{"id":3124,"date":"2020-08-31T11:22:21","date_gmt":"2020-08-31T14:22:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=3124"},"modified":"2020-08-31T11:26:26","modified_gmt":"2020-08-31T14:26:26","slug":"abortos-legais-em-hospitais-referencia-no-brasil-disparam-na-pandemia-e-expoem-drama-da-violencia-sexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/abortos-legais-em-hospitais-referencia-no-brasil-disparam-na-pandemia-e-expoem-drama-da-violencia-sexual\/","title":{"rendered":"Abortos legais em hospitais refer\u00eancia no Brasil disparam na pandemia e exp\u00f5em drama da viol\u00eancia sexual"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \">Notifica\u00e7\u00f5es de estupros diminuem, mas refletem dificuldade em procurar socorro, n\u00e3o queda nos casos de abuso, apontam pesquisadores. Profissionais da sa\u00fade relatam um aumento nos casos de gesta\u00e7\u00e3o em idade avan\u00e7ada entre as v\u00edtimas, em sua maioria meninas e adolescentes<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"850\" height=\"567\" src=\"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/310820-gravidez-aborto.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3126\" srcset=\"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/310820-gravidez-aborto.jpg 850w, https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/310820-gravidez-aborto-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/310820-gravidez-aborto-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 850px) 100vw, 850px\" \/><figcaption>Faixa de protesto a favor do aborto legal em frente ao Supremo Tribunal Federal, em Bras\u00edlia.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de desencadear uma crise sanit\u00e1ria global, a\u00a0pandemia do novo coronav\u00edrus\u00a0aprofundou a\u00a0viol\u00eancia de g\u00eanero\u00a0em muitas partes do mundo. No Brasil, o isolamento social imposto pela quarentena provocou um aumento de 40% nos casos de viol\u00eancia contra a mulher, de acordo com o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. A cifra engloba tamb\u00e9m um maior n\u00famero de casos de\u00a0viol\u00eancia sexual, o que reflete nos registros dos servi\u00e7os de sa\u00fade que atendem v\u00edtimas desse crime e realizam a\u00a0interrup\u00e7\u00e3o da gravidez prevista em lei\u00a0\u2014ou seja, em casos de estupro, risco de morte materna ou feto anenc\u00e9falo. O\u00a0Hospital P\u00e9rola Byington, em S\u00e3o Paulo, refer\u00eancia no pa\u00eds nesse tipo de atendimento, realizou 275 procedimentos de aborto legal no primeiro semestre deste ano. Em 2019, no mesmo per\u00edodo, foram realizados 190, de um total de 377 em todo o ano passado, segundo a Secretaria de Sa\u00fade do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>No Hospital de Cl\u00ednicas da Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia (UFU), em Minas Gerais, al\u00e9m do aumento dos procedimentos de aborto legal, tamb\u00e9m houve mais v\u00edtimas de estupro procurando o centro m\u00e9dico com gesta\u00e7\u00e3o em idade avan\u00e7ada. \u201cA\u00a0viol\u00eancia contra a mulher aumentou\u00a0e a gravidade dos casos est\u00e1 maior, estamos recebendo mais casos de gesta\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada, porque as meninas e mulheres acham que, por conta da quarentena, os servi\u00e7os n\u00e3o est\u00e3o funcionando\u201d, diz a m\u00e9dica Helena Paro, chefe do servi\u00e7o de viol\u00eancia sexual no Hospital da UFU. Em todo o ano de 2019, foram realizados 19 interrup\u00e7\u00f5es da gravidez previstas em lei. Nos seis primeiros meses de 2020, j\u00e1 foram 24 procedimentos. \u201cEstimamos, at\u00e9 o final de 2020, um aumento de quase 100% em rela\u00e7\u00e3o ao ano passado, algo que tem a ver com a pandemia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, entre mar\u00e7o e maio de 2020, houve uma redu\u00e7\u00e3o de 50,5% nos registros de\u00a0estupro\u00a0e estupro de vulner\u00e1vel com v\u00edtimas mulheres em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2019, de acordo com o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Os t\u00e9cnicos que elaboram o informe explicam, no entanto, que o n\u00famero \u201cn\u00e3o indica a redu\u00e7\u00e3o destas viola\u00e7\u00f5es, mas, pelo contr\u00e1rio, que as v\u00edtimas n\u00e3o est\u00e3o conseguindo chegar at\u00e9 a pol\u00edcia para denunciar o crime.\u201d De acordo com Daniela Pedroso, psic\u00f3loga que tem 23 anos de experi\u00eancia em atendimento \u00e0s v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual e aborto legal e membro do Grupo de Estudos sobre Aborto (GEA), apenas 10% das v\u00edtimas buscam ajuda imediata ap\u00f3s uma viol\u00eancia sexual.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCom 40% de\u00a0aumento da viol\u00eancia dom\u00e9stica, especialmente as crian\u00e7as est\u00e3o ainda mais expostas \u00e0 viol\u00eancia sexual. E sem escola, que \u00e9 um lugar de prote\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio\u00a0caso da menina do Esp\u00edrito Santo\u00a0mostra que a gravidez durou exatamente esse per\u00edodo que a gente est\u00e1 em quarentena\u201d, diz a psic\u00f3loga, referindo-se ao caso da crian\u00e7a de dez anos que foi submetida a uma aborto ap\u00f3s ser estuprada pelo tio de 33 anos, na cidade de S\u00e3o Mateus. \u201cPela falta de conhecimento do pr\u00f3prio corpo, pela dificuldade de perceber o risco de uma gravidez, al\u00e9m das amea\u00e7as sofridas, faz com que essas crian\u00e7as tenham uma percep\u00e7\u00e3o tardia da gravidez\u201d, explica Pedroso.<\/p>\n\n\n\n<p>No Hospital P\u00e9rola Byington, 45% dos atendimentos de viol\u00eancia sexual referem-se a v\u00edtimas infantis, com at\u00e9 11 anos. Entre janeiro e junho deste ano, a unidade realizou 1.600 atendimentos, sendo 728 deles em crian\u00e7as at\u00e9 essa idade. No mesmo per\u00edodo do ano passado, foram 1.954 atendimentos, 855 deles em v\u00edtimas infantis. \u201cEm todos os servi\u00e7os, a maioria das v\u00edtimas s\u00e3o adolescentes violentadas, as crian\u00e7as s\u00e3o minoria, mas, quando v\u00eam, j\u00e1 chegam com uma idade gestacional mais avan\u00e7ada. Primeiro porque n\u00e3o existe um entendimento do pr\u00f3prio corpo, do que \u00e9 gravidez\u201d, diz Helena Paro. Nas cinco unidades de refer\u00eancia da rede municipal de S\u00e3o Paulo \u2014Hospital Municipal Dr. C\u00e1mino Caricchio (Hospital do Tatuap\u00e9), Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha (Hospital do Campo Limpo), Hospital Municipal Tide Setubal, Hospital Municipal e Maternidade Dr. M\u00e1rio de Moraes Altenfelder (Maternidade Vila Nova Cachoeirinha) e Hospital Municipal Maternidade M\u00e1rio Degni (Jardim Sarah)\u2014, foram 402 abortos legais realizados em 2019, ante 201 nos primeiros seis meses deste ano, de acordo com a Secret\u00e1ria Municipal de Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto da crise sanit\u00e1ria, essas v\u00edtimas enfrentam mais uma dificuldade: o acesso limitado aos centros que realizam a interrup\u00e7\u00e3o legal da gravidez. Dos 76 hospitais cadastrados no\u00a0Minist\u00e9rio da Sa\u00fade\u00a0que oferecem o procedimento, apenas 42 continuaram atendendo no primeiro semestre deste ano \u201417 deles informaram que suspenderam o servi\u00e7o especificamente por conta da pandemia. Al\u00e9m disso, o Minist\u00e9rio publicou, na \u00faltima sexta-feira, uma\u00a0portaria que dificulta o atendimento \u00e0s v\u00edtimas de estupro pelo SUS,\u00a0tornando obrigat\u00f3rio que a equipe m\u00e9dica notifique uma autoridade policial sobre a viol\u00eancia sexual sofrida pela mulher e colocando a cargo do profissional de sa\u00fade a coleta de poss\u00edveis provas do crime de estupro, como fragmentos do feto ou do embri\u00e3o. As novas regras tamb\u00e9m exigem a assinatura de um termo de responsabilidade por parte da mulher, em que ela reconhece que, ao realizar o procedimento, sofre riscos como sangramentos, infec\u00e7\u00f5es e at\u00e9 de morte, dentre outros. \u00c0 v\u00edtima tamb\u00e9m dever\u00e1 ser oferecido que ela visualize o feto por meio de uma ultrassonografia, e determina que ela deve narrar, tamb\u00e9m aos m\u00e9dicos, detalhes da viola\u00e7\u00e3o sofrida, apontando inclusive caracter\u00edsticas do criminoso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/j5Y7wyXBJZUpUGnRB_JNH4PDV4E=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/CZLE4YEMJFDJXAWV7K6FPDC3IE.aspx\" alt=\"Cartazes em apoio \u00e0 menina de dez anos v\u00edtima de estupro, em frente ao hospital em Recife onde ela foi submetida a um aborto legal, em 18 de agosto. \"\/><figcaption>Cartazes em apoio \u00e0 menina de dez anos v\u00edtima de estupro, em frente ao hospital em Recife onde ela foi submetida a um aborto legal, em 18 de agosto.&nbsp;DIEGO NIGRO \/ EFE<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Inf\u00e2ncia roubada<\/h3>\n\n\n\n<p>Nos quatro anos de funcionamento do servi\u00e7o de refer\u00eancia da Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia, a v\u00edtima mais nova de viol\u00eancia sexual que chegou gr\u00e1vida tinha 11 anos, com 17 semanas de gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea sabe como mulher engravida?, perguntou \u00e0 crian\u00e7a a m\u00e9dica Helena Paro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o, porque eu s\u00f3 vou aprender isso na escola no ano que vem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c0s vezes, as meninas que n\u00f3s atendemos nem menstruam e j\u00e1 s\u00e3o v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual. A\u00ed, quando seria a primeira menstrua\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o vem, porque elas j\u00e1 est\u00e3o gr\u00e1vidas\u201d, lamenta a m\u00e9dica. A cada hora, quatro\u00a0meninas brasileiras de at\u00e9 13 anos s\u00e3o estupradas, de acordo com o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. A maior parte das v\u00edtimas tem at\u00e9 5 anos de idade.\u00a090% desses casos de viol\u00eancia acontecem em casa, e 72% das testemunhas n\u00e3o denunciam. \u201cUm dos maiores problemas \u00e9 que a imensa maioria das meninas e mulheres que engravidam por estupro n\u00e3o sabem que t\u00eam direito ao aborto seguro, com uma equipe especializada, previsto em lei desde 1940\u2033, continua a m\u00e9dica.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de a crian\u00e7a de 11 anos ter sido a v\u00edtima mais jovem a submeter-se ao aborto legal em Uberl\u00e2ndia, n\u00e3o foi a \u00fanica nessa faixa et\u00e1ria atendida pelo Hospital de Cl\u00ednicas da cidade mineira. A m\u00e9dica conta que a maioria das crian\u00e7as atendidas est\u00e1 no limbo da adolesc\u00eancia, com 13 ou 14 anos, deseja realizar o procedimento, mas,\u00a0por influ\u00eancia de familiares, acaba desistindo. \u201cS\u00f3 nos resta respeitar e, como ela continua sendo uma v\u00edtima de viol\u00eancia sexual com uma gravidez de risco, fazemos todo o pr\u00e9-natal dessa crian\u00e7a. Dois anos depois, muitas dessas crian\u00e7as t\u00eam transtornos mentais graves por conta dessa inf\u00e2ncia roubada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e9dica acredita que a responsabilidade sobre a divulga\u00e7\u00e3o dos direitos das mulheres, inclusive sobre o acesso ao aborto legal e seguro n\u00e3o \u00e9 apenas obriga\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, mas tamb\u00e9m da pasta de Educa\u00e7\u00e3o, que, segundo ela, deveria incluir os\u00a0direitos sexuais e reprodutivos\u00a0em aulas de educa\u00e7\u00e3o para a sexualidade nas escolas. Mas Helena Paro n\u00e3o gosta de fazer abortos. E, como ela mesma diz, nenhuma mulher gosta de ter de submeter-se a esse procedimento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gente queria que mulher nenhuma precisasse fazer essa escolha. Mas cada vez que eu dou alta para uma paciente que passou por um aborto legal, sinto que salvei uma vida, porque elas mesmas dizem que voltaram a viver. Ser pr\u00f3-vida \u00e9 devolver a vida a essas mulheres que tiveram a vida roubada por uma viol\u00eancia sexual\u201d, conclui.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-08-30\/abortos-legais-em-hospitais-referencia-no-brasil-disparam-na-pandemia-e-expoem-drama-da-violencia-sexual.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ElPa\u00eds<\/a><\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Notifica\u00e7\u00f5es de estupros diminuem, mas refletem dificuldade em procurar socorro, n\u00e3o queda nos casos de abuso, apontam pesquisadores. 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