{"id":2530,"date":"2019-07-29T23:58:00","date_gmt":"2019-07-30T02:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=2530"},"modified":"2019-07-30T00:05:06","modified_gmt":"2019-07-30T03:05:06","slug":"acordo-entre-faccoes-rivais-a-chave-da-queda-global-de-mortes-violentas-no-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/acordo-entre-faccoes-rivais-a-chave-da-queda-global-de-mortes-violentas-no-pais\/","title":{"rendered":"Acordo entre fac\u00e7\u00f5es rivais, a chave da queda global de mortes violentas no pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_2538\" aria-describedby=\"caption-attachment-2538\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/290719-Bolsonaro-e-Moro.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2538\" src=\"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/290719-Bolsonaro-e-Moro.jpg\" alt=\"Sergio Moro e Jair Bolsonaro posam juntos no dia 7 de julho durante jogo da Copa Am\u00e9rica. VICTOR R. CAIVANO (AP)\" width=\"800\" height=\"496\" srcset=\"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/290719-Bolsonaro-e-Moro.jpg 800w, https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/290719-Bolsonaro-e-Moro-300x186.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2538\" class=\"wp-caption-text\">Sergio Moro e Jair Bolsonaro posam juntos no dia 7 de julho durante jogo da Copa Am\u00e9rica. VICTOR R. CAIVANO (AP)<\/figcaption><\/figure>\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">Governo Bolsonaro comemora a diminui\u00e7\u00e3o de 22% nos assassinatos nos cinco primeiros meses do ano. Especialistas apontam, no entanto, que a oscila\u00e7\u00e3o tem mais rela\u00e7\u00e3o com a din\u00e2mica do crime<\/h2>\n<div class=\"articulo__apertura\">\n<div class=\"articulo-apertura \">\n<div id=\"articulo-introduccion\" class=\"articulo-introduccion\">\n<p>A viol\u00eancia letal no Brasil est\u00e1 diminuindo, de acordo com os dados divulgados nas \u00faltimas semanas. O pa\u00eds registrou uma queda de 22% no n\u00famero de mortes violentas entre janeiro e maio deste ano, em compara\u00e7\u00e3o com o mesmo per\u00edodo de 2018,\u00a0segundo os dados do Monitor da Viol\u00eancia. A plataforma, criada pelo portal\u00a0<em>G1<\/em>\u00a0em parceria com o\u00a0F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica\u00a0(FBSP) e o\u00a0N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia\u00a0(NEV) da Universidade de S\u00e3o Paulo, acompanha e agrupa os \u00edndices oficiais dos Estados. Essa tend\u00eancia de queda, apontada mensalmente, vem sendo publicamente comemorada pelo Governo\u00a0Jair Bolsonaro\u00a0(PSL). Por\u00e9m, quatro especialistas em seguran\u00e7a p\u00fablica consultados pelo EL PA\u00cdS discordam dessa celebra\u00e7\u00e3o. Dois deles, oriundos das pol\u00edcias do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo, acreditam que \u00e9 prematuro indicar os motivos e n\u00e3o enxergam, ao menos por enquanto, qualquer rela\u00e7\u00e3o da oscila\u00e7\u00e3o com as pol\u00edticas governamentais. Os demais, que acompanham de perto os dados nacionais, explicam que a tend\u00eancia de queda come\u00e7ou no in\u00edcio de 2018 e se explica pela pr\u00f3pria din\u00e2mica do mercado do crime.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\">\n<p>Nos \u00faltimos meses, nas redes sociais, bolsonaristas e o pr\u00f3prio presidente exaltam a queda dos n\u00fameros e a conectam com a\u00e7\u00f5es do Governo voltadas para o combate \u00e0 criminalidade. &#8220;Nosso papel para reduzir ainda mais esses n\u00fameros est\u00e1 sendo feito: o processo de flexibiliza\u00e7\u00e3o das leis armamentistas, o Pacote Anticrime que mira o crime violento, crime organizado e corrup\u00e7\u00e3o, e a desconstru\u00e7\u00e3o da invers\u00e3o de valores que h\u00e1 muito imperou em nosso Brasil&#8221;,\u00a0tuitou em 18 de abril\u00a0o mandat\u00e1rio ultradireitista, eleito no ano passado com um discurso linha-dura para a \u00e1rea seguran\u00e7a p\u00fablica. Um m\u00eas depois, o ministro da Justi\u00e7a e da Seguran\u00e7a P\u00fablica, Sergio Moro, admitiu durante um evento no Rio de Janeiro que ainda era &#8220;cedo para fazer qualquer comemora\u00e7\u00e3o&#8221; e que era preciso &#8220;ver se \u00e9 uma tend\u00eancia permanente ou algo epis\u00f3dico&#8221;. Em 16 de julho, contudo, o ministro tamb\u00e9m\u00a0comemorou em seu perfil no Twitter\u00a0a queda de v\u00e1rios n\u00fameros de viol\u00eancia. No dia 22,\u00a0recordou na rede social\u00a0que o Governo Federal enviou agentes da For\u00e7a Nacional para o Cear\u00e1 e abriu vagas em pres\u00eddios federais para isolar as principais lideran\u00e7as de fac\u00e7\u00f5es criminosas.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma tend\u00eancia de qualquer Governo alardear os indicadores, e isso sempre me preocupa. Considero muito precipitado porque precisamos de mais tempo para poder avaliar o que vem sendo feito de importante para a diminui\u00e7\u00e3o dos \u00edndices. Uma pol\u00edtica consistente demora certo tempo. Pode ser uma onda provis\u00f3ria&#8221;, explica o coronel da reserva Di\u00f3genes Lucca, ex-comandante da Rota e do Gate, as tropas de elite da Pol\u00edcia Militar paulista. O tamb\u00e9m coronel da reserva Robson Rodrigues, ex-chefe do Estado Maior da PM do Rio de Janeiro, segue o mesmo racioc\u00ednio: &#8220;O homic\u00eddio \u00e9 um fen\u00f4meno muito complexo para voc\u00ea atribuir a fatores t\u00e3o reduzidos. S\u00e3o um conjunto de fatores impactando e n\u00e3o envolve apenas a a\u00e7\u00e3o governamental&#8221;, argumenta. &#8220;O que causa estranheza \u00e9 o Governo Federal atribuir para si a\u00e7\u00f5es feitas pelos Estados e que podem estar contribuindo para essa queda, sem nem ter identificado os fatores que levaram a isso. Tamb\u00e9m \u00e9 prematuro porque n\u00e3o existe hoje nenhuma pol\u00edtica mais efetiva, s\u00f3 discurso e alguns desenhos que at\u00e9 s\u00e3o interessantes&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>J\u00e1 o jornalista e cientista pol\u00edtico Bruno Paes Manso, pesquisador do NEV, e o economista Daniel Cerqueira, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica e Aplicada (IPEA), descartam com mais veem\u00eancia qualquer tipo de interfer\u00eancia positiva do Governo Federal. &#8220;N\u00e3o podemos dar nenhum cr\u00e9dito ao Estado porque as pol\u00edticas de seguran\u00e7a ou foram inexistentes ou contribu\u00edram para aumentar ainda mais a viol\u00eancia&#8221;, explica Cerqueira. &#8220;Bolsonaro n\u00e3o s\u00f3 teve zero influ\u00eancia como ainda quase atrapalhou, ao pensar apenas no Estatuto do Desarmamento&#8221;, opina Paes Manso.<\/p>\n<p>Para ambos os pesquisadores, \u00e9 preciso olhar para os Estados do Norte e do Nordeste, que puxaram os \u00edndices para cima e fizeram com que 2017 fosse um ano com novos recordes. O Monitor da Viol\u00eancia, que utiliza os dados das Secretarias Estaduais de Seguran\u00e7a, calcula um total de 63.722 mortes violentas naquele ano; j\u00e1 o\u00a0\u00faltimo Atlas da Viol\u00eancia do IPEA, coordenado por Cerqueira a partir dos dados dos Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Mortalidade, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, calcula um total de 65.602 homic\u00eddios. As cifras incluem as mortes cometidas por agentes do Estado.<\/p>\n<h3>Tend\u00eancia de queda desde 2018<\/h3>\n<p>Os especialistas explicam que a expans\u00e3o das principais fac\u00e7\u00f5es criminosas do pa\u00eds, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), rumo ao Norte e Nordeste,\u00a0resultou em uma guerra entre elas dentro dos pres\u00eddios. &#8220;O ano de 2017 come\u00e7ou com matan\u00e7as nos pres\u00eddios no Amazonas, Rio Grande do Norte e Roraima. O sistema ficou muito conflagrado, porque se imaginava depois dessas tr\u00eas ondas um efeito domin\u00f3&#8221;, explica Paes Manso, coautor do livro\u00a0<em>A guerra: a ascens\u00e3o do PCC e o mundo do crime no Brasil<\/em>\u00a0(Todavia, 2018). A guerra nos pres\u00eddios teve reflexos nas ruas, acirrando os conflitos e elevando os \u00edndices de criminalidade daquele ano. Mas, com o tempo, a tens\u00e3o entre os grupos rivais come\u00e7ou a diminuir a partir de armist\u00edcios e pactos de n\u00e3o-agress\u00e3o.<\/p>\n<p>Os dados Monitor da Viol\u00eancia, que s\u00e3o os mais atualizados, mostraram que a letalidade violenta caiu 10% j\u00e1 em 2018, ano com um total de 57.117 mortes. Isso porque a tens\u00e3o entre os grupos rivais come\u00e7ou a diminuir a partir de armist\u00edcios e pactos de n\u00e3o-agress\u00e3o. Em compara\u00e7\u00e3o com os cinco primeiros meses do ano passado, as mortes violentas em Estados como Acre, Par\u00e1, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe e Cear\u00e1 ca\u00edram mais de 24%. S\u00f3 no Cear\u00e1 a queda foi de 53%.<\/p>\n<p>&#8220;Mas \u00e9 algo totalmente fr\u00e1gil, assentado num\u00a0barril de p\u00f3lvora chamado sistema carcer\u00e1rio nacional. H\u00e1 20 anos t\u00ednhamos meia d\u00fazia de grupos, mas hoje s\u00e3o mais de 70. E s\u00f3 tivemos esse aumento por causa do descontrole do sistema penitenci\u00e1rio. A tens\u00e3o \u00e9 latente&#8221;, explica Cerqueira, do Atlas da Viol\u00eancia. Prova disso, recorda o economista, \u00e9 o massacre em maio deste ano que acabou com a vida de 55 pessoas dentro de uma pris\u00e3o de Manaus, resultado de um racha de um grupo criminoso.<\/p>\n<p>O Atlas da Viol\u00eancia apresentado neste ano, com os dados de 2017, mostra como os \u00edndices de viol\u00eancia letal do Sul, Sudeste e Centro-oeste v\u00eam se mantendo est\u00e1veis ou apresentando quedas nos \u00faltimos anos\u00a0\u2014\u00a0uma exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o Rio de Janeiro, que registrou forte alta em seus \u00edndices a partir de 2015, mas tamb\u00e9m vem apresentando tend\u00eancia de queda desde o ano passado. Cerqueira apresenta dois fatores: o sucesso do Estatuto do Desarmamento, a legisla\u00e7\u00e3o aprovada pelo Congresso em 2003 que imp\u00f4s regras mais duras para a compra legal de armas; e uma transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica que faz com que haja cada vez menos jovens e mais idosos nessas regi\u00f5es. &#8220;Mas apareceu outro fator, que foi a guerra, que mais do que compensou a queda que a gente verificava. Quando essa guerra acabou, apareceu novamente esse movimento de queda. Al\u00e9m disso, no Norte e no Nordeste essa transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica \u00e9 mais t\u00edmida&#8221;, completa Cerqueira.<\/p>\n<h3>As din\u00e2micas do mercado do crime<\/h3>\n<p>Por que houve uma pausa nessa guerra? Paes Manso volta sua aten\u00e7\u00e3o para a pr\u00f3pria din\u00e2mica do mercado de drogas. &#8220;Tem muita grana envolvida, e conflito significa custo. E se existe viol\u00eancia, a sofistica\u00e7\u00e3o do mercado faz com tamb\u00e9m exista pragmatismo, algo que antes n\u00e3o existia. \u00c9 um volume maior de drogas, um mercado consumidor maior e empres\u00e1rios mais pragm\u00e1ticos&#8221;, explica o pesquisador do NEV. &#8220;Na hist\u00f3ria da humanidade o mercado promoveu um processo civilizat\u00f3rio. E o mesmo acontece no mundo do crime. Guerra e viol\u00eancia significam custo.\u00a0Quando voc\u00ea faz acordos e estabelece protocolos, voc\u00ea diminui o custo de todo mundo e o seu lucro tende a aumentar. \u00c9 algo cada vez mais evidente num mercado mais sofisticado&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, explica ele, &#8220;as lideran\u00e7as est\u00e3o dentro de pres\u00eddios, sob a tutela do Estado e muito mais vulner\u00e1veis a puni\u00e7\u00f5es, de modo que o poder p\u00fablico n\u00e3o precisa desenvolver grande intelig\u00eancia e esfor\u00e7o operacional para punir aqueles que ousarem permanecer em guerra&#8221;. Portanto, ele considera que tamb\u00e9m existe &#8220;uma maior capacidade do pr\u00f3prio Estado em pression\u00e1-los&#8221;, mesmo durante anos de instabilidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A complexidade dessa rela\u00e7\u00e3o pode ser vista no Cear\u00e1, que bateu\u00a0recordes de criminalidade nos \u00faltimos anos. A guerra nos pres\u00eddios fez com que o Governo estadual prometesse acabar com a divis\u00e3o de fac\u00e7\u00f5es criminosas dentro dos pres\u00eddios. Contudo, algo pouco comum ocorreu no in\u00edcio de 2019: em resposta,\u00a0os grupos criminosos se uniram\u00a0para atacar pr\u00e9dios p\u00fablicos, pontes e torres de comunica\u00e7\u00e3o, espalhando o terror. Mas foi esse armist\u00edcio que, segundo Paes Manso, fez com que\u00a0a taxa de homic\u00eddios ca\u00edsse 53%\u00a0nos cinco primeiros meses deste ano. &#8220;As pessoas acham que s\u00f3 Estado ou uma pol\u00edtica p\u00fablica t\u00eam capacidade, de reduzir homic\u00eddios. Mas esquece que do outro lado precisa combinar com os\u00a0<em>russos<\/em>. Tem pessoas que est\u00e3o\u00a0reagindo a essas pol\u00edticas&#8221;, explica o jornalista. &#8220;Quando decidiram prender muitas pessoas em S\u00e3o Paulo, pensaram que podiam combater o crime, mas acabaram fortalecendo as gangues prisionais. Ent\u00e3o voc\u00ea precisa sempre estar administrando uma pol\u00edtica, ele n\u00e3o faz e acontece&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/07\/20\/politica\/1563625750_156154.html\" target=\"_blank\">El Pa\u00eds<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Governo Bolsonaro comemora a diminui\u00e7\u00e3o de 22% nos assassinatos nos cinco primeiros meses do ano. 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