{"id":2335,"date":"2019-04-30T16:43:44","date_gmt":"2019-04-30T19:43:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=2335"},"modified":"2019-05-01T16:48:38","modified_gmt":"2019-05-01T19:48:38","slug":"trabalho-precario-intermitente-e-a-antessala-do-desemprego-diz-ricardo-antunes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/trabalho-precario-intermitente-e-a-antessala-do-desemprego-diz-ricardo-antunes\/","title":{"rendered":"&#8220;Trabalho prec\u00e1rio, intermitente, \u00e9 a antessala do desemprego&#8221;, diz Ricardo Antunes"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"description\">Soci\u00f3logo analisa o futuro do trabalho no Brasil e a nova massa superexplorada da era dos servi\u00e7os digitais<\/h2>\n<p>Ricardo Antunes \u00e9 um dos maiores especialistas brasileiros no tema do mundo do trabalho. Atualmente, \u00e9 professor de\u00a0sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas. Em seu \u00faltimo livro, intitulado\u00a0<em>O Privil\u00e9gio da Servid\u00e3o<\/em>, Antunes desenhou um quadro da situa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora na hist\u00f3ria recente do Brasil, a partir do fim da ditadura militar. O estudo\u00a0se concentra no que ele chama de\u00a0&#8220;novo proletariado de servi\u00e7os&#8221;, alavancado com o crescimento do\u00a0trabalho digital, on-line e intermitente\u00a0dos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Em entrevista ao\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>, o soci\u00f3logo\u00a0falou sobre o futuro do trabalho, as caracter\u00edsticas das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas no Brasil e os impactos da reforma trabalhista sobre esse cen\u00e1rio. &#8220;Se a classe trabalhadora, os movimentos sindicais, sociais e os partidos de esquerda n\u00e3o desenharem um outro modo de vida, daqui a dez anos eu vou dizer &#8216;est\u00e1 muito pior&#8217;. Com o mundo da internet, todos podem ter um tipo de trabalho onde n\u00e3o tem mais limite de jornada, n\u00e3o tem mais dia e noite&#8221;, avalia\u00a0o soci\u00f3logo.<\/p>\n<p>Antunes tamb\u00e9m\u00a0deu pistas sobre as formas de resist\u00eancia que os trabalhadores podem impor \u00e0 retirada de direitos e \u00e0\u00a0crescente proletariza\u00e7\u00e3o marcada pela superexplora\u00e7\u00e3o, que tem atingido\u00a0n\u00e3o s\u00f3 os trabalhadores do fast-food, motoboys, trabalhadores de hot\u00e9is, trabalhadores dos hipermercados, mas tamb\u00e9m a categorias com maior renda m\u00e9dia,\u00a0como m\u00e9dicos e\u00a0advogados.<\/p>\n<p>Por fim, o professor enfatizou que a recupera\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes n\u00e3o \u00e9 mais um caminho vi\u00e1vel. &#8220;Na nossa a\u00e7\u00e3o, todo o oxig\u00eanio n\u00e3o pode estar voltado para a institucionalidade. Qual \u00e9 a prioridade? Garantir representa\u00e7\u00e3o parlamentar ou organizar a massa da classe trabalhadora?&#8221;, provocou.<\/p>\n<p>Leia a entrevista completa abaixo:<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato: Se voc\u00ea pudesse resumir, qual diria que \u00e9 o perfil do trabalhador brasileiro hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ricardo Antunes:<\/strong><em>\u00a0<\/em>Aqui a classe trabalhadora, al\u00e9m de trabalhar longas jornadas de trabalho, \u00e9 paga abaixo dos n\u00edveis necess\u00e1rios para sobreviv\u00eancia. Isso \u00e9 o que a caracteriza.<\/p>\n<p>O que n\u00f3s estamos vendo, nos \u00faltimos quarenta ou cinquenta anos, \u00e9 uma explos\u00e3o do setor de servi\u00e7os. E uma explos\u00e3o que se deve \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o desse setor, ao fato dele\u00a0gerar\u00a0lucro, ao fato dele\u00a0passarem a ser explorado\u00a0pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es capitalistas, ao fato de que esse per\u00edodo marcou uma explos\u00e3o do mundo informacional digital.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um novo proletariado de servi\u00e7os da era digital.<\/p>\n<p><strong>Esse proletariado \u00e9 mais explorado do que aquele antigo trabalhador?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. O que acontece \u00e9 que no setor de servi\u00e7os h\u00e1 uma enorme proletariza\u00e7\u00e3o, que atingiu n\u00e3o s\u00f3 os trabalhadores do fast-food, motoboys, trabalhadores de hot\u00e9is, trabalhadores dos hipermercados, mas tamb\u00e9m m\u00e9dicos, advogados\u2026<\/p>\n<p>Hoje, um jovem m\u00e9dico que \u00e9 de fam\u00edlia pobre vai ter que trabalhar em tr\u00eas ou quatro empresas de sa\u00fade para poder ganhar um sal\u00e1rio que n\u00e3o \u00e9 alto. H\u00e1 jovens advogados perambulando como intermitentes nos escrit\u00f3rios para tentar uma causa. Agora imagine as profiss\u00f5es dos cuidados, as trabalhadoras dom\u00e9sticas, eletricistas, trabalhadores do Uber, entregadores do iFood. Toda essa massa de prolet\u00e1rios que se esparrama a partir do mundo digital.<\/p>\n<blockquote><p>\nComo diria Florestan Fernandes, nossa classe trabalhadora \u00e9 heterog\u00eanea, e seu tra\u00e7o distintivo \u00e9 a superexplora\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Essas novas formas de trabalho v\u00e3o tomar conta do mercado de trabalho?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>V\u00e3o. Se a classe trabalhadora, os movimentos sindicais, sociais e os partidos de esquerda n\u00e3o desenharem um outro modo de vida, daqui a dez anos eu vou dizer &#8220;est\u00e1 muito pior&#8221;. Com o mundo da internet, todos podem ter um tipo de trabalho onde n\u00e3o tem mais limite de jornada, n\u00e3o tem mais dia e noite.<\/p>\n<p><strong>A reforma trabalhista veio para formalizar algumas das formas de trabalho mencionadas pelo senhor, como a terceiriza\u00e7\u00e3o e o trabalho intermitente. \u00c9 poss\u00edvel dizer que ela veio para modernizar as rela\u00e7\u00f5es de trabalho?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>D\u00e1 para dizer que ela escravizou. Na escravid\u00e3o, o senhor de escravo comprava o escravo, na terceiriza\u00e7\u00e3o ele aluga. A contra Reforma Trabalhista do Temer [veio] para quebrar a espinha dorsal da CLT.<\/p>\n<p>A preval\u00eancia do negociado sobre o legislado. A ideia de flexibilidade da jornada e do sal\u00e1rio. A piora das condi\u00e7\u00f5es de salubridade. At\u00e9 coisas perversas, como\u00a0as trabalhadoras e os trabalhadores tem que comprar seus uniformes. O transporte antes era uma obriga\u00e7\u00e3o das empresas, n\u00e3o \u00e9 mais. A restri\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a do Trabalho.<\/p>\n<p><strong>Como a Reforma refletiu no Judici\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Brutalmente. Primeiro, a queda de reivindica\u00e7\u00f5es judiciais. A ideia \u00e9 acabar com a Justi\u00e7a do Trabalho.<\/p>\n<p>Esse foi o papel do Temer, devastar. E \u00e9 preciso reconhecer que ele foi muito competente.<\/p>\n<p><strong>Comente um pouco o desemprego e a explos\u00e3o da informalidade no nosso pa\u00eds.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s falamos at\u00e9 agora do trabalho prec\u00e1rio, que tende a ser a regra, e a exce\u00e7\u00e3o \u00e9 a plenitude dos direitos. O trabalho prec\u00e1rio, informal, intermitente \u00e9 a antessala do desemprego.<\/p>\n<p>O desemprego no Brasil hoje \u00e9 de 13 milh\u00f5es de pessoas. Mas o desemprego por desalento s\u00e3o mais 5 milh\u00f5es. Sem falar nas m\u00faltiplas modalidades que oscilam entre a informalidade real e a informalidade legal. O resultado \u00e9 que n\u00f3s temos uma massa sobrante de trabalhadores e trabalhadoras impressionante.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o n\u00edvel de desemprego por desalento \u00e9 alto. O desalento n\u00e3o \u00e9 o trabalhador ou a trabalhadora que n\u00e3o querem mais buscar emprego porque n\u00e3o precisam. Eles n\u00e3o buscam mais emprego porque est\u00e3o fazendo isso h\u00e1 um, dois anos. Para buscar emprego voc\u00ea tem que acordar cedo, ter dinheiro para condu\u00e7\u00e3o, para alimenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito custoso.<\/p>\n<blockquote><p>\nO desemprego \u00e9 o flagelo mais brutal. E cada vez mais esse bols\u00e3o de desempregados se confunde com o bols\u00e3o de subempregados, de informais intermitentes, porque todos esses vivenciam muitos hor\u00e1rios de suas vidas em que deveriam trabalhar para sobreviver, na condi\u00e7\u00e3o real de desemprego.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O trabalho informal foi estimulado durante um per\u00edodo, com a inclus\u00e3o do Simples, do Micro Empreendedor Individual (MEI), por exemplo. Por que isso acontecia?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O sistema sabe que vai criar bols\u00f5es de desempregados, e n\u00e3o tem mais a sopa das seis para eles. As pol\u00edticas sociais est\u00e3o cada vez mais em retra\u00e7\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que surge uma palavra t\u00e3o m\u00e1gica quanto mistificadora: empreendedorismo. Voc\u00ea querendo voc\u00ea consegue.<\/p>\n<p>Voc\u00ea vai pegar o que te restou de dinheiro. Ah, mas n\u00e3o tenho nada. Voc\u00ea tem uma casa, tem um carro? Vende e vai empreender. Vai fazer o que voc\u00ea sabe, come\u00e7ar a vender doce de leite, cachorro quente, pipoca.<\/p>\n<p>\u00c9 incentivar no trabalhador que n\u00e3o tem nada\u00a0a ideia de ser patr\u00e3o de si pr\u00f3prio e ganhar um dinheiro que o tira da condi\u00e7\u00e3o de assalariado, que ele sabe que \u00e9 ruim.<\/p>\n<p><strong>O avan\u00e7o da automa\u00e7\u00e3o trazia\u00a0a promessa de que os trabalhadores se veriam livres do fardo do trabalho e teriam cada vez mais tempo livre. Mas,\u00a0o que vemos \u00e9 o oposto: trabalhamos cada vez mais e temos cada vez menos tempo livre. O que aconteceu no meio do caminho?<\/strong><\/p>\n<p>A impostura capitalista. \u00c9 uma promessa que esconde a realidade. A automa\u00e7\u00e3o \u00e9 para aumentar a produtividade do capital [e] para reduzir a for\u00e7a de trabalho, que \u00e9 tratada como custo.<\/p>\n<p>O capital \u00e9 muito econ\u00f4mico nos seus custos. Ele sabe que o seu lucro aumenta, a sua produtividade \u00e9 maior, quanto mais ele economiza e impede o desperd\u00edcio. E ao economizar e impedir o desperd\u00edcio, ele tem uma tend\u00eancia intr\u00ednseca de reduzir trabalho humano e ampliar trabalho morto, o maquin\u00e1rio.<\/p>\n<blockquote><p>\nQuanto mais m\u00e1quinas e quanto menos trabalho humano, melhor. S\u00f3 que tem um limite: capitalismo sem trabalho humano n\u00e3o gera mais-valia. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel o capitalismo se reproduzir sem trabalho humano. [Assim] o capital acaba, sem querer, criando seu pr\u00f3prio coveiro.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O que voc\u00ea v\u00ea de novo que possa servir como exemplo na supera\u00e7\u00e3o destas dificuldades?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s temos tr\u00eas ferramentas: sindicatos, partidos e movimentos sociais. Algumas delas est\u00e3o bem enferrujadas, mas eu n\u00e3o jogo nenhuma ferramenta fora se n\u00e3o tenho uma melhor.<\/p>\n<p>Tem aqueles colegas que \u00e0s vezes d\u00e3o saltos no escuro: &#8220;ah, n\u00e3o d\u00e1 para esperar mais nada da classe trabalhadora&#8221;. T\u00e1 bom, eu vou esperar ent\u00e3o dos intelectuais a revolu\u00e7\u00e3o? &#8220;Ah, partidos est\u00e3o fora&#8221;. T\u00e1 bom o que eu boto no lugar dos partidos hoje? E os sindicatos? Est\u00e3o em uma crise danada, mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel resgatar um sindicalismo de classe?<\/p>\n<p>Cada um desses tr\u00eas instrumentos precisa\u00a0aprender um com o outro e se somar na sua for\u00e7a e na sua debilidade. O movimento social \u00e9 decisivo e tem seus limites, os partidos s\u00e3o decisivos e t\u00eam seus limites e os sindicatos s\u00e3o decisivos e t\u00eam seus limites.<\/p>\n<p>Segundo, retomar uma luta de base. N\u00e3o adianta uma vanguarda achar que est\u00e1 certa e ir caminhando, porque \u00e0s vezes ela se arrebenta, e quando est\u00e1 no sufoco ela chama a base\u2026<\/p>\n<p>Terceiro, olhar o que \u00e9 novo nas lutas sociais, as novas formas de luta. Em parte da classe trabalhadora europ\u00e9ia mais precarizada, que n\u00e3o tem mais nenhum direito, eles est\u00e3o se autodefinindo como precariado e criando associa\u00e7\u00f5es do precariado, que s\u00e3o como movimentos sociais do precariado.<\/p>\n<p>Por fim, na nossa a\u00e7\u00e3o todo o oxig\u00eanio n\u00e3o pode estar voltado para a institucionalidade. Qual \u00e9 a prioridade? Garantir representa\u00e7\u00e3o parlamentar ou organizar a massa da classe trabalhadora?<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos em uma era das contrarrevolu\u00e7\u00f5es. N\u00e3o ser\u00e1 recuperando uma pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes que n\u00f3s vamos sair desse ataque. O empresariado n\u00e3o quer mais concilia\u00e7\u00e3o, quer devasta\u00e7\u00e3o. Eles querem nos devastar, n\u00f3s temos que saber como devast\u00e1-los.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2019\/04\/29\/trabalho-precario-intermitente-e-a-antessala-do-desemprego-diz-ricardo-antunes\/\" target=\"_blank\">Brasil de Fato<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Soci\u00f3logo analisa o futuro do trabalho no Brasil e a nova massa superexplorada da era dos servi\u00e7os digitais Ricardo Antunes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2337,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-2335","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2335","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2335"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2335\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2338,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2335\/revisions\/2338"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2337"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2335"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2335"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2335"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}