{"id":2614,"date":"2019-08-22T11:14:56","date_gmt":"2019-08-22T14:14:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=2614"},"modified":"2019-08-22T11:15:37","modified_gmt":"2019-08-22T14:15:37","slug":"ditadura-e-volkswagen-promoveram-o-maior-incendio-da-historia-nos-anos-1970","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/ditadura-e-volkswagen-promoveram-o-maior-incendio-da-historia-nos-anos-1970\/","title":{"rendered":"Ditadura e Volkswagen promoveram &#8216;o maior inc\u00eandio da hist\u00f3ria&#8217; nos anos 1970"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"subtitle col-xs-12\">Montadora ganhou terras e isen\u00e7\u00e3o de impostos para desmatar a Amaz\u00f4nia, promoveu as primeiras queimadas detectadas por sat\u00e9lite e tamb\u00e9m fez uso de trabalho escravo; desastres deram in\u00edcio aos debates sobre o aquecimento global<\/h3>\n<header class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"description row\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<p>Foi um m\u00eas de dezembro bastante quente no Brasil em 1975. Um sat\u00e9lite ainda muito rudimentar da Nasa, a Ag\u00eancia Espacial Norte-Americana, havia detectado um inc\u00eandio de grandes propor\u00e7\u00f5es na \u00e1rea sudeste da Amaz\u00f4nia, uma \u00e1rea especialmente sens\u00edvel para a ditadura militar brasileira. A mata estava queimando na fazenda de gado da Volkswagen, a Fazenda do Vale Cristalino, tamb\u00e9m chamada de Companhia Vale do Rio Cristalino. O assunto vinha sendo tratado com cautela pelos militares desde que a empresa alem\u00e3 havia adquirido, com os empr\u00e9stimos e benesses da Ditadura, uma \u00e1rea imensa no Araguaia para montar uma gigantesca fazenda de gado. Seria uma fazenda modelo, segundo as diversas mat\u00e9rias jornal\u00edsticas e os an\u00fancios do per\u00edodo.<\/p>\n<p>Desde 1974, a Amaz\u00f4nia queimava \u2013 e os governos alem\u00e3o e brasileiro sabiam. Rumores a respeito das fotos de sat\u00e9lite se espalharam pela comunidade cient\u00edfica mundial. Uma enorme mobiliza\u00e7\u00e3o de cientistas e pesquisadores do Brasil e fora passou a pressionar o governo para saber as raz\u00f5es de inc\u00eandio de t\u00e3o grandes propor\u00e7\u00f5es estava acontecendo na Amaz\u00f4nia, nas terras da fazenda da Volks. Desde julho de 1975, os cientistas brasileiros estavam alertas. Naquela ocasi\u00e3o, havia acontecido o 27\u00ba Congresso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC), em que se questionou o governo militar a respeito das pr\u00e1ticas de desmatamento realizadas pela Volks na sua fazenda. Paulo Nogueira Neto chefiava a Secretaria de Meio Ambiente (SEMA) do governo do general Ernesto Geisel e teve de responder \u00e0s perguntas de um grupo aguerrido de cientistas norte-americanos, alem\u00e3es e brasileiros a respeito dos cont\u00ednuos inc\u00eandios da Fazenda do Vale do Rio de Cristalino. A Volks era acusada de montar o projeto mais \u201cantiecol\u00f3gico do mundo\u201d e isso n\u00e3o era segredo para ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da fazenda frequentava os jornais e a televis\u00e3o fazia alguns anos. Em 1971, an\u00fancios publicados na grande imprensa, pagos pelo governo via Sudam, Minist\u00e9rio do Interior e Banco da Amaz\u00f4nia, exibiam um robusto touro com a seguinte mensagem: \u201cVolkswagen produzido na Amaz\u00f4nia\u201d. A alus\u00e3o, claro, era aos carros produzidos nas f\u00e1bricas do ABC paulista.<\/p>\n<p>O texto do an\u00fancio era, no entanto, ainda mais revelador. \u201cAo seu lado [da Volskwagen], na Amaz\u00f4nia, encontram-se alguns dos mais poderosos grupos deste pa\u00eds: Mappin, Scarpa, Gasparian, Alc\u00e2ntara Machado, Swift, Lunardelli, Camargo Corr\u00eaa, Villares, Finasa, Germaine Bouchard, Levy, Junqueira Vilela, Meinberg, Avelar Assump\u00e7\u00e3o, Ometto.\u201d (A Ometto, em caso relatado no livro\u00a0<em>Cativeiro sem Fim \u2013 o sequestro de crian\u00e7as e adolescentes pelo regime militar<\/em>, promoveu nos fins dos anos 1960 um deslocamento de um grupo ind\u00edgena inteiro, resultando em epidemias que mataram centenas de pessoas; no processo, cinco crian\u00e7as foram sequestradas e nunca mais vistas). &#8220;Nem todos v\u00e3o criar gado, embora os maiores pastos do mundo estejam na \u00e1rea da Sudam&#8221;, prossegue o an\u00fancio, um convite para atrair mais investidores para a regi\u00e3o, que traz outros trechos que mostram todo o empenho do governo em beneficiar essas empresas: \u201cPara garantir o lucro, o Banco da Amaz\u00f4nia d\u00e1 toda cobertura financeira. E o Governo Federal e os Governos Estaduais da regi\u00e3o fazem tudo o que podem. Nada de pagar Imposto de Renda durante 10 anos.\u201d As promessas n\u00e3o param a\u00ed: \u201cEm algumas regi\u00f5es voc\u00ea n\u00e3o paga nem Impostos Estaduais, nem Impostos Municipais, e at\u00e9 o terreno voc\u00ea pode receber de gra\u00e7a\u201d; \u201cSe for preciso importar equipamento, voc\u00ea n\u00e3o paga taxas nem Imposto de Importa\u00e7\u00e3o\u201d; \u201cv\u00e1 para a Amaz\u00f4nia. Voc\u00ea sabe: os maiores s\u00e3o os que chegam primeiro.\u201d<\/p>\n<p>Alguns anos depois, no dia 20 de setembro de 1974, foi finalmente aprovado pelo governo brasileiro o plano da Companhia Vale do Rio Cristalino, da Volkswagen. O projeto englobava a cria\u00e7\u00e3o de bovinos numa extensa \u00e1rea situada no Araguaia, que alcan\u00e7ava diversos munic\u00edpios no sul do estado do Par\u00e1, como Concei\u00e7\u00e3o do Araguaia e Santana do Araguaia.<\/p>\n<p>Para os militares, a \u00e1rea seria um \u201cgrande vazio\u201d demogr\u00e1fico e econ\u00f4mico (desconsiderando, claro, os grupos ind\u00edgenas e camponeses da regi\u00e3o). Grupos de esquerda, como a ALN (A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional) e o PCdoB (Partido Comunista do Brasil), haviam montado desde o final dos anos 1960 focos guerrilheiros em terras da regi\u00e3o. O foco da ALN n\u00e3o vingou, mas o PCdoB, ainda em 1974, continuava a ser combatido. Era preciso, portanto, ocupar o territ\u00f3rio e torn\u00e1-lo, aos olhos da ditadura, econ\u00f4mica e politicamente controlado.<\/p>\n<p>O presidente da Volkswagen na \u00e9poca, Wolfgang Sauer, deu seu aval para o que era considerado um excelente neg\u00f3cio para a empresa alem\u00e3. A companhia n\u00e3o apenas \u201cajudaria\u201d o pa\u00eds a crescer \u2013 era a \u00e9poca em que o governo veiculava em propagandas a ideia de \u201cBrasil grande\u201d \u2013 como poderia ganhar um bom dinheiro investindo em um novo neg\u00f3cio promissor.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, essas ideias foram traduzidas pelo diretor do empreendimento, Friedrich Br\u00fcgger: \u201c\u00c9 a \u00fanica op\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. O pa\u00eds disp\u00f5e de espa\u00e7os e de condi\u00e7\u00f5es naturais \u00fanicas. Basta jogar um peda\u00e7o de pau para que ele cres\u00e7a imediatamente.\u201d<sup>1<\/sup>\u00a0A frase refletia o que pensava tanto o governo como os empres\u00e1rios. O resultado foi a compra de 140.000 hectares de terra.<\/p>\n<p>Na realidade, o neg\u00f3cio se tornou realmente atrativo para a Volkswagen por causa dos incentivos fiscais do governo. O soci\u00f3logo Jos\u00e9 de Souza Martins identificou esse per\u00edodo como sendo a \u00e9poca em que grandes grupos econ\u00f4micos ou conglomerados financeiros instauraram o latif\u00fandio como o conhecemos hoje, em forma de agroneg\u00f3cio. Grandes extens\u00f5es de terras, sob o controle do poucas empresas.<\/p>\n<p>Assim, para conseguir esse resultado, o governo federal fez uma s\u00e9rie de manobras fiscais, dando 50% de desconto no imposto de renda aos que investissem na regi\u00e3o. \u201cA condi\u00e7\u00e3o era a de que esse dinheiro fosse depositado no Banco da Amaz\u00f4nia, um banco federal, e, ap\u00f3s aprova\u00e7\u00e3o de um projeto de investimento pelas autoridades governamentais, fosse constituir 75% do capital de uma nova empresa, agropecu\u00e1ria ou industrial, na regi\u00e3o amaz\u00f4nica. Tratava-se de uma doa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de um empr\u00e9stimo.\u201d<sup>2<\/sup>\u00a0No slogan do an\u00fancio acima: \u201cMetade do Brasil quer metade do seu Imposto de Renda\u201d.<\/p>\n<p>O governo, via Banco da Amaz\u00f4nia, financiaria qualquer risco que qualquer grande empresa tivesse ao abrir um grande neg\u00f3cio no Araguaia. Naturalmente, o valor disponibilizado pela Sudam estaria vinculado \u00e0 quantidade de terra utilizada e deveria ser aprovado somente se a terra estivesse nua, ou seja, totalmente desmatada. O banco e o governo diziam, sem pudor, que o desmatamento estava valorizando as terras.<\/p>\n<p><strong>Recorde de destrui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Foi dessa maneira que come\u00e7ou um dos maiores desflorestamentos feitos por uma s\u00f3 empresa no mundo. O empreendimento era para ser considerado modelo de gest\u00e3o de neg\u00f3cios no campo, de padr\u00e3o alem\u00e3o. Casas arrumadas para os funcion\u00e1rios, escolas, campos de recrea\u00e7\u00e3o, igreja, m\u00e9dicos, dentistas, supermercados, piscinas e outras facilidades estavam inclu\u00eddas no plano de constru\u00e7\u00e3o da Fazenda do Vale Cristalino.<\/p>\n<p>A ideia da Volks inclu\u00eda n\u00e3o apenas a cria\u00e7\u00e3o extensiva de gado, mas tamb\u00e9m a montagem um frigor\u00edfico para exportar carne para Jap\u00e3o, Estados Unidos e Europa. Contudo, na \u00e9poca, o Araguaia n\u00e3o possu\u00eda luz el\u00e9trica nem estava nos planos do governo levar a luz para l\u00e1. Dessa forma, a ideia do frigor\u00edfico foi rapidamente descartada por falta de infraestrutura. O gado seria \u201ccientificamente\u201d monitorado por computadores e analisado por cientistas alem\u00e3es. O solo verificado constantemente para se detectar a falta de sal e outros minerais. Seria, no limite, a fazenda-modelo para todas as fazendas, o empreendimento do futuro, que poderia, era a promessa, acabar com a fome do pa\u00eds, qui\u00e7\u00e1 do mundo.<sup>3<\/sup>\u00a0Em 1974, Chico Buarque escreve um livro, chamado\u00a0<em>Fazenda Modelo<\/em>, publicado pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, uma distopia que denunciava a viol\u00eancia de um modelo ultracapitalista de explora\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria.<\/p>\n<p><span class=\"fr-img-caption fr-fic fr-dib\"><span class=\"fr-img-wrap\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/uploads\/2019\/08\/21\/9e9c6fb4-3cb5-4b73-8d60-3b4f103d92de.png\" alt=\"\" data-media=\"[object Object]\" data-uploaded=\"true\" data-url=\"\/uploads\/2019\/08\/21\/9e9c6fb4-3cb5-4b73-8d60-3b4f103d92de.png\" \/><br \/>\n<span class=\"fr-inner\" style=\"font-size: 10pt;\">Capas do livro\u00a0<em>Fazenda Modelo<\/em>, de Chico Buarque, nas edi\u00e7\u00f5es da Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira e do C\u00edrculo do Livro (Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p>As propagadas, veiculadas inclusive na televis\u00e3o, davam uma no\u00e7\u00e3o da grandiosidade do projeto \u2013 foram p\u00e1ginas e p\u00e1ginas de mat\u00e9rias e an\u00fancios chamando o povo a admirar a \u201cconquista da selva\u201d, feita conjuntamente pelo governo do general Geisel e a montadora de carros alem\u00e3 Volkswagen. O desmatamento era visto como sin\u00f4nimo de progresso, de inova\u00e7\u00e3o, de tecnologia. Assim, em 1974, a Volkswagen veio a p\u00fablico para dizer que \u201corgulhosamente\u201d havia queimado 4.000 hectares de floresta amaz\u00f4nica em poucos meses, \u201cum recorde nunca igualado at\u00e9 agora por nenhum outro projeto similar implantado na regi\u00e3o\u201d<sup>4<\/sup>.<\/p>\n<p><strong>Orgulho do desastre<\/strong><\/p>\n<p>O desastre ambiental t\u00e3o propagandeado pela empresa em an\u00fancios e entrevistas foi detectado por sat\u00e9lites da Nasa. A imprensa e os cientistas, agrupados em torno do ent\u00e3o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (Inpa), Warwick Kerr, soltaram v\u00e1rias not\u00edcias alarmantes, inclusive a de que um inc\u00eandio dessas propor\u00e7\u00f5es poderia derreter calotas polares, inundar Manaus, causar uma mudan\u00e7a clim\u00e1tica mundial.<\/p>\n<p>O professor da Universidade de Zurique Antoine Acker, autor do livro\u00a0<em>Volkswagen in the Amazon: The Tragedy of Global Development in Modern Brazil<\/em>\u00a0(Cambridge University Press, 2017), analisou a situa\u00e7\u00e3o da \u00e9poca: \u201cEsse discurso [das mudan\u00e7as ambientais] era particularmente significativo na medida em que expressava a sobreposi\u00e7\u00e3o de escalas que caracterizava o problema do desmatamento tropical. Kerr \u2013 ao lado de outros membros da SBPC \u2013 acusou especificamente as multinacionais de serem correspons\u00e1veis por um fen\u00f4meno regional de degrada\u00e7\u00e3o ambiental na Amaz\u00f4nia. Ele alertou que essa degrada\u00e7\u00e3o regional poderia, por sua vez, ter consequ\u00eancias clim\u00e1ticas globais, e desse risco de desregula\u00e7\u00e3o global [&#8230;].\u201d<\/p>\n<p>O resultado, diz Acker, foi o estabelecimento de um \u201csenso de conex\u00f5es globais\u201d entre os cientistas brasileiros e estrangeiros que tem se mantido determinante no debate sobre a Amaz\u00f4nia no mundo desde ent\u00e3o. A ideia foi mostrar que todo o globo est\u00e1 conectado e que aquilo que ocorre num lugar afeta todo o planeta.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, a boa vontade da popula\u00e7\u00e3o com o projeto da Volkswagen mudou rapidamente. A empresa passou a ser acusada de um crime ambiental de propor\u00e7\u00f5es enormes, um verdadeiro crime contra a humanidade. O inc\u00eandio em larga escala passa a ser um indicador do modo como as empresas estrangeiras exploravam e destru\u00edam as riquezas do pa\u00eds. E, mesmo sob o terror mantido pelo governo Ernesto Geisel, quando a pr\u00e1tica de desaparecimento de opositores atinge seu auge, os parlamentares do MDB encabe\u00e7aram uma campanha contra as fazendas doadas a empresas estrangeiras e, em espacial, contra a Volkswagen.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"main-photo container-fluid\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 text-center\"><img decoding=\"async\" class=\"img-responsive\" src=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/thumb\/YzQ5ZGJiM2I1N2RhMDUyZWY0ZGU1ZTU2YmEzMGMxZTFfZTE4ODBmODU2MWU5NTBlOTg3YmU4OTA3YWEwZTcxY2EucG5n\" alt=\"\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"content content-fluid\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<blockquote class=\"text-muted caption text\"><p>Reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n<em>An\u00fancios pagos pelo governo exibiam um robusto touro com a seguinte mensagem: \u201cVolkswagen produzido na Amaz\u00f4nia\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"content container-fluid\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Na f\u00e1brica, a tortura<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 boca mi\u00fada, entre os defensores de direitos humanos e membros da resist\u00eancia \u00e0 os grupos contra a ditadura, sabia-se que a Volkswagen torturava trabalhadores dentro de suas instala\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Bernardo do Campo,\u00a0como ocorreu com o metal\u00fargico Lucio Bellantani em 1972. A f\u00e1brica tamb\u00e9m havia empregado um ex-comandante dos campos de exterm\u00ednio de Treblinka e Sobib\u00f3r na Pol\u00f4nia, Franz Paul Stangl, entre 1959 e 1967. Stangl foi o respons\u00e1vel por montar o sistema de monitoramento e vigil\u00e2ncia dos trabalhadores na f\u00e1brica de S\u00e3o Bernardo,\u00a0segundo a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. Qualquer suspeito de alguma atividade pol\u00edtica ou sindical que incomodasse a empresa levava a Volks a acionar o Departamento de Ordem Pol\u00edtica (DOPS), que possu\u00eda uma delegacia s\u00f3 para isso na \u00e9poca, em Santo Andr\u00e9. Com o desmatamento na Amaz\u00f4nia, todos esses elementos ajudaram a destruir a reputa\u00e7\u00e3o da empresa na \u00e9poca, que teve que responder a inqu\u00e9ritos e questionamentos tanto na Alemanha como no Brasil.<\/p>\n<p>Em 10 de agosto de 1976, o deputado federal Nino Ribeira, mesmo sendo do partido governista Arena (Alian\u00e7a Renovadora Nacional), numa sess\u00e3o do Congresso Nacional, questionou o presidente da Volks sobre os crimes ambientais cometidos no Araguaia.<\/p>\n<p>\u201cAfinal de contas, senhor Wolfgang Sauer, com que prop\u00f3sito o senhor veio ao Brasil: produzir autom\u00f3veis ou colocar fogo na floresta?\u201d<sup>5<\/sup>\u00a0Paulo Brossard, do MDB, discursou poucos meses depois, exigindo que as autoridades ficassem de sobreaviso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s empresas estrangeiras. \u201cParece-me &#8230; que um crime contra a nacionalidade est\u00e1 sendo cometido [pela VW], e n\u00f3s n\u00e3o podemos assistir indiferentes a tais coisas acontecerem, tais atos serem praticados, com incont\u00e1veis danos \u00e0 comunidade nacional.\u201d<sup>6<\/sup>\u00a0Numa audi\u00eancia no Senado em junho de 1976, um dos maiores arquitetos-paisagistas do mundo, Roberto Burle Marx, afirmou que a Volkswagen havia destru\u00eddo uma \u00e1rea de floresta \u201cdo tamanho do L\u00edbano\u201d e \u201cproduzido, na Amaz\u00f4nia, o maior inc\u00eandio da hist\u00f3ria de todo o planeta\u201d.<\/p>\n<p><strong>Trabalho escravo<\/strong><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foram apenas crimes ambientais cometidos pela Volkswagen na sua Fazenda do Vale do Rio Cristalino. A empresa foi acusada de usar trabalho escravo na fazenda \u2013 como faziam, ali\u00e1s muitas outras fazendas da regi\u00e3o. Na \u00e9poca, as graves viola\u00e7\u00f5es das leis trabalhistas que ocorreram sob a responsabilidade dos grupos estrangeiros n\u00e3o provocaram como\u00e7\u00e3o porque o trabalho for\u00e7ado era considerado uma pr\u00e1tica esperada na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Ainda assim, foi montada uma comiss\u00e3o de deputados estaduais de S\u00e3o Paulo para visitar a fazenda entre os dias 5, 6 e 7 de julho de 1983. A comitiva era encabe\u00e7ada pelo deputado do Partido dos Trabalhadores (PT) Expedito Soares Batista, que fez um relat\u00f3rio sobre o que viu l\u00e1. Ele conta que, ao chegar \u00e0 regi\u00e3o num avi\u00e3o particular disponibilizado pela pr\u00f3pria Volks, a comitiva pegou um caminh\u00e3o para a sede da fazenda. No caminho, os deputados, de diferentes tend\u00eancias pol\u00edticas, cruzaram com uma caminhonete com alguns trabalhadores amarrados na ca\u00e7amba. Questionados sobre a pr\u00e1tica, os capatazes afirmaram que, se os trabalhadores n\u00e3o fossem amarrados, n\u00e3o trabalhariam direito.<\/p>\n<p>A aventura amaz\u00f4nica da Volkswagen \u00e9 um caso paradigm\u00e1tico da atua\u00e7\u00e3o das empresas e da ditadura militar brasileira. Aliar neg\u00f3cios privados com financiamentos p\u00fablicos, destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente com tortura dentro das f\u00e1bricas, trabalho escravo com uma suposta moderniza\u00e7\u00e3o. Tudo embalado dentro de uma maci\u00e7a campanha publicit\u00e1ria que exaltava o Brasil grande, o \u201cAme-o ou deixe-o\u201d.<\/p>\n<p>Tanto o governo do general Geisel como a Volkswagen sa\u00edram seriamente arranhados do epis\u00f3dio. Mas isso n\u00e3o significou menos repress\u00e3o: a partir desses acontecimentos, os servi\u00e7os de seguran\u00e7a da ditadura come\u00e7aram a fichar os \u201cecologistas\u201d e \u201cambientalistas\u201d, a partir de ent\u00e3o considerados \u201cinimigos\u201d potencialmente t\u00e3o perigosos como os comunistas.<\/p>\n<p>Em poucos anos, o grande edif\u00edcio da ditadura come\u00e7aria a ruir. Mas o projeto de destrui\u00e7\u00e3o, como podemos perceber, permanece.<\/p>\n<p><em>(*) Joana Monteleone \u00e9 historiadora; Haroldo Ceravolo Sereza \u00e9 jornalista. S\u00e3o autores, junto com Vitor Sion, Felipe Amorim e Rodolfo Machado, de<\/em>\u00a0\u00c0 espera da verdade: Empres\u00e1rios, Juristas e Elite Transnacional, Hist\u00f3rias de Civis que Fizeram a Ditadura Militar<em>\u00a0(Alameda Casa Editorial, 2015).<br \/>\nFonte:\u00a0<a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/memoria\/60084\/ditadura-e-volkswagen-promoveram-o-maior-incendio-da-historia-nos-anos-1970\" target=\"_blank\">operamundi.uol.com.br<\/a><\/em><\/p>\n<div class=\"col-xs-12 col-sm-6 pull-right\"><\/div>\n<hr \/>\n<div id=\"ftn1\">\n<p>[1] Um dos melhores artigos sobre o tema foi escrito por Benjamin Buclet em seu artigo \u201cEntre tecnologia e escravid\u00e3o: a aventura da Volkswagen na Amaz\u00f4nia\u201d, publicado pela\u00a0<em>Revista do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social da PUC \u2013 Rio: \u201cO Social em Quest\u00e3o\u201d<\/em>\u00a0n\u00ba 13, no primeiro semestre de 2005. A fala de Friedrich Br\u00fcgger se encontra neste artigo.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn2\">\n<p>[2] Martins, Jos\u00e9 de Souza. \u201cA reprodu\u00e7\u00e3o do capital na frente pioneira e o renascimento da escravid\u00e3o no Brasil\u201d,\u00a0<em>Tempo Social<\/em>. S\u00e3o Paulo: USP, 6 (1-2): 1-25, 1994.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn3\">\n<p>[3] Outro artigo fundamental sobre o assunto \u00e9\u00a0\u201cO maior inc\u00eandio do planeta\u201d, de Antoine Acker. Publicado na\u00a0<em>Revista Brasileira de Hist\u00f3ria<\/em>, v. 34, n. 68, p. 13 -33, 2014.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn4\">\n<p>[4]\u00a0\u201cO maior inc\u00eandio do planeta\u201d, de Antoine Acker. Publicado na\u00a0<em>Revista Brasileira de Hist\u00f3ria<\/em>, v. 34, n. 68, p. 13 -33, 2014.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn5\">\n<p>[5] Antoine Acker.\u00a0Publicado na\u00a0<em>Revista Brasileira de Hist\u00f3ria<\/em>, v. 34, n. 68, p. 13-33, 2014.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ftn6\">\n<p>[6]\u00a0<em>Di\u00e1rio do Congresso Nacional<\/em>, 19 set. 1978. Bras\u00edlia: C\u00e2mara dos Deputados, 1978, p.8146-8147.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"footer container-fluid\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Montadora ganhou terras e isen\u00e7\u00e3o de impostos para desmatar a Amaz\u00f4nia, promoveu as primeiras queimadas detectadas por sat\u00e9lite e tamb\u00e9m<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2616,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-2614","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2614","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2614"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2614\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2618,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2614\/revisions\/2618"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2616"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2614"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2614"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2614"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}