governo do presidente Bolsonaro tem um apre\u00e7o e um carinho muito especial pelos produtores rurais, que foram aqueles que primeiro o apoiaram, foram aqueles que primeiro acreditaram. Talvez porque a gente tenha sofrido tanto que os produtores rurais deram um basta e acreditaram que o presidente Jair Bolsonaro era a pessoa que podia fazer a mudan\u00e7a de rumo no nosso pa\u00eds\u201d, discursou. \u201cO estado do Par\u00e1 foi um dos estados que primeiramente deu a ele [Bolsonaro] o seu voto de confian\u00e7a.\u201d Vale registrar que a ministra se referia aos fazendeiros, e n\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, que votou majoritariamente no candidato do PT, Fernando Haddad.<\/p>\n<p>Diante da ministra, do \u201cvice-ministro\u201d Nabhan Garcia e outras autoridades, como o presidente do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra), general Jesus Corr\u00eaa, o presidente do Ibama, Eduardo Fortunato, e o secret\u00e1rio executivo da Secretaria de Governo, Mauro Biancamano, a principal exig\u00eancia colocada \u00e0 mesa pelos ruralistas foi a flexibiliza\u00e7\u00e3o radical (talvez o termo correto seja desmonte) da fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental feita em solo paraense.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), \u00f3rg\u00e3os encarregados por lei de fazer fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental, foram alvos de duras cr\u00edticas e xingamentos. Era algu\u00e9m tocar no nome deles e o burburinho come\u00e7ava. Aos poucos, palavras de ordem eram gritadas e aplausos efusivos demonstravam o apoio da plateia a quem tomava coragem de gritar no meio da multid\u00e3o. Nas manifesta\u00e7\u00f5es an\u00f4nimas, feitas durante as falas, os \u00f3rg\u00e3os foram acusados de praticar \u201cterrorismo de Estado\u201d, alguns disseram que o governo \u201ctem que acabar\u201d com eles, a despeito da obriga\u00e7\u00e3o do Estado em mant\u00ea-los, e os chamaram de \u201cc\u00e2ncer\u201d. Produtores falaram em \u201cdesfazer essas porcarias de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o\u201d (UCs) \u2013 termos similares aos usados por eles para se referir a outras \u00e1reas protegidas pela Uni\u00e3o, como terras ind\u00edgenas e assentamentos de reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Nas falas feitas em um p\u00falpito do audit\u00f3rio por produtores rurais e autoridades n\u00e3o ligadas ao governo federal, o tom n\u00e3o foi muito diferente. Para ficar em um exemplo, a representante da Associa\u00e7\u00e3o dos Produtores dos Campos do Araguaia (Aprocampo), Genny Silva, chamou o Ibama, em fala p\u00fablica, de \u201cinstituto brasileiro de assalto \u00e0 m\u00e3o armada\u201d. O radicalismo das demandas foi tamanho que levou os representantes do governo Bolsonaro \u00e0 n\u00e3o usual posi\u00e7\u00e3o de pedir pondera\u00e7\u00e3o, cautela e apego \u00e0 institucionalidade aos presentes. Se o descr\u00e9dito demonstrado por Bolsonaro pelos \u00f3rg\u00e3os ambientais, como na ocasi\u00e3o em que o presidente disse que a festa do ICMBio e do Ibama \u201cia acabar\u201d, gela a espinha dos ambientalistas, para os ruralistas paraenses parece ser pouco. Eles querem a nova era de Bolsonaro para j\u00e1 e, nela, n\u00e3o querem ter que receber fiscais do Ibama em suas porteiras.<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o podemos querer reformar \u00f3rg\u00e3os in\u00fateis\u201d, afirma ex-vice governador de Roraima<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO Brasil est\u00e1 numa hemorragia generalizada e o governo vem com band-aid pra querer estancar a hemorragia. N\u00e3o vai conseguir! N\u00f3s n\u00e3o podemos querer reformar \u00f3rg\u00e3os in\u00fateis que n\u00e3o t\u00eam mais fun\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser consumir dinheiro p\u00fablico e perpetuar a corrup\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Paulo C\u00e9sar Quartiero, que ocupava o posto de vice-governador em Roraima at\u00e9 janeiro do ano passado pelo DEM. \u201cQuer que eu cito (sic)? Ibama, ICMBio, quantos mais? Vou citar o Incra tamb\u00e9m? Vou. Que mais?\u201d, questionou \u00e0 plateia. Alguns fazendeiros falaram na Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai). \u201cA Funai a gente deixa \u00e0 parte porque ela n\u00e3o obedece ao governo brasileiro, ela obedece \u00e0s monarquias europeias\u201d, disse, arrancando risos, referindo-se ao fato de a funda\u00e7\u00e3o ter firmado parcerias para desenvolvimento de projetos com recursos do Fundo Amaz\u00f4nia, que tem a Noruega como principal doadora.<\/p>\n<p>Quartiero, ali\u00e1s, \u00e9 um antigo advers\u00e1rio da causa ind\u00edgena em Roraima, como ele mesmo admitiu em entrevista ao jornal O Globo. Foi arrozeiro na \u00e1rea da TI Raposa Serra do Sol, homologada em 2005. Teve uma fazenda desapropriada em decorr\u00eancia do processo de demarca\u00e7\u00e3o. Em 2008, quando era prefeito de Pacaraima (RR), foi preso pela Pol\u00edcia Federal (PF) acusado de tentativa de homic\u00eddio, forma\u00e7\u00e3o de quadrilha e posse de artefatos explosivos. Segundo o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal afirmou em den\u00fancia, tais crimes ocorreram ap\u00f3s ele ter coordenado ataques a ind\u00edgenas da Comunidade Renascer. Nove ind\u00edgenas ficaram feridos na a\u00e7\u00e3o, oito deles baleados, segundo a PF informou \u00e0 \u00e9poca. A a\u00e7\u00e3o ainda corre na Justi\u00e7a Federal. Hoje Quartiero \u00e9 suplente na diretoria da Faepa, pois \u00e9 produtor rural na ilha do Maraj\u00f3, no Par\u00e1.<\/p>\n<p>A sugest\u00e3o de Quartiero de que n\u00e3o adiantaria reformar \u00f3rg\u00e3os ambientais, mas sim extingui-los, gerou uma manifesta\u00e7\u00e3o imediata do anfitri\u00e3o Nabhan Garcia. Ao tomar a palavra, ele sublinhou que n\u00e3o fora o governo Bolsonaro quem havia \u201ccriado\u201d ou referendado a TI Raposa Serra do Sol e lembrou as consequ\u00eancias legais de extinguir \u00f3rg\u00e3os ambientais. \u201cN\u00e3o se acaba com a Funai como voc\u00ea t\u00e1 dizendo. Aqui n\u00e3o tem espa\u00e7o para a pirotecnia, me desculpe. Se tem algu\u00e9m aqui formado em direito, sabe o que eu t\u00f4 dizendo. N\u00e3o \u00e9 assim que se acaba com Funai, com Ibama, com Incra. N\u00e3o \u00e9 assim. N\u00e3o se acaba, a\u00ed \u00e9 pirotecnia\u201d, respondeu Nabhan Garcia.<\/p>\n<p>Apesar da impossibilidade jur\u00eddica de extin\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os, o secret\u00e1rio de Assuntos Fundi\u00e1rios lembrou que o governo federal vem esticando a corda nesses \u00f3rg\u00e3os, tentando favorecer os interesses dos ruralistas. \u201cA quest\u00e3o da Funai: ela \u00e9 respons\u00e1vel pela identifica\u00e7\u00e3o, delimita\u00e7\u00e3o, demarca\u00e7\u00e3o, licenciamento de terra e etc. [O governo] Tirou isso da Funai. N\u00e3o d\u00e1 pra acabar com a Funai, mas d\u00e1 pra tirar o que era nocivo que a Funai fazia e assim o governo fez em 1\u00ba de janeiro, feriado nacional, no dia de sua posse. Tem l\u00e1 uma medida provis\u00f3ria tirando da Funai todas essas situa\u00e7\u00f5es. Passando pra nossa secretaria inclusive as cl\u00e1usulas quilombolas tamb\u00e9m, da Funda\u00e7\u00e3o Palmares. Hoje est\u00e1 tudo no Minist\u00e9rio da Agricultura, na Secretaria de Assuntos Fundi\u00e1rios, que por sua vez o \u00f3rg\u00e3o executor \u00e9 o Incra, o novo Incra, que est\u00e1 com boas inten\u00e7\u00f5es e vai promover as mudan\u00e7as\u201d, argumentou Nabhan Garcia, sinalizando mudan\u00e7as na pol\u00edtica indigenista. \u201cEu s\u00f3 estranho que a lei funciona contra n\u00f3s e a nosso favor n\u00e3o funciona\u201d, murmurou Quartiero, ainda um tanto contrariado.<\/p>\n<p><strong>Ibama engole cr\u00edticas e promete mudan\u00e7as para agradar a fazendeiros<\/strong><\/p>\n<p>Quando subiu ao p\u00falpito ao som dos murm\u00farios do p\u00fablico, o presidente do Ibama, Eduardo Fortunato Bim, procurou ser breve. Come\u00e7ou pedindo desculpas pela aus\u00eancia de seu chefe, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. \u201cTodo o minist\u00e9rio, inclusive o Ibama, tem um apre\u00e7o muito grande pelos produtores rurais. A gente t\u00e1 tentando mudar uma mentalidade que existiu no passado, de persegui\u00e7\u00e3o para quem produz nesse pa\u00eds\u201d, afirmou Bim. \u201cNesse novo Ibama, a gente est\u00e1 buscando um di\u00e1logo muito grande com todos os atores envolvidos pra gente se entender. E, se entendendo, evitar os pontos de atrito que ainda existem. Mudar a cultura de um \u00f3rg\u00e3o \u00e9 uma coisa que demora um pouco, mas a gente est\u00e1 lutando para que essas mudan\u00e7as aconte\u00e7am\u201d, disse. O presidente do Ibama saiu r\u00e1pido da sala a pretexto de uma audi\u00eancia com o Minist\u00e9rio P\u00fablico. Para aguentar a press\u00e3o dos produtores, ficou o titular da Diretoria de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental, Olivaldi Azevedo, major da Pol\u00edcia Militar de S\u00e3o Paulo, al\u00e7ado ao posto pelo ministro Salles.<\/p>\n<p>O major foi alvo de um dos discursos mais inflamados e aplaudidos da tarde, feito por Nelci Rodrigues, a presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Produtores Rurais Vale do Gar\u00e7a. Nelci come\u00e7ou pedindo desculpas por n\u00e3o saber fazer \u201cdiscurso bonito\u201d e foi direto ao assunto. Sua associa\u00e7\u00e3o fica na regi\u00e3o da influ\u00eancia do trecho da rodovia BR-163 que corta 11 munic\u00edpios do estado do Par\u00e1 onde, em 2006, o governo federal criou um mosaico de \u00e1reas protegidas com o objetivo de fazer um plano de desenvolvimento sustent\u00e1vel para a regi\u00e3o e mitigar o impacto do futuro asfaltamento da rodovia, ainda n\u00e3o realizado.<\/p>\n<p>As UCs foram criadas sobre pequenas e grandes posses rurais j\u00e1 existentes \u2013 muitas delas estimuladas pelo pr\u00f3prio governo \u2013 e at\u00e9 hoje a regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria n\u00e3o foi efetivada a contento. Com sotaque sulista, Nelci conta que foi \u00e0 Amaz\u00f4nia ainda crian\u00e7a acompanhando seu pai, que havia sido estimulado pela propaganda dos governos militares que rezava o lema \u201cintegrar para n\u00e3o entregar\u201d. E prosseguiu: \u201cA BR-163 vive um conflito de guerra. O Brasil tem que ter mem\u00f3ria. Eu me lembro perfeitamente quando meu pai dizia que o militarismo s\u00f3 era ruim pra vagabundo: \u2018Ent\u00e3o voc\u00eas podem ir para o Par\u00e1 e tenham certeza que voc\u00eas v\u00e3o melhorar de vida\u2019. E sabe o que aconteceu? N\u00f3s pioramos\u201d, relatou. \u201cVivo no Par\u00e1 h\u00e1 mais de 30 anos, tenho cinco filhos, criei todos e eles s\u00e3o formados, hoje, gra\u00e7as a uma posse e eu sou produtora rural. Em 2006, foi criado um mosaico de Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o atingindo o meu Par\u00e1. A\u00ed eu lhe digo: os xiitas do Ibama, as \u2018mundi\u00e7a\u2019 do ICMBio, o c\u00e2ncer do ICMBio no pa\u00eds tomam a casa de uma m\u00e3e de fam\u00edlia e fala o seguinte: \u2018Voc\u00ea tem que sair dessa casa, porque essa casa vai virar casa do macaco\u2019. Tinha um general que abriu a BR-163 e o chamamento era un\u00e2nime: \u2018Venham integrar para n\u00e3o entregar\u2019. Agora, se n\u00e3o deram t\u00edtulo da terra, se n\u00e3o fizeram nada, n\u00e3o \u00e9 culpa nossa\u201d, protestou. \u201cEles nos invadiram. A regra do jogo muda e a gente fica sem saber. E somos tachados de grileiros. Se um audacioso xiita repetir um trem desse\u2026 Eu n\u00e3o tenho tamanho, mas coragem Deus me deu\u201d, bradou, sendo ovacionada por aplausos.<\/p>\n<p>Muitos fazendeiros falaram no est\u00edmulo dado \u00e0 chamada coloniza\u00e7\u00e3o dos rinc\u00f5es do Par\u00e1 pelos governos militares e demonstraram ressentimento com as quest\u00f5es ambientais trazidas na democracia. A lei ambiental da \u00e9poca permitia que as posses e propriedades rurais desmatassem 50% da \u00e1rea das fazendas. A aprova\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo Florestal, em 2012, determinou em 20% a superf\u00edcie pass\u00edvel de desmatamento para a produ\u00e7\u00e3o no bioma amaz\u00f4nico. Alguns produtores se manifestaram at\u00e9 mesmo pedindo a volta dos par\u00e2metros de desmatamento da ditadura. Coube a Nabhan Garcia novamente acalmar os \u00e2nimos e dizer que n\u00e3o cabia ao governo alterar o c\u00f3digo na canetada, mas deixar claro que seria poss\u00edvel uma articula\u00e7\u00e3o no Congresso para mudar as leis ambientais.<\/p>\n<p>Ao fim de sua fala, Nelci Rodrigues vocalizou outro pensamento comum entre os produtores rurais: a argumenta\u00e7\u00e3o de que as leis ambientais os empurravam para a ilegalidade. Protestou contra o fato de a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), \u00f3rg\u00e3o do governo estadual paraense, n\u00e3o validar o Cadastro Ambiental Rural (CAR) em fazendas situadas em UCs, o que \u00e9 proibido por lei. \u201cTem 300 mil cabe\u00e7as de gado nas Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o. A gente n\u00e3o pode vender porque n\u00e3o tem o CAR. A\u00ed eu n\u00e3o posso vender porque o frigor\u00edfico \u00e9 multado ao comprar. Obrigam n\u00f3s a ser ilegal. Obrigam n\u00f3s a tirar nosso gado e levar pra um arrendamento que \u00e9 legalizado pra s\u00f3 assim n\u00f3s podermos vender\u201d, afirmou Nelci. \u201cDesfa\u00e7a tudo essas reservas que a maldita Marina Silva fez\u201d, exigiu, referindo-se \u00e0 ex-ministra do Meio Ambiente, que estava \u00e0 frente do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente quando da cria\u00e7\u00e3o das UCs.<\/p>\n<p>Quando subiu ao p\u00falpito, o major Olivaldi estava nitidamente nervoso. Antes de come\u00e7ar a falar, algu\u00e9m da plateia disse que queria ver acabar logo o ICMBio. Quando disse que era o novo diretor de prote\u00e7\u00e3o ambiental do Ibama, veio outro coment\u00e1rio da plateia: \u201cN\u00e3o fala esse nome [Ibama]. Vamos mudar o nome\u201d. Olivaldi tentou brincar para quebrar o gelo. \u201cMe sinto um pouco apedrejado aqui. Serei outros dias por conta do que foi constru\u00eddo l\u00e1 atr\u00e1s entre quem produz e o \u00f3rg\u00e3o de fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental\u201d, come\u00e7ou. A plateia n\u00e3o deu descanso. \u201cVai trabalhar na cidade e abandona as fazendas. N\u00e3o tem problema ambiental em fazenda nenhuma. Ent\u00e3o nos abandone. Voc\u00eas n\u00e3o s\u00e3o bem-vindos\u201d, afirmou um fazendeiro. \u201cN\u00e3o fa\u00e7am nada durante 60 dias. S\u00f3 fecha\u201d, disse outra voz.<\/p>\n<p>Olivaldi pediu calma. Quando conseguiu falar, o major agradou aos ruralistas. \u201cVamos fazer um mutir\u00e3o para desembargar \u00e1reas pass\u00edveis de desembargar. Isso \u00e9 promessa do governo Bolsonaro, do ministro Ricardo Salles. Estamos revendo esses embargos\u201d, afirmou. \u201cTentaremos reverter o m\u00e1ximo daquilo que est\u00e1 prejudicando. N\u00e3o \u00e9 promessa. Isso n\u00f3s vamos fazer. Mas eu pe\u00e7o tempo. N\u00e3o se esque\u00e7am que muito do que foi dito aqui [nas reivindica\u00e7\u00f5es], \u00e9 preciso mudar porcaria de lei. Eu sou funcion\u00e1rio p\u00fablico. Eu vou preso\u2026 Algu\u00e9m criou aquele monte de Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o; se t\u00e1 certo ou errado, eu n\u00e3o vou entrar na discuss\u00e3o.\u201d \u201cRevoga!\u201d, uma voz gritou. \u201cMas n\u00e3o sou eu que revogo. Aquilo \u00e9 criado mediante lei. Tenham paci\u00eancia e vamos mudar o que precisa ser mudado. Todo mundo aqui \u00e9 inteligente pra entender que fazer o que ele disse: \u2018Ah, n\u00e3o fa\u00e7a nada agora\u2019. Eu vou preso. Existe Minist\u00e9rio P\u00fablico, juiz, Judici\u00e1rio, um monte de coisa cobrando a gente\u201d, disse Olivaldi. Ele deixou o audit\u00f3rio na sequ\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Senador compara atua\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os ambientais ao Estado Isl\u00e2mico<\/strong><\/p>\n<p>O discurso de ataque aos \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental ganhou respaldo tamb\u00e9m entre os parlamentares presentes ao encontro. Nos dois discursos que fizeram, o deputado federal Delegado \u00c9der Mauro (PSD), coordenador da bancada paraense na C\u00e2mara, e o senador Zequinha Marinho (PSC) formaram fileiras com os fazendeiros nos ataques ao Ibama e ao ICMBio.<\/p>\n<p>\u201cEstamos assistindo \u00e0s piores arbitrariedades que um governo pode cometer contra os seus cidad\u00e3os. Cidad\u00e3o que produz, que paga imposto\u201d, disse Marinho, referindo-se \u00e0s autua\u00e7\u00f5es e opera\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os socioambientais. \u201cSe o senhor tiver tempo pra ouvir algu\u00e9m da regi\u00e3o da BR-163\u2026 \u00c9 uma coisa do outro mundo. \u00c9 pior do que o Estado Isl\u00e2mico na S\u00edria\u201d, qualificou. \u201cA gente n\u00e3o queria continuar sendo tratado como inimigo deste pa\u00eds. \u00c9 fundamental pacificar a quest\u00e3o ambiental. Produtor precisa ter mais liberdade pra produzir. O produtor do Par\u00e1 \u00e9 visto como um marginal. N\u00f3s somos invadidos pelo governo federal l\u00e1 no Par\u00e1, que n\u00e3o quer di\u00e1logo, n\u00e3o quer conversar. Quer botar fogo em m\u00e1quinas, quer prender cidad\u00e3o, arrebentar com tudo, quer matar tudo\u201d, discursou Marinho.<\/p>\n<p>O deputado \u00c9der Mauro partiu para uma acusa\u00e7\u00e3o mais direta. \u201cO Ibama no estado do Par\u00e1\u2026 Eu ainda esta semana j\u00e1 deixei documenta\u00e7\u00f5es na Casa Civil mostrando que hoje o Ibama ainda \u00e9 dirigido por uma petista que persegue nossos produtores, os homens que produzem no estado do Par\u00e1. Vai mudar, meu amigo. Confie. A bancada do estado do Par\u00e1 vai estar junto do ministro Onyx pedindo a mudan\u00e7a de todos que est\u00e3o no estado do Par\u00e1. Da Sudam [Superintend\u00eancia do Desenvolvimento da Amaz\u00f4nia] at\u00e9 l\u00e1 embaixo, seja que \u00f3rg\u00e3o for. A gente quer andar pra frente e eu acredito no presidente Bolsonaro e nesses homens que ele colocou aqui em Bras\u00edlia. O Par\u00e1 precisa crescer! Voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o sair daqui sem a esperan\u00e7a de que o estado vai mudar!\u201d, disse. Mauro n\u00e3o deixou claro se a \u201cpetista\u201d a que se referiu era a superintendente do Ibama no Par\u00e1, Cl\u00edvia Bezerra Ara\u00fajo. Os fazendeiros que estavam na plateia, consultados pela reportagem, disseram que sim. Mauro saiu antes de o evento acabar, mas aproveitou seu tempo para defender os respons\u00e1veis pela segunda maior chacina do campo brasileiro nos \u00faltimos 20 anos, o Massacre de Pau d\u2019Arco, que deixou dez trabalhadores mortos. \u201cNaquela ocasi\u00e3o, quando a pol\u00edcia esteve em Pau d\u2019Arco pra defender o Estado, pra defender o propriet\u00e1rio, pra tirar os invasores da terra, matou todos na resist\u00eancia e os policiais viraram bandidos\u201d, disse.<\/p>\n<p><strong>Nosso patr\u00e3o, Bolsonaro<\/strong><\/p>\n<p>\u201cTudo o que foi relatado aqui, n\u00f3s t\u00ednhamos em governos anteriores. Agora n\u00f3s temos um governo presente, que come\u00e7ou h\u00e1 praticamente 90 dias. Estamos sob o comando da autoridade maior, aquele que foi eleito pela maioria do povo brasileiro. Se chama presidente Jair Messias Bolsonaro. Ele \u00e9 o nosso patr\u00e3o\u201d, afirmou Nabhan Garcia. Em quase todas as ocasi\u00f5es, ele, o grande anfitri\u00e3o do encontro no Mapa, procurou acalmar os \u00e2nimos e prometer a tal nova era bolsonarista. \u201cEu conheci o ent\u00e3o deputado Bolsonaro em 1994. Ele sempre foi em primeiro lugar um aliado. Todas as vezes que o setor produtivo precisou de ajuda, esse homem que n\u00e3o tem um palmo de terra, n\u00e3o era da profiss\u00e3o dele, sempre esteve do nosso lado\u201d, garantiu Nabhan Garcia. A maioria da plateia pareceu confiante nas palavras, mas alguma impaci\u00eancia pairava no ar. Nabhan Garcia voltou \u00e0 carga: \u201cN\u00e3o queiram que o governo que assumiu h\u00e1 90 dias conserte o que houve de errado em 34 anos em 90 ou 100 dias. N\u00f3s temos alguns c\u00e2nceres aqui que n\u00e3o podem continuar mais fazendo o que fazem. Ele precisa do apoio da popula\u00e7\u00e3o pra fazer mudar. Ningu\u00e9m legisla ou governa sozinho\u201d, falou em um tom mais exaltado. O marco de 34 anos remonta ao t\u00e9rmino da ditadura.<\/p>\n<p>Um dia depois da reuni\u00e3o entre Nabhan Garcia e os fazendeiros do Par\u00e1, o presidente Bolsonaro assinou um decreto para converter multas ambientais em \u00e1reas de recupera\u00e7\u00e3o. No \u00faltimo dia 14, o presidente pessoalmente desautorizou uma opera\u00e7\u00e3o do Ibama em Rond\u00f4nia enquanto ela estava em curso. A opera\u00e7\u00e3o visava combater a extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira. \u201cOntem, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, veio falar comigo com essa informa\u00e7\u00e3o [sobre a opera\u00e7\u00e3o]. Ele j\u00e1 mandou abrir um processo administrativo para a apurar o respons\u00e1vel disso a\u00ed. N\u00e3o \u00e9 para queimar nada, maquin\u00e1rio, trator, seja o que for, n\u00e3o \u00e9 esse procedimento, n\u00e3o \u00e9 essa a nossa orienta\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou o presidente em um v\u00eddeo que circulou nas redes sociais. Ap\u00f3s o ministro Ricardo Salles ter amea\u00e7ado investigar agentes do ICMBio, o presidente do \u00f3rg\u00e3o, Adalberto Eberhard, pediu demiss\u00e3o no \u00faltimo dia 16 \u2013 seria substitu\u00eddo dois dias depois pelo coronel da Pol\u00edcia Militar Ambiental do Estado de S\u00e3o Paulo, Homero de Giorge Cerqueira. Servidores ambientais divulgaram um dia depois uma carta acusando o ministro Salles de destruir a pol\u00edtica ambiental federal. Em uma live no \u00faltimo dia 17, Bolsonaro amea\u00e7ou demitir a diretoria da Funai e criticou a legisla\u00e7\u00e3o ambiental vigente.<\/p>\n<p>Ao menos no meio ambiente, a nova era deu passos largos desde a reuni\u00e3o no Mapa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/apublica.org\/2019\/04\/desfaca-tudo-essas-reservas-diz-produtora-a-secretario-em-reuniao-de-fazendeiros-do-para-com-governo-federal\/\" target=\"_blank\">apublica.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em encontro fechado no Minist\u00e9rio da Agricultura, ruralistas do Par\u00e1 cobram do governo Bolsonaro \u2013 apoiado por eles desde a<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2314,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-2312","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2312","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2312"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2312\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2315,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2312\/revisions\/2315"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2314"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2312"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2312"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2312"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}