{"id":3313,"date":"2021-11-17T10:34:00","date_gmt":"2021-11-17T13:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.secpf.com.br\/site\/?p=3313"},"modified":"2023-03-15T23:57:07","modified_gmt":"2023-03-16T02:57:07","slug":"mortes-sequelas-e-trabalho-exaustivo-o-rastro-da-covid-19-em-grandes-frigorificos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/mortes-sequelas-e-trabalho-exaustivo-o-rastro-da-covid-19-em-grandes-frigorificos\/","title":{"rendered":"Mortes, sequelas e trabalho exaustivo: o rastro da covid-19 em grandes frigor\u00edficos"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"description\">Enquanto a carne se torna artigo de luxo no mercado interno, trabalhadores s\u00e3o expostos a risco de cont\u00e1gio e acidentes<\/h4>\n<p>Dores no corpo e tosse persistente despertaram em Maria Aparecida de Souza, 59 anos, o temor de ter contra\u00eddo o\u00a0novo coronav\u00edrus. Era a primeira quinzena de julho de 2020, e ela procurou ajuda no ambulat\u00f3rio do frigor\u00edfico da\u00a0JBS\/Seara Alimentos\u00a0de Sidrol\u00e2ndia (MS), onde trabalhava h\u00e1 21 anos.<\/p>\n<p>Sem fazer nenhum teste r\u00e1pido ou RT-PCR, o m\u00e9dico da empresa apenas verificou que a funcion\u00e1ria n\u00e3o tinha febre e afirmou que se tratava de uma gripe comum, referendando a volta ao servi\u00e7o.<\/p>\n<p>O ambiente de trabalho de Maria Aparecida era a sala de cortes e desossa de frango, com temperatura inferior a 7\u00baC.<\/p>\n<p>Nos dois dias seguintes, Dona Cida, como era chamada, retornou ao ambulat\u00f3rio relatando dificuldade de permanecer nas esteiras de produ\u00e7\u00e3o, o que tampouco abalou a convic\u00e7\u00e3o cl\u00ednica do m\u00e9dico da JBS. Ele estava errado: a trabalhadora estava com covid-19, precisou ser internada, entubada, e morreu em 12 de agosto, um m\u00eas ap\u00f3s relatar os primeiros sintomas.<\/p>\n<p>\u201cQuando minha m\u00e3e dava lucro, era excelente funcion\u00e1ria. Quando adoeceu e morreu, nem quiseram saber como est\u00e1vamos\u201d, lamenta Joana Darc de Souza, 41, filha de Dona Cida.<\/p>\n<p>Ao longo de duas d\u00e9cadas, a trabalhadora acumulou pr\u00eamios e bonifica\u00e7\u00f5es pelo desempenho funcional e assiduidade. Mesmo assim, segundo a filha, seu quadro cl\u00ednico foi negligenciado.<\/p>\n<p>\u201cAntes mesmo de minha m\u00e3e falecer, j\u00e1 tinham colocado outro no lugar dela. \u00c9 como se diz:\u00a0a carne mais barata \u00e9 a do trabalhador\u201d.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/7c7d960104bfae2b7481ff139d696b68.jpeg\" \/><br \/>Dona Cida recebeu v\u00e1rios pr\u00eamios da JBS\/Seara; filha diz que a empresa negligenciou o quadro cl\u00ednico dela \/ Divulga\u00e7\u00e3o\/JBS<\/p>\n<p>Joana relata que sua filha\u00a0de 9 anos\u00a0ficou meses sem dormir e desenvolveu s\u00edndrome do p\u00e2nico ap\u00f3s a morte da av\u00f3. O filho mais velho, de 15, tentou suic\u00eddio.\u00a0\u201cA verdade \u00e9 que nossa fam\u00edlia acabou. Estamos tentando voltar a viver agora. Porque, at\u00e9 ent\u00e3o, estamos apenas sobrevivendo.\u201d<\/p>\n<p>A morte de Dona Cida comprometeu a sa\u00fade financeira da fam\u00edlia, j\u00e1 que ela era a provedora da casa. Sem a remunera\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, cerca de R$ 2 mil por m\u00eas, Joana conta apenas com um sal\u00e1rio-m\u00ednimo referente ao benef\u00edcio assistencial que recebe por sofrer de depress\u00e3o grave.<\/p>\n<p>Em julho de 2020, segundo estimativas da\u00a0Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira Democr\u00e1tica dos Trabalhadores nas Ind\u00fastrias da Alimenta\u00e7\u00e3o (Contac), ao menos 25% dos 540 mil trabalhadores do setor de abate e processamento de frangos, su\u00ednos e bovinos\u00a0j\u00e1 haviam se contaminado com a covid-19.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/b87a56c46300307bac6960e34e685e27.jpeg\" \/><br \/>\u00c0 esquerda, Dona Cida posa com as filhas sob o retrato dos netos; \u00e0 direita, Joana Darc segura o retrato da m\u00e3e, v\u00edtima da covid-19 \/ Arquivo pessoal<\/p>\n<p>Nivaldo Chiavelli, 44, que foi colega de Dona Cida e trabalha na unidade h\u00e1 16 anos, ficou cinco meses internado ap\u00f3s contrair o\u00a0novo coronav\u00edrus\u00a0pela segunda vez, em mar\u00e7o deste ano.<\/p>\n<p>Com 75% do pulm\u00e3o comprometido, ele permaneceu entubado por 21 dias em um hospital de Campo Grande (MS). Durante todo o tratamento, perdeu 25 kg, e hoje convive com as sequelas da covid-19.<\/p>\n<p>Depois da doen\u00e7a, Nivaldo teve complica\u00e7\u00f5es f\u00edsico-motoras, que causam dificuldade ao caminhar, correr ou mesmo ficar em p\u00e9. \u201c\u00c9 como se metade da minha perna esquerda estivesse morta. Tamb\u00e9m sinto muito formigamento no p\u00e9\u201d, explica.<\/p>\n<p>O trabalhador tem certeza que contraiu o v\u00edrus na empresa, pois quase todos os seus colegas do setor de caixaria tamb\u00e9m se contaminaram. Ele descreve o ambiente como \u201cquente e sem circula\u00e7\u00e3o de ar\u201d.<\/p>\n<p>No setor de caixaria, pe\u00e7as pr\u00e9-manipuladas e desossadas s\u00e3o embaladas em caixas, para facilitar o corte nos a\u00e7ougues.<\/p>\n<p>Com a nova condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica, o trabalho de Nivaldo tornou-se mais penoso. Quando ele voltou \u00e0 unidade, uma enfermeira da JBS teria garantido uma adequa\u00e7\u00e3o do ritmo \u00e0s suas limita\u00e7\u00f5es motoras.<\/p>\n<p>\u201cOs ajustes duraram dez dias. Hoje eu trabalho at\u00e9 mais que antes. Em mar\u00e7o, eu tinha um volume de 3,8 mil caixas por dia. Hoje, s\u00e3o 5 mil caixas\u201d, compara.<\/p>\n<p><strong>:: Confira no v\u00eddeo abaixo\u00a0o ritmo exaustivo imposto aos trabalhadores em Sidrol\u00e2ndia\u00a0::<\/strong><\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><iframe title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9SV4ddtA-Yg\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><br \/>(Imagens obtidas com exclusividade pelo Brasil de Fato)<\/p>\n<p>A press\u00e3o pelo aumento da produ\u00e7\u00e3o reflete a demanda crescente de outros pa\u00edses por carne brasileira.\u00a0Todo o frango abatido e desossado na unidade da JBS em Sidrol\u00e2ndia \u00e9 destinado \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o. Os principais compradores s\u00e3o Uni\u00e3o Europeia, China e Jap\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Contexto econ\u00f4mico<\/p>\n<p>Embora acompanhem a hist\u00f3ria dos frigor\u00edficos no Brasil, relatos de jornadas exaustivas, les\u00f5es e acidentes de trabalho s\u00e3o cada vez mais frequentes durante a pandemia. Esta reportagem se concentra nas duas maiores empresas de abate e processamento de carnes: JBS\/Seara e\u00a0Brasil Foods (BRF).<\/p>\n<p>O Brasil exportou 187 mil toneladas de carne bovina em setembro, maior volume mensal embarcado na\u00a0hist\u00f3ria do pa\u00eds, segundo a Secretaria de Com\u00e9rcio Exterior. No mercado interno, a crise derrubou o consumo do produto em 5% no ano passado, para 36 kg por pessoa. \u00c9 o menor patamar desde 2008.<\/p>\n<p>Em 2021, a arroba do boi atingiu patamar recorde, superando os R$ 300. O rebanho brasileiro tem 220 milh\u00f5es de cabe\u00e7as de gado, e os maiores compradores s\u00e3o pa\u00edses asi\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Diante da infla\u00e7\u00e3o, o ovo passou a ser\u00a0a principal alternativa das fam\u00edlias brasileiras. O consumo deve bater recorde este ano, com 255 unidades per capita, conforme estimativas da\u00a0Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Prote\u00edna Animal (ABPA).<\/p>\n<p>Conforme os n\u00edveis de renda, aves e su\u00ednos tamb\u00e9m s\u00e3o op\u00e7\u00f5es \u00e0 carne bovina. A procura por esses produtos vem crescendo dentro e fora do pa\u00eds. A produ\u00e7\u00e3o de frango no Brasil deve subir 3,5% em 2021. A curva de aumento da exporta\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais expressiva: 7,5%, chegando a 4,55 milh\u00f5es de toneladas, segundo a ABPA.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de carne su\u00edna, a Associa\u00e7\u00e3o prev\u00ea crescimento de at\u00e9 12% no ano, para at\u00e9 1,15 milh\u00e3o de toneladas.<\/p>\n<p>O aumento da demanda externa, em um contexto de valoriza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar, fez com que o terceiro trimestre de 2021 fosse o mais lucrativo da hist\u00f3ria da JBS:\u00a0R$ 7,58 bilh\u00f5es, um avan\u00e7o de 142,1% no comparativo anual. A receita l\u00edquida da BRF, no mesmo per\u00edodo,\u00a0saltou 24,6%, chegando a R$ 12,39 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o sal\u00e1rio l\u00edquido m\u00e9dio de um trabalhador do setor de abate no Brasil \u00e9 inferior a R$ 1,5 mil.<\/p>\n<p>Vice-gerente do projeto nacional de adequa\u00e7\u00e3o do trabalho em frigor\u00edficos do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT), o procurador Lincoln Roberto N\u00f3brega Cordeiro ressalta a complexidade do setor e os desafios \u00e0 preven\u00e7\u00e3o de acidentes e adoecimentos.<\/p>\n<p>\u201cO setor \u00e9 bastante capilarizado, presente em cidades pequenas e m\u00e9dias do pa\u00eds, sendo por consequ\u00eancia o maior empregador e maior pagador de impostos em v\u00e1rias cidades \u2013 al\u00e9m de ser respons\u00e1vel por parte significativa do PIB [Produto Interno Bruto] brasileiro\u201d, lembra.<\/p>\n<p>\u201cEssa complexidade torna ainda mais necess\u00e1ria uma legisla\u00e7\u00e3o protetiva da sa\u00fade do trabalhador.\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/7090b428d27aa72bcac52e85eb5a585b.jpeg\" \/><br \/>Procurador Lincoln Cordeiro [dir.], durante palestra em universidade do Paran\u00e1 \/ Divulga\u00e7\u00e3o\/FADEP<\/p>\n<p>Os problemas mais recorrentes na atividade s\u00e3o associados \u00e0 ergonomia: dist\u00e2ncias de alcance, ado\u00e7\u00e3o de posturas extremas e nocivas, amplitudes articulares e movimenta\u00e7\u00e3o manual de cargas excessivas e ritmo de trabalho intenso.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m do risco de acidentes, cortes, amputa\u00e7\u00f5es, ru\u00eddo excessivo, frio constante, exposi\u00e7\u00e3o a agentes biol\u00f3gicos, vazamento de am\u00f4nia, e situa\u00e7\u00f5es peculiares como a extrapola\u00e7\u00e3o do limite de horas extraordin\u00e1rias, em uma atividade em que s\u00e3o realizados movimentos repetitivos\u201d, acrescenta Cordeiro.<\/p>\n<p>Atua\u00e7\u00f5es incompat\u00edveis com a legisla\u00e7\u00e3o s\u00e3o frequentes, explicita o procurador.<\/p>\n<p>\u201cProntu\u00e1rios m\u00e9dicos que n\u00e3o permitem verificar as causas do adoecimento; aus\u00eancia de emiss\u00e3o da Comunica\u00e7\u00e3o de Acidente de Trabalho [CAT]; n\u00e3o ado\u00e7\u00e3o de medidas eficazes para reduzir o agravamento dos adoecimentos; exames m\u00e9dicos fora do prazo; atestados m\u00e9dicos de sa\u00fade ocupacional preenchidos sem os requisitos m\u00ednimos\u201d, enumera.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/5e3a67c19f2f8223ff532a3d263ed45c.jpeg\" \/><br \/>Mesmo antes da pandemia, trabalho em frigor\u00edficos j\u00e1 era associado a alto risco de acidentes e adoecimentos \/ MPT-RS\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Na interpreta\u00e7\u00e3o do economista Jos\u00e9 \u00c1lvaro de Lima Cardoso, doutor em Ci\u00eancias Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o\u00a0impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2016, abriu caminho para a precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho\u00a0\u2013 que se radicalizou na pandemia.<\/p>\n<p>\u201cEsse processo teve dois eixos fundamentais: o ataque aos direitos e o ataque \u00e0 soberania\u201d, define o especialista, que \u00e9 supervisor do\u00a0Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese)\u00a0em Santa Catarina e j\u00e1 assessorou trabalhadores do setor de abate em mesas de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNos \u00faltimos anos, presenciei v\u00e1rios trabalhadores sendo humilhados por empresas. Desde que a escravid\u00e3o foi abolida, a classe trabalhadora nunca foi t\u00e3o atacada.\u201d<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong>\u00a0Trabalhadores cruzam os bra\u00e7os na JBS contra ritmo \u201cdesumano\u201d de abate para exporta\u00e7\u00e3o em MS<\/p>\n<p>Em 2016, foi aprovada a\u00a0Emenda Constitucional 95, que limitou os investimentos p\u00fablicos em \u00e1reas priorit\u00e1rias por 20 anos. Em 2017, foi a vez da\u00a0reforma trabalhista, que anulou direitos previstos na Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho (CLT). Dois anos depois, entrou em vigor a\u00a0reforma da Previd\u00eancia, que adiou a aposentadoria de milh\u00f5es de trabalhadores.<\/p>\n<p>Cardoso afirma que o drama dos trabalhadores da alimenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 relacionado \u00e0 maneira como o Brasil se insere na din\u00e2mica da economia global. As privatiza\u00e7\u00f5es, a desindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e o atrelamento dos pre\u00e7os dos combust\u00edveis ao mercado internacional, nos \u00faltimos cinco anos, refor\u00e7am essa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO fato de o Brasil ser um\u00a0pa\u00eds subdesenvolvido, dependente, na periferia capitalista, que transfere riquezas ao centro, explica em parte a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalhador\u201d, enfatiza o economista.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, al\u00e9m da fun\u00e7\u00e3o de gerar lucro para os patr\u00f5es que vivem no pa\u00eds, o trabalhador precisa transferir lucro, do ponto de vista internacional \u2013 at\u00e9 para manter a classe trabalhadora do centro, dos EUA, em uma condi\u00e7\u00e3o relativamente apaziguada.\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/7ff360ba2241661bd5925d97c1a58f59.jpeg\" \/><br \/>Pandemia alavancou demanda externa por carne brasileira \/ Arte: Brasil de Fato<\/p>\n<p>Enquanto trabalhadores se sacrificam para atender \u00e0 demanda estrangeira, a carne se torna um produto de luxo no mercado interno. O pre\u00e7o aumentou 24,84% nos \u00faltimos doze meses, e 38,71% ao longo da pandemia. Nesse per\u00edodo, a renda m\u00e9dia do brasileiro caiu 9,4%, segundo a Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV).<\/p>\n<p>Sem dinheiro para comprar comida, no auge da crise sanit\u00e1ria,\u00a0125,6 milh\u00f5es de brasileiros conviveram com a inseguran\u00e7a alimentar. O n\u00famero equivale a 59,3% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e se baseia em pesquisa realizada entre agosto e dezembro de 2020 pela\u00a0<em>Freie Universit\u00e4t Berlin, na Alemanha<\/em>.<\/p>\n<p>O fim da contribui\u00e7\u00e3o sindical obrigat\u00f3ria, ap\u00f3s a reforma trabalhista, tamb\u00e9m \u00e9 um obst\u00e1culo nas negocia\u00e7\u00f5es com o empregador. Com as entidades representativas fragilizadas e 14 milh\u00f5es de desempregados, os trabalhadores perdem poder de barganha, abrindo caminho para a precariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA mesa de negocia\u00e7\u00e3o \u00e9 muito desigual. O patr\u00e3o est\u00e1 \u2018como o diabo gosta\u2019. S\u00e3o trabalhadores, em geral, com baixa escolaridade, com sindicato enfraquecido, contra multinacionais gigantescas\u201d, analisa o supervisor do Dieese em Santa Catarina.<\/p>\n<p><strong>:: MPT orienta pendura de 12 frangos vivos por minuto. Na JBS em Sidrol\u00e2ndia, o ritmo chegou a 22 por minuto na pandemia, segundo relatos de trabalhadores. Confira no v\u00eddeo abaixo ::<\/strong><\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><iframe title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aQDEeKcPdqU\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><br \/>(Imagens obtidas com exclusividade pelo Brasil de Fato)<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">\u201cTratados como lixo\u201d<\/p>\n<p>Lu\u00eds Antonio Montelo trabalhava no setor de abate da BRF em Rio Verde (GO) at\u00e9 meados de 2020, quando foi diagnosticado com covid-19. Revoltado com a situa\u00e7\u00e3o, postou um v\u00eddeo nas redes sociais responsabilizando a empresa pelo cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>\u201cSomos contaminados pelas m\u00e1scaras, que s\u00e3o usadas repetidamente. At\u00e9 certos cachorros est\u00e3o sendo cuidados melhor do que n\u00f3s por essa empresa. Temos sido tratados como lixo\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>A BRF demitiu o trabalhador por justa causa e\u00a0abriu um processo por danos morais. Em primeira inst\u00e2ncia, a ju\u00edza Valeria Cristina de Sousa Silva Elias Ramos, da 3\u00aa Vara do Trabalho de Rio Verde, negou a indeniza\u00e7\u00e3o pedida pela multinacional, mas determinou que Montelo tirasse o v\u00eddeo do ar.<\/p>\n<p>A BRF recorreu, alegando que o material teve 10 mil visualiza\u00e7\u00f5es antes de ser exclu\u00eddo e feriu a imagem da empresa. No \u00faltimo dia 1\u00ba de maio, em segunda inst\u00e2ncia, o Tribunal Regional do Trabalho da 18\u00aa Regi\u00e3o (TRT-18) determinou que o trabalhador indenizasse a multinacional em R$ 10 mil \u2013 al\u00e9m de pagar honor\u00e1rios aos advogados da BRF.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s recurso, o caso tramita em segredo de justi\u00e7a no Tribunal Superior do Trabalho (TST). Por determina\u00e7\u00e3o judicial, Montelo n\u00e3o pode falar com a imprensa.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/d7e73856fd9a56aec0545c5976dfc690.jpeg\" \/><br \/>Planta da BRF em Rio Verde (GO), onde Lu\u00eds Antonio Montelo trabalhava \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Polliana Seabra, advogada do trabalhador, conversou com o\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>. Ela interpreta que o objetivo da BRF \u00e9 desencorajar outros empregados a protestarem contra as condi\u00e7\u00f5es humilhantes de trabalho.<\/p>\n<p>\u201cEle foi punido duas vezes: condenado e demitido por justa causa. O v\u00eddeo foi gravado em um momento muito espec\u00edfico, em que o n\u00edvel de contamina\u00e7\u00e3o era alto, e a BRF teve que fechar as portas por 14 dias\u201d, lembra Seabra.<\/p>\n<p>A advogada contesta a pr\u00e1tica da multinacional. \u201cUma empresa dessa envergadura ter o nome manchado por um trabalhador? Eu entendo que foi uma forma que a empresa encontrou para coibir que outros funcion\u00e1rios fizessem o mesmo. Uma condena\u00e7\u00e3o alta dessas faz a cabe\u00e7a dos outros.\u201d<\/p>\n<p>Na mesma unidade da BRF, em Rio Verde, um trabalhador de 36 anos faleceu em decorr\u00eancia da covid-19, em junho de 2020. A empresa suspendeu as atividades, e s\u00f3 retomou ap\u00f3s testar todos os funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>A Brasil Foods S.A. disse prestar \u201ctodo apoio\u201d \u00e0 fam\u00edlia do empregado e ressaltou em nota que ele integrava o grupo de risco da doen\u00e7a e estava afastado das atividades desde abril.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">De Norte a Sul\u00a0<\/p>\n<p>Maior empresa de prote\u00edna animal do mundo, a JBS\/Seara possui 145 mil funcion\u00e1rios\u00a0distribu\u00eddos em 37 unidades de processamento de bovinos, 30 de aves e oito de su\u00ednos no Brasil. Sua carne \u00e9 exportada para mais de 150 pa\u00edses.\u00a0<\/p>\n<p>A BRF, segunda maior do ramo no pa\u00eds, exporta para mais de 130. Ela\u00a0possui 35 unidades produtivas com 88 mil trabalhadores, sem especificar quais animais s\u00e3o abatidos em cada uma delas.<\/p>\n<p>Os dois grupos concentram quase um quarto de todas as unidades frigor\u00edficas submetidas \u00e0 inspe\u00e7\u00e3o federal no Brasil.<\/p>\n<p>Em\u00a0decreto assinado no dia 20 de mar\u00e7o de 2020, Jair Bolsonaro (sem partido) incluiu a produ\u00e7\u00e3o de alimentos entre as atividades essenciais na pandemia.<\/p>\n<p>As caracter\u00edsticas da atividade de abate e processamento de carne chamaram aten\u00e7\u00e3o do MPT, que divulgou onze dias depois um documento que listava medidas preventivas a serem tomadas pelos abatedouros.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cAs mais relevantes foram a testagem massiva de plantas em caso de contamina\u00e7\u00e3o, testagem rotineira e utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e1scaras adequadas para ambientes fechados, e o afastamento imediato de trabalhadores do grupo de risco: ind\u00edgenas, quilombolas, gr\u00e1vidas e pessoas com mais de 60 anos\u201d, lembra o procurador Lincoln Roberto N\u00f3brega Cordeiro.<\/p>\n<p>Segundo ele, apenas algumas empresas adequaram suas atividades, o que levou o Minist\u00e9rio P\u00fablico a ajuizar a\u00e7\u00f5es civis p\u00fablicas.<\/p>\n<p>A BRF foi a primeira a firmar o compromisso nacionalmente.<\/p>\n<p>Em maio, a Procuradoria-Geral do Trabalho (PGT) realizou inspe\u00e7\u00f5es em mais de 60 frigor\u00edficos de onze estados diferentes. Oito unidades tiveram que paralisar as atividades em decorr\u00eancia de surtos do novo coronav\u00edrus entre os trabalhadores.<\/p>\n<p>Na lista, estava um frigor\u00edfico da JBS em S\u00e3o Miguel do Guapor\u00e9 (RO). A unidade s\u00f3 foi reaberta uma semana e meia depois, por determina\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a do Trabalho, ap\u00f3s a empresa detalhar as medidas de sa\u00fade e seguran\u00e7a que seriam adotadas.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as n\u00e3o provocaram o efeito esperado, e o frigor\u00edfico foi obrigado a fechar as portas temporariamente pela segunda vez, em junho. Em 20 dias, o n\u00famero de infectados no munic\u00edpio havia crescido 1.000% \u2013 a JBS \u00e9 a maior empregadora e era a \u00fanica grande ind\u00fastria funcionando na regi\u00e3o no per\u00edodo entre 26 de maio e 15 de junho de 2020.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">\u201cEst\u00e3o permitindo trabalhar com sintomas de gripe\u201d<\/p>\n<p>Conforme\u00a0reportado pela\u00a0<em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em>, 86 ind\u00edgenas da reserva Francisco Horta Barbosa, em Dourados (MS), foram atingidos por um surto que come\u00e7ou em um frigor\u00edfico da JBS. Em 28 dias, na cidade onde fica a reserva mais populosa do pa\u00eds, o n\u00famero de contaminados pelo novo coronav\u00edrus aumentou 3.500%.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), em conjunto com o MPT, refor\u00e7ou que as empresas deveriam afastar trabalhadores ind\u00edgenas sem cortes nos sal\u00e1rios no Mato Grosso do Sul, em Santa Catarina e no Paran\u00e1, mesmo que isso implicasse temporariamente na redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/dd68a61a1b34b7eff479179de8dd954e.jpeg\" \/><br \/>Pandemia alterou os perfis de adoecimento em frigor\u00edficos \/ Arte: Brasil de Fato<\/p>\n<p>No Sul do pa\u00eds, ainda segundo a\u00a0<em>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/em>, Lajeado (RS) tinha um dos cen\u00e1rios mais cr\u00edticos nos meses iniciais da pandemia. Em 22 de junho, a incid\u00eancia de casos no munic\u00edpio era de 1.873,5 a cada 100 mil habitantes \u2013 959 infectados s\u00f3 no frigor\u00edfico da BRF. Na capital Porto Alegre (RS), a 115 km de dist\u00e2ncia, o \u00edndice era de 114,2 a cada 100 mil.<\/p>\n<p>Um quarto dos cidad\u00e3os diagnosticados com covid no estado, \u00e0quela altura, eram trabalhadores do setor frigor\u00edfico.<\/p>\n<p>Na JBS em Passo Fundo, 112 funcion\u00e1rios foram contaminados, segundo dados do MPT em 18 de abril de 2020. A empresa contestou a informa\u00e7\u00e3o e reconheceu apenas 29.<\/p>\n<p>Em todo o pa\u00eds, foram ajuizadas mais de 30 a\u00e7\u00f5es civis p\u00fablicas e firmados Termos de Ajuste de Conduta (TACs) com 80 frigor\u00edficos, incluindo a BRF em Lajeado e a JBS em Passo Fundo.<\/p>\n<p>Dez empresas se comprometeram a adotar normas mais seguras de funcionamento. Entre as grandes do setor, a JBS foi a \u00fanica a n\u00e3o firmar as medidas propostas pelo MPT e a primeira condenada por dano moral coletivo na pandemia.<\/p>\n<p>A unidade alvo da condena\u00e7\u00e3o foi justamente a de S\u00e3o Miguel do Guapor\u00e9, em 14 de mar\u00e7o de 2021. Conforme decis\u00e3o da 2\u00aa Vara do Trabalho de Ji-Paran\u00e1 (RO), houve \u201cdescaso da empresa em proceder ao imediato afastamento dos empregados do trabalho, ao apresentarem sintomas suspeitos da covid-19\u201d. Tamb\u00e9m foram constatados o mau funcionamento do setor m\u00e9dico da unidade e o descontrole de aglomera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A JBS foi condenada a pagar R$ 20 milh\u00f5es pelos danos causados em suas instala\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>Na unidade de Passo Fundo, interditada mais de uma vez, o MPT apontou em a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica as irregularidades mais graves: \u201c[Os trabalhadores] est\u00e3o em ambiente confinado, sem fornecimento de m\u00e1scaras, trabalhando lado a lado, com dist\u00e2ncia de 30 cm no m\u00e1ximo. Quatro pessoas foram suspeitas de estar com o coronav\u00edrus e estas foram afastadas. Est\u00e3o permitindo trabalhar com sintomas de gripe, s\u00f3 retirando se houver febre.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Questionadas, a JBS e a BRF n\u00e3o informaram o n\u00famero total de contamina\u00e7\u00f5es e \u00f3bitos de trabalhadores em suas unidades.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cO MPT continua trabalhando em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 covid-19, posto que a pandemia ainda n\u00e3o acabou. Ainda que estejamos caminhando com a vacina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se adequar \u00e0s medidas cient\u00edficas recomendadas \u00e9 correr o risco de uma explos\u00e3o de casos novamente\u201d, ressalta o vice-gerente do projeto nacional de frigor\u00edficos, Lincoln Cordeiro.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/0a2e611d647ca1596bb6931300662203.jpeg\" \/><br \/>Com desemprego em alta e queda no poder de compra, brasileiros consomem menos carne bovina na pandemia \/ Miguel Schincariol\/AFP<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">F\u00e1brica de moer vidas<\/p>\n<p>Era quase uma hora da madrugada do dia 7 de outubro de 2021, quando trabalhadores da JBS no bairro Bortolotto, em Nova Veneza (SC), se depararam com uma cena de filme de horror. Um homem sem a m\u00e3o esquerda, com o bra\u00e7o ensanguentado, corria pela f\u00e1brica gemendo de dor.<\/p>\n<p>Dois colegas o socorreram, ajudaram a estancar o sangramento e levaram o trabalhador ao hospital mais pr\u00f3ximo, com o carro da empresa.<\/p>\n<p>Quem ficou no frigor\u00edfico se recusou a voltar ao expediente: cruzaram os bra\u00e7os diante da trag\u00e9dia, que poderia ter ocorrido com qualquer um deles.<\/p>\n<p>O homem ensanguentado era Diakson Scherer Martins, 31 anos, casado, pai de um menino de 8 anos e trabalhador do setor de limpeza e higieniza\u00e7\u00e3o da JBS. Foram 23 dias entre o Hospital S\u00e3o Jos\u00e9 e o Hospital S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, e quatro cirurgias no total.<\/p>\n<p>Uma das opera\u00e7\u00f5es foi para reimplantar a m\u00e3o cortada, que havia ficado pendurada na m\u00e1quina. Por cinco dias, a fam\u00edlia acreditou que tudo voltaria ao normal, at\u00e9 a m\u00e3o de Diakson necrosar e precisar ser amputada.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/bf2f14cb5941ea8d616f0529b54d4b42.jpeg\" \/><br \/>Diakson Scherer Martins: \u201cMesmo que pegue uma indeniza\u00e7\u00e3o da empresa, nada vai trazer minha m\u00e3o de volta\u201d\u00a0\/ Arquivo pessoal<\/p>\n<p>O trabalhador havia sido contratado seis meses antes pela JBS. Logo nas primeiras semanas de trabalho, pegou covid, passou para seu filho e ficou 14 dias em isolamento.<\/p>\n<p>O turno de trabalho de Diakson era das 22h \u00e0s 5h40. Na madrugada do acidente, ele higienizava o tanque de escaldagem. \u00c9 onde as aves recebem \u00e1gua quente, para facilitar a retirada das penas.<\/p>\n<p>Depois de colocar os equipamentos de seguran\u00e7a, ele se aproximou da n\u00f3ria, estrutura usada para transportar carca\u00e7as de animais penduradas durante cada etapa de processamento nos frigor\u00edficos.<\/p>\n<p>\u201cComo de costume, eu chegava, enxaguava e retirava as penas das rodas da n\u00f3ria. Depois, desligava a n\u00f3ria, esvaziava o tanque e come\u00e7ava a higieniza\u00e7\u00e3o\u201d, lembra.<\/p>\n<p>\u201cQuando eu estava lavando o fundo do tanque com meu bra\u00e7o esquerdo, a n\u00f3ria ligou, simplesmente do nada. N\u00e3o tinha nenhum cord\u00e3o de bloqueio, nada. Comecei a gritar, berrar para eles desligarem. Nisso, arrancou a minha m\u00e3o, e ningu\u00e9m apareceu para desligar.\u201d<\/p>\n<p>Todos os colegas do turno estavam distantes e ocupados, por isso n\u00e3o conseguiram socorr\u00ea-lo a tempo.<\/p>\n<p><strong>:: Confira no v\u00eddeo abaixo\u00a0como\u00a0funciona\u00a0a n\u00f3ria, estrutura citada pelo entrevistado ::<\/strong><\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><iframe title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OqTk7-TRwFY\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><br \/>(Imagens obtidas com exclusividade pelo Brasil de Fato)<\/p>\n<p>Diakson Scherer Martins diz ter alertado a empresa, quase seis meses antes, sobre os riscos da falta de um bot\u00e3o ou corda de bloqueio. \u201cResponderam que iriam dar um jeito. Isso foi logo que eu entrei. Passaram meses, e ningu\u00e9m deu jeito\u201d, lembra.<\/p>\n<p>\u201cIsso \u00e9 o que me deixa mais indignado: eles esperam o cara quase morrer l\u00e1 dentro para dar jeito nas coisas. Mesmo que pegue uma indeniza\u00e7\u00e3o da empresa, nada vai trazer minha m\u00e3o de volta.\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Vamos aos n\u00fameros<\/p>\n<p>Embora o caso de Diakson n\u00e3o pare\u00e7a ter rela\u00e7\u00e3o direta com a covid, a eleva\u00e7\u00e3o da produtividade na pandemia agravou as estat\u00edsticas de acidentes de trabalho no abate e processamento de aves.<\/p>\n<p>Seja pelo ritmo exaustivo ou pela neglig\u00eancia das empresas com itens b\u00e1sicos de seguran\u00e7a, em 2020 foram registrados em m\u00e9dia 19 acidentes por dia, quase um por hora.<\/p>\n<p>O primeiro trimestre de 2021, que marcou a escalada de casos e \u00f3bitos por covid-19 no Brasil, confirmou a tend\u00eancia de aumento da produ\u00e7\u00e3o nos frigor\u00edficos.<\/p>\n<p>O abate de su\u00ednos cresceu 5,7% e o de frangos, 3,3% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo do ano anterior,\u00a0segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>A reportagem levantou\u00a0dados da Secretaria de Inspe\u00e7\u00e3o do Trabalho (SIT) do Minist\u00e9rio da Economia\u00a0sobre os frigor\u00edficos em 2020, ano da pandemia, em compara\u00e7\u00e3o com os dois anos anteriores. As estat\u00edsticas de 2021 ainda n\u00e3o foram divulgadas.<\/p>\n<p>O n\u00famero de acidentes no setor de abate de animais entre 2018 e 2020 permaneceu est\u00e1vel: cerca de 17,4 mil. Por\u00e9m, quando se analisam apenas os n\u00fameros de acidentes por doen\u00e7a, houve um salto consider\u00e1vel: de 661 casos em 2018 e 654 em 2019, o n\u00famero passou para 1.197, quase o dobro.<\/p>\n<p>O perfil dos adoecimentos tamb\u00e9m revela o impacto da covid. Entre 2018 e 2019, cerca de 40% eram causados por esfor\u00e7o repetitivo, que se refletiam em inflama\u00e7\u00f5es nas articula\u00e7\u00f5es, principalmente no ombro e no punho. Em 2020, a causa mais recorrente de adoecimentos no abate (71,3%) era relacionada a \u201ccontato com pessoas doentes\u201d.<\/p>\n<p>No primeiro ano da pandemia, a parte do corpo atingida com mais frequ\u00eancia foi o aparelho respirat\u00f3rio, com 70% dos casos de adoecimento \u2013 quase oito vezes mais que o ombro, que geralmente encabe\u00e7a a lista. Em 2018 e 2019, antes da covid, o aparelho respirat\u00f3rio sequer constava no ranking das ocorr\u00eancias mais frequentes.<\/p>\n<p>O abate de aves, que\u00a0registrou aumento da produ\u00e7\u00e3o sem a devida recomposi\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra\u00a0em diferentes frigor\u00edficos durante a pandemia, concentra 725 dos 1.197 acidentes por doen\u00e7a do trabalho no setor. \u00a0<\/p>\n<p>As curvas s\u00e3o semelhantes \u00e0s do abate de animais em geral, com uma diferen\u00e7a marcante: o n\u00famero de acidentes, como um todo \u2013 n\u00e3o apenas por doen\u00e7as. Em 2018, foram 5.467 epis\u00f3dios; em 2019, a SIT registrou 6.199. No primeiro ano da crise sanit\u00e1ria, o n\u00famero saltou para 6.953 no abate de frango, um salto de quase 12%.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/f61ad9933f50c42ce65c0b413d9eae58.jpeg\" \/><br \/>No primeiro ano da pandemia, n\u00famero de acidentes no abate de aves bateu recorde \/ Arte: Brasil de Fato<\/p>\n<p>Vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Ind\u00fastrias de Carnes e Alimenta\u00e7\u00e3o, Similares e Derivados de Sidrol\u00e2ndia (Sindaves), S\u00e9rgio Bolzan observa que os n\u00fameros ainda n\u00e3o refletem a realidade de exaust\u00e3o no ch\u00e3o de f\u00e1brica.<\/p>\n<p>\u201cMais les\u00f5es por esfor\u00e7o repetitivo, que s\u00e3o reflexo do aumento do ritmo de trabalho, v\u00e3o come\u00e7ar agora. Geralmente, elas aparecem 6 a 8 meses depois\u201d, relata. \u201cMuitos trabalhadores da unidade j\u00e1 est\u00e3o pedindo as contas, porque n\u00e3o aguentam mais.\u201d<\/p>\n<p>Na unidade da JBS no munic\u00edpio, 493 trabalhadores que integravam grupos de risco foram afastados na pandemia \u2013 ind\u00edgenas, hipertensos, diab\u00e9ticos e gestantes. Mesmo assim, o ritmo de abate aumentou.<\/p>\n<p>\u201cDe 180 mil frangos por dia, que eram abatidos com tr\u00eas turnos de trabalho de 7h22,\u00a0nos \u00faltimos dois anos passamos a abater em m\u00e9dia 205 mil por dia\u201d, explica Bolzan.<\/p>\n<p>Ainda\u00a0segundo o dirigente, funcion\u00e1rios da JBS que trabalham de segunda a s\u00e1bado foram convidados pela empresa para um churrasco neste ano. O\u00a0<strong>Brasil de Fato\u00a0<\/strong>noticiou o caso com exclusividade\u00a0em setembro.\u00a0A inten\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s desse convite\u00a0era atrair os trabalhadores \u00e0 unidade e convenc\u00ea-los a abrir m\u00e3o do repouso semanal previsto em lei.<\/p>\n<p>O caso foi denunciado na Procuradoria Regional do Trabalho da 24\u00aa Regi\u00e3o e o sindicato ingressou com uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica na Justi\u00e7a do Trabalho. Em paralelo, a proposta foi rejeitada em uma assembleia com mais de mil trabalhadores, e o Sindaves foi proibido de assinar qualquer contrato de trabalho aos domingos.<\/p>\n<p>O aumento do ritmo de produ\u00e7\u00e3o ocorre de forma desigual entre as unidades.<\/p>\n<p>\u201cO MPT orienta a pendura de 12 frangos vivos por minuto. Na unidade de Sidrol\u00e2ndia, o ritmo subiu para 22 por minuto na pandemia\u201d, relata o dirigente do Sindicato de Trabalhadores da Ind\u00fastria da Alimenta\u00e7\u00e3o de Crici\u00fama (SC) e Regi\u00e3o, C\u00e9lio Elias.<\/p>\n<p>\u201cNa unidade de Forquilhinha [SC], que tem o mesmo mix de produ\u00e7\u00e3o, o ritmo de pendura \u00e9 menor, mesmo com um n\u00famero maior de trabalhadores.\u201d<\/p>\n<p>\u200bAntes da pandemia, a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 era grave em todas as etapas da produ\u00e7\u00e3o na unidade sul-matogrossense.<\/p>\n<p>Abmael dos Santos tem 48 anos e dedicou os \u00faltimos 29 \u00e0 JBS\/Seara. Sempre trabalhou no incubat\u00f3rio, onde os pintinhos machos s\u00e3o separados das f\u00eameas.\u00a0<\/p>\n<p>Quando completou 15 anos de empresa, as les\u00f5es ocasionadas pelos movimentos repetitivos e o ritmo acelerado come\u00e7aram a provocar dores agudas.<\/p>\n<p>Em 2018, o quadro se tornou insuport\u00e1vel, e Abmael fez sua primeira cirurgia. De l\u00e1 para c\u00e1, foi submetido a outras cinco: operou os punhos, os dois cotovelos e cada lado do ombro.<\/p>\n<p>Hoje, afastado do trabalho por recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, ele recorda a rotina de press\u00e3o dos supervisores para cumprir a meta: identificar o sexo de 2,6 mil pintinhos por hora, ou 43 por minuto.<\/p>\n<p>O trabalhador relembra as acusa\u00e7\u00f5es de \u201ccorpo mole\u201d, vindas de alguns de seus pr\u00f3prios colegas, eleitos pelo supervisor para liderar a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das dores f\u00edsicas, Abmael sofre de depress\u00e3o e diz que se considera \u201cum fracassado\u201d pela forma como foi tratado pela empresa. Desde que adoeceu, nenhum representante da JBS o procurou para saber como estava.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/b09e481b10f645700bff829029106ad9.jpeg\" \/><br \/>Consumo de frango cresceu dentro e fora do Brasil em 2020 \/ Rodrigo Fonseca\/AFP<\/p>\n<p>Os colegas com quem Abmael ainda tem contato dizem que o ritmo de produ\u00e7\u00e3o cresceu na pandemia.<\/p>\n<p>\u201cIsso poderia ser evitado no setor, de a gente ficar doente. Se tivesse uma pessoa ali, um supervisor ou t\u00e9cnico de seguran\u00e7a&#8230; Apesar que tem. Mas, se tivesse algu\u00e9m orientando que aquilo poderia machucar a gente, hoje eu n\u00e3o estaria nessa situa\u00e7\u00e3o\u201d, conta o trabalhador.<\/p>\n<p>\u201cEu estou perdendo a for\u00e7a, o movimento, cheguei a chorar de dor. Precisei tomar rem\u00e9dio para dormir, tive depress\u00e3o. A tristeza bate, e tenho pesadelos di\u00e1rios com as m\u00e1quinas.\u201d<\/p>\n<p>Relatos de pesquisadores que estudam a realidade no ch\u00e3o de f\u00e1brica mostram que a pandemia apenas radicalizou as press\u00f5es e os riscos aos trabalhadores de frigor\u00edficos.<\/p>\n<p>\u201cCom suas bases no agroneg\u00f3cio, as empresas focam na produtividade e, consequentemente, no lucro; dando l\u00f3gica ao sistema capitalista\u201d, escreveu Gabriela Chaves Marra em 2019, em\u00a0tese de doutorado apresentada ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade P\u00fablica da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica S\u00e9rgio Arouca, na Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz).<\/p>\n<p>\u201cO processo de intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho dos frigor\u00edficos, aliado aos fatores de riscos ambientais aos quais os trabalhadores est\u00e3o expostos, tais como: frio, ru\u00eddo, umidade, pisos escorregadios e equipamentos inadequados, sobrecarregam o trabalho. (&#8230;) Os trabalhadores est\u00e3o expostos a press\u00f5es psicol\u00f3gicas para dar conta do ritmo intenso de produ\u00e7\u00e3o. Cobra-se destes trabalhadores um alto n\u00edvel de produtividade\u201d, descreveu.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Abalo psicol\u00f3gico<\/p>\n<p>O impacto da pandemia nos frigor\u00edficos n\u00e3o pode ser medido apenas pelo n\u00famero de les\u00f5es ou v\u00edtimas fatais.<\/p>\n<p>Lourdes Aparecida dos Reis, 39, trabalhou por 11 anos na JBS em Nova Veneza. Como tinha fibromialgia e asma, ficou quatro meses afastada do trabalho.<\/p>\n<p>\u201cNo come\u00e7o de novembro [de 2020], mandaram a gente fazer um teste: quem tivesse com a respira\u00e7\u00e3o melhor, voltava a trabalhar. Ela voltou tr\u00eas dias antes de mim\u201d, conta Val\u00e9ria Alexandre, 31, colega e melhor amiga de Lourdes, que tamb\u00e9m \u00e9 do grupo de risco.<\/p>\n<p>Ao retornar, elas perceberam que v\u00e1rios protocolos eram descumpridos. \u201cPara ir \u00e0 unidade, de manh\u00e3, a empresa disponibilizava dois \u00f4nibus. Para voltar, era s\u00f3 um. Quando pergunt\u00e1vamos o porqu\u00ea, diziam que era porque de manh\u00e3 tinha fiscaliza\u00e7\u00e3o, de noite n\u00e3o. As pessoas se sentavam de duas em duas, com a janela fechada, muita gente conversando sem m\u00e1scara.\u201d\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/a7da8102fd94d22cf6e2483033f472a8.jpeg\" \/><br \/>Lourdes se dedicou por mais de 10 anos \u00e0 JBS at\u00e9 realizar o sonho da casa pr\u00f3pria \/ Arquivo pessoal<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/874e126137cadb8576ac9cf88b12473e.jpeg\" \/><br \/>V\u00edtima da covid-19, ela morou na casa nova por menos de um m\u00eas \/ Arquivo pessoal<\/p>\n<p>Val\u00e9ria revezava as tarefas com Lourdes na JBS: \u201cEu refilava o peito, tirava o osso e a pele do frango, e ela ficava na escolha. Depois de meia hora, a gente revezava. Era uma irm\u00e3 para mim.\u201d<\/p>\n<p>Foram 10 anos de companheirismo, e n\u00e3o s\u00f3 no frigor\u00edfico. Elas passavam juntas os fins de semana, anivers\u00e1rios e at\u00e9 o Natal. Lourdes tornou-se madrinha do filho de Val\u00e9ria, que \u00e9 autista.<\/p>\n<p>\u201cA Lourdes teve que pegar f\u00e9rias em mar\u00e7o [de 2021]. N\u00e3o saiu de casa, e voltou no dia 14 de abril, uma quarta-feira. No s\u00e1bado, n\u00e3o ficou bem. No domingo \u00e0 noite, pediu para ir no hospital\u201d, relembra a amiga.<\/p>\n<p>Conforme o quadro piorava, as duas foram juntas a quatro hospitais diferentes. Lourdes fez quatro testes at\u00e9 confirmar que havia contra\u00eddo covid. \u00c0quela altura, 80% do pulm\u00e3o j\u00e1 estava comprometido.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria n\u00e3o tem d\u00favidas de que a amiga se contaminou no frigor\u00edfico. \u201cEla n\u00e3o sa\u00eda h\u00e1 dois anos por causa da pandemia e evitava todo tipo de contato. Quando foi para a casa nova, n\u00e3o contratou ningu\u00e9m para fazer a mudan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>At\u00e9 o diagn\u00f3stico, foi um longo caminho. Val\u00e9ria chegou a pensar que a amiga estava com asma ou pneumonia, e indicou que ela fizesse nebuliza\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, Lourdes continuava fraca, sem apetite, com febre e falta de ar.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/cc14b31bb46d2b134961ebfa3d7eb99a.jpeg\" \/><br \/>Antes de descobrir que estava com covid-19, Lourdes fez nebuliza\u00e7\u00e3o e recebeu os cuidados da amiga Val\u00e9ria \/ Arquivo pessoal<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a descoberta da covid, a trabalhadora da JBS passou 43 dias entubada em S\u00e3o Jos\u00e9 (SC). A alta, prevista para 15 de maio, foi suspensa ap\u00f3s uma piora repentina.<\/p>\n<p>Lourdes enfrentou uma bact\u00e9ria secund\u00e1ria no pulm\u00e3o; em seguida, um fungo come\u00e7ou a se multiplicar pelo \u00f3rg\u00e3o, j\u00e1 comprometido.<\/p>\n<p>A not\u00edcia do falecimento veio em 9 de junho, e Val\u00e9ria nunca superou a perda:<\/p>\n<p>\u201cEstou traumatizada com hospital, com pessoas, escuro. N\u00e3o consegui voltar a trabalhar, nem sair na rua sozinha. Minha conta de energia veio R$ 400, porque estou sempre com a luz acesa. Estou encostada pelo INSS, posso ficar em casa at\u00e9 30 de novembro, mas n\u00e3o vou conseguir voltar. Vou pedir as contas\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>\u201cMeu filho tem 13 anos e n\u00e3o entende [a aus\u00eancia de Lourdes]. Ele pensa que, quando acabar a covid, ela vai voltar. Eu, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m n\u00e3o entendo.\u201d<\/p>\n<p>A trabalhadora, que fez uma tatuagem em homenagem \u00e0 amiga, diz que a JBS tem responsabilidade sobre a morte de Lourdes.<\/p>\n<p>\u201cEles forneciam m\u00e1scara, \u00e1lcool em gel. Mas, assim que veio a not\u00edcia da vacina, come\u00e7aram a tirar tudo: as tendas de triagem, as mesas extras para as pessoas manterem distanciamento\u201d, relata Val\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u201cEu tinha planos, estava estudando, mas agora tanto faz estar viva, morrer. Tenho medo de voltar ao trabalho, porque n\u00e3o tenho mais nada a perder. Se eu vir alguma coisa errada, tem grande chance de eu fazer uma besteira, ou agredir algu\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/be8874f73434ab905eb2a3410ba1a760.jpeg\" \/><br \/>\u00c0 esquerda, as duas amigas juntas, antes da pandemia; ao centro, o filho de Val\u00e9ria chora sobre o t\u00famulo da madrinha; \u00e0 direita, a tatuagem em homenagem a Lourdes \/ Arquivo pessoal<\/p>\n<p>Val\u00e9ria hoje busca tratamento psiqui\u00e1trico, e se emociona lembrando que a amiga trabalhou por d\u00e9cadas at\u00e9 construir uma casa \u2013 que sequer conseguiu aproveitar.<\/p>\n<p>\u201cA gente n\u00e3o vale nada l\u00e1 dentro [do frigor\u00edfico]. Ela morreu, e agora tem outro no lugar. Simples assim. Eles n\u00e3o est\u00e3o ligando: querem lucro, e r\u00e1pido. N\u00e3o querem ter despesa com a gente. Se um morrer, tanto faz; contrata outro e deu\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>\u201cSempre foi assim: quando as pessoas v\u00eam fiscalizar, \u00e9 tudo lindo, todos os protocolos corretos. Depois que a fiscaliza\u00e7\u00e3o sai, \u00e9 gente grudada em gente, m\u00e1scara no queixo, gente comendo no vesti\u00e1rio, todo mundo grudado na fila da janta.\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Mortes e acidentes al\u00e9m da covid-19<\/p>\n<p>N\u00e3o se adoece e morre apenas por covid-19 nos frigor\u00edficos brasileiros. Embora o novo coronav\u00edrus tenha assumido protagonismo entre as causas de afastamento, as diferentes possibilidades de acidentes de trabalho e mortes no setor s\u00e3o espantosas.<\/p>\n<p>O setor de frigor\u00edficos registra\u00a0entre 50 e 60 acidentes por dia; os mais recorrentes envolvem cortes ou mutila\u00e7\u00f5es com faca.<\/p>\n<p>H\u00e1 casos de\u00a0funcion\u00e1rios que morreram soterrados em armaz\u00e9ns de gr\u00e3os, como ocorreu em Nova Veneza, em junho deste ano. Um trabalhador de 26 anos caiu em um silo, enquanto fazia a manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o raros os acidentes que envolvem corpos triturados. Foi o que aconteceu com um funcion\u00e1rio de 37 anos da unidade da JBS de Dourados (MS), em agosto, ap\u00f3s cair em uma m\u00e1quina de misturar hamb\u00fargueres. Em S\u00e3o Jos\u00e9 (SC), a 1,2 mil km de dist\u00e2ncia, um trabalhador de 45 anos morreu de forma semelhante, tamb\u00e9m em meio \u00e0 pandemia.<\/p>\n<p>Nesse \u00faltimo caso, a trag\u00e9dia ocorreu enquanto ele fazia a manuten\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>chiller\u00a0<\/em>de resfriamento, equipamento que refrigera l\u00edquidos durante o processo produtivo. Segundo relatos de colegas dirigentes sindicais,\u00a0Itamar Bedin teria escorregado e ficado com o pesco\u00e7o travado entre o helicoide \u2013 superf\u00edcie em formato de h\u00e9lice, dentro do\u00a0<em>chiller<\/em>\u00a0\u2013 e a parede do equipamento.<\/p>\n<p>Outro acidente comum \u00e9 a contamina\u00e7\u00e3o de trabalhadores por am\u00f4nia, composto t\u00f3xico usado em sistemas de refrigera\u00e7\u00e3o.\u00a0O\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>\u00a0contabilizou\u00a0os casos publicados em ve\u00edculos de imprensa:\u00a0desde 2014, foram noticiados ao menos dez casos, com 316 trabalhadores atingidos.\u00a0<\/p>\n<p>Os dados revelam apenas\u00a0a ponta de um\u00a0<em>iceberg<\/em>, avalia o perito em Engenharia de Seguran\u00e7a do Trabalho do MPT, Fernando Alves Leite. \u201cEm praticamente todas as plantas em que eu j\u00e1 estive [de todas as empresas], h\u00e1 relatos, provas documentais ou investiga\u00e7\u00e3o de acidentes com am\u00f4nia\u201d.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/559acfedbd10e30e0ba92d1696001978.jpeg\" \/><br \/>Lan\u00e7amento da campanha \u201cA Carne mais Barata do Frigor\u00edfico \u00e9 a do Trabalhador&#8221;\u00a0em Sidrol\u00e2ndia, em agosto de 2020 \/ Contac-CUT<\/p>\n<p>Ao todo, 49 funcion\u00e1rios sofreram\u00a0acidentes graves ou morreram em unidades frigor\u00edficas no Brasil\u00a0em 2021. Cerca de 71% dos casos levantados, que poderiam\u00a0ser evitados com o respeito \u00e0s normas vigentes no pa\u00eds, ocorreram em unidades da JBS:<\/p>\n<p><strong>Fevereiro<\/strong><br \/>Morre o t\u00e9cnico eletromec\u00e2nico Itamar Bedin (45 anos) em um acidente de trabalho dentro da f\u00e1brica da JBS em S\u00e3o Jos\u00e9 (SC).<\/p>\n<p><strong>Junho<\/strong><br \/>Morre trabalhador (26 anos), ap\u00f3s ficar coberto por gr\u00e3os na empresa JBS, no bairro Bortolotto, em Nova Veneza (SC).<br \/>Em frigor\u00edfico da Aurora Alimentos, em Tapejara (RS), 35 funcion\u00e1rios s\u00e3o hospitalizados com dificuldades de respirar, ap\u00f3s vazamento de am\u00f4nia. \u00a0<\/p>\n<p><strong>Julho<\/strong><br \/>Tr\u00eas trabalhadores se afogaram no tanque de um frigor\u00edfico em Bocai\u00fava do Sul, na regi\u00e3o metropolitana de Curitiba (PR). Eles inalaram metabissulfito de s\u00f3dio que, em contato com a \u00e1gua, \u00e9 avaliado como \u201cde insalubridade m\u00e1xima\u201d. Dois funcion\u00e1rios ficaram gravemente feridos e um morreu.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Agosto<\/strong><br \/>Morre Rodrigo Roa Alves (37 anos), funcion\u00e1rio da unidade da JBS de Dourados (MS), ap\u00f3s cair em uma m\u00e1quina de misturar hamb\u00fargueres.<\/p>\n<p><strong>Setembro<\/strong><br \/>Saulo Medeiros de Lima (39 anos), funcion\u00e1rio da JBS na unidade de Santo In\u00e1cio (PR), morre ap\u00f3s sofrer acidente que retirou seu bra\u00e7o durante a limpeza de uma m\u00e1quina de moer restos de frango. \u00a0<\/p>\n<p><strong>Outubro<\/strong><br \/>Diakson Scherer Martins (31 anos) tem a m\u00e3o amputada ap\u00f3s acidente na unidade da JBS de Nova Veneza (SC).<\/p>\n<p><strong>Novembro<\/strong><br \/>Em Rio Verde (GO), seis funcion\u00e1rios s\u00e3o hospitalizados ap\u00f3s vazamento de am\u00f4nia na unidade da BRF Foods. Todos os trabalhadores tiveram que evacuar o local.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Pode piorar<\/p>\n<p>Em meio a adoecimentos, mortes de trabalhadores e luto de familiares e amigos, persiste o processo de revis\u00e3o de normas que regulamentam o trabalho nos frigor\u00edficos.<\/p>\n<p>No Congresso, o\u00a0Projeto de Lei (PL) n\u00ba 2.363\/2011\u00a0tenta modificar o artigo 253 da CLT que garante pausas de recupera\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica de 20 minutos a cada 1h40 de jornada nos frigor\u00edficos.<\/p>\n<p>Se o texto for aprovado,\u00a0s\u00f3 ter\u00e3o direito \u00e0 pausa os que trabalham em temperaturas inferiores a 4\u00baC, para as atividades em c\u00e2mara frigor\u00edfica, ou que se movimentam de um ambiente a outro da f\u00e1brica, com varia\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica superior a 10\u00baC.<\/p>\n<p>De autoria do ex-deputado federal Silvio Costa (PMN), o PL vai ao encontro das propostas de empres\u00e1rios ligados \u00e0\u00a0Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI)\u00a0e \u00e0 ABPA, que representam empresas como JBS e BRF.<\/p>\n<p>Em nota t\u00e9cnica divulgada em mar\u00e7o deste ano, procuradores do MPT alertaram que, em caso de aprova\u00e7\u00e3o do projeto, 95% dos trabalhadores de frigor\u00edficos perderiam o direito \u00e0 pausa t\u00e9rmica.<\/p>\n<p>O PL aguarda delibera\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o de Trabalho, de Administra\u00e7\u00e3o e Servi\u00e7o P\u00fablico da C\u00e2mara Federal, que decidir\u00e1 se o texto segue para a Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a e de Cidadania.<\/p>\n<p>O projeto tramita em car\u00e1ter conclusivo nas comiss\u00f5es, ou seja, n\u00e3o depende de aprova\u00e7\u00e3o do Plen\u00e1rio.<\/p>\n<p>A pausa t\u00e9rmica \u00e9 assegurada pela Norma Regulamentadora (NR) n\u00ba 36, publicada em abril de 2013 ap\u00f3s discuss\u00f5es entre ind\u00fastria, entidades sindicais e governo.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Brasileira de Avicultura (Ubabef)\u00a0e a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria Produtora e Exportadora de Carne Su\u00edna (Abipecs) se posicionaram contra esse direito na \u00e9poca.<\/p>\n<p>As duas entidades, hoje extintas, participavam da mesa tripartite que aprovou a vers\u00e3o final da NR 36, mas foram derrotadas. Em 2014, elas\u00a0se fundiram para formar a ABPA.<\/p>\n<p><strong>:: Relembre o protesto realizado por trabalhadores contra o descaso dos frigor\u00edficos\u00a0em S\u00e3o Paulo (SP), em setembro de 2020\u00a0::<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QRfmQi1nD8Q\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Frigor\u00edficos v\u00eam respondendo judicialmente h\u00e1 anos por descumprimentos trabalhistas anteriores \u00e0 2020, mas que se relacionam com situa\u00e7\u00f5es observadas na crise pand\u00eamica. Ao menos duas senten\u00e7as relacionadas \u00e0 pausa t\u00e9rmica foram julgadas recentemente.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2020, a 3\u00aa turma do TST decidiu, em ac\u00f3rd\u00e3o de relatoria do ministro Alexandre Agra Belmonte, favoravelmente ao pedido de um trabalhador da BRF por horas extras em 2017, alegando que a empresa n\u00e3o garantiu os intervalos previstos em lei.<\/p>\n<p>Decis\u00e3o semelhante ocorreu em abril deste ano, ap\u00f3s a\u00e7\u00e3o proposta pelo MPT em Mato Grosso. A unidade da JBS em Diamantino (MT) foi obrigada a pagar R$ 1 milh\u00e3o por danos morais coletivos por desrespeitar as pausas t\u00e9rmicas.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Hist\u00f3rico e revis\u00e3o da NR 36<\/p>\n<p>O Brasil tem 36 normas regulamentadoras em vigor, desenvolvidas pelo extinto Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego (MTE).<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es de trabalho em frigor\u00edficos passaram a ter maior aten\u00e7\u00e3o no final dos anos de 1990. Em 2000, o governo criou a Comiss\u00e3o Nacional de Ergonomia (CNE).<\/p>\n<p>As discuss\u00f5es sobre a NR 36 come\u00e7aram em 2004, com a cria\u00e7\u00e3o de equipes de pesquisa no setor de frigor\u00edficos e da constru\u00e7\u00e3o de uma nota t\u00e9cnica sobre o funcionamento da ind\u00fastria do abate pelo Departamento de Seguran\u00e7a e Sa\u00fade no Trabalho da Secretaria de Inspe\u00e7\u00e3o do Trabalho (DSST\/SIT).<\/p>\n<p>O texto t\u00e9cnico da norma foi desenvolvido pelo Grupo de Estudo Tripartite (GET) criado em 2011. Em seguida, foi constitu\u00eddo um Grupo de Trabalho Tripartite (GTT), que analisou as sugest\u00f5es a partir de consulta p\u00fablica.<\/p>\n<p>Em 2012, o texto final foi aprovado na 71\u00aa Reuni\u00e3o da Comiss\u00e3o Tripartite Parit\u00e1ria Permanente (CTPP). Ent\u00e3o ministro do Trabalho e Emprego, Manoel Dias assinou a publica\u00e7\u00e3o da NR n\u00ba 36 em 18 de abril de 2013, por meio da\u00a0portaria n\u00ba 555.<\/p>\n<p>A reportagem confirmou a participa\u00e7\u00e3o de 32 pessoas na 71\u00aa Reuni\u00e3o da CTPP, quando o\u00a0texto final da NR 36\u00a0foi aprovado: 12 representavam o governo, 12 o setor empresarial, e oito o movimento sindical.<\/p>\n<p>Uma delas era Roberto Carlos Ruiz, m\u00e9dico do trabalho, mestre em Sa\u00fade Coletiva pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutorando em Sa\u00fade P\u00fablica pela UFSC.<\/p>\n<p>\u201cEu atendo pacientes em sindicatos, a maioria com LER\/DORT [Les\u00f5es por Esfor\u00e7os Repetitivos\/Doen\u00e7as Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho], outros com transtornos ps\u00edquicos, alguns destes relacionados ao trabalho. Com a NR 36, identificamos uma diminui\u00e7\u00e3o dos casos, o que representa uma conquista social ampla\u201d, lembra.<\/p>\n<p>A NR 36 n\u00e3o apenas regula a ergonomia e as pausas, mas tamb\u00e9m disp\u00f5e sobre o controle da am\u00f4nia e do n\u00edvel de ru\u00eddos.<\/p>\n<p>Ruiz ressalta que a pausa t\u00e9rmica significa custo aos olhos dos empregadores.<\/p>\n<p>\u201cNa pr\u00e1tica, se trabalha uma hora a menos na jornada. Este \u00e9 um dos pontos que mais incomoda os empres\u00e1rios. Significa que o trabalhador est\u00e1 sendo remunerado enquanto repousa, dentro da jornada. O capitalismo n\u00e3o quer isso, porque exige aproveitamento m\u00e1ximo da pessoa\u201d, observa o m\u00e9dico.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/e8a430b7fa889a8a4c66cee5fee731b0.jpeg\" \/><br \/>Aumento do ritmo de trabalho, com restri\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 pausa t\u00e9rmica, torna o ambiente ainda mais prop\u00edcio a adoecimentos \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Em dezembro de 2020, o Minist\u00e9rio da Economia anunciou uma agenda de fevereiro a dezembro de 2021 para revis\u00e3o de 22 normas, incluindo a NR 36.<\/p>\n<p>O governo j\u00e1 fez a consulta p\u00fablica de subs\u00eddios sobre a NR 36 e a avalia\u00e7\u00e3o de an\u00e1lise de impacto regulat\u00f3rio. A partir das 333 contribui\u00e7\u00f5es enviadas, a auditoria fiscal do trabalho produziu um texto-base, disponibilizado na plataforma\u00a0Participa + Brasil\u00a0em 8 de outubro deste ano. O prazo final para contribui\u00e7\u00f5es terminou em 8 de novembro.<\/p>\n<p>Hoje, um GTT debate as sugest\u00f5es enviadas pelos diferentes setores. Ao final, ser\u00e1 enviada uma proposta \u00e0 CTPP, que analisar\u00e1 o conte\u00fado e redigir\u00e1 o novo texto.<\/p>\n<p>\u201cExistem direitos fundamentais que devem ser mantidos, seja com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pausas t\u00e9rmicas, aos assentos, ao mobili\u00e1rio, aos equipamentos de prote\u00e7\u00e3o ou \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o de cargas. A ess\u00eancia da norma deve prevalecer\u201d, afirma o secret\u00e1rio-geral da Contac, Jos\u00e9 Modelski J\u00fanior, que integra o GTT pela Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT).<\/p>\n<p>Segundo Modelski J\u00fanior, o governo Bolsonaro vem sinalizando nos bastidores a inten\u00e7\u00e3o de finalizar o processo de revis\u00e3o at\u00e9 fevereiro de 2022.<\/p>\n<p>Empres\u00e1rios do setor sugeriram ao governo, entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2021, uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as na NR 36 durante a primeira fase da tomada p\u00fablica de subs\u00eddios.<\/p>\n<p>\u201cEmbora existam movimentos tendentes a altera\u00e7\u00f5es lesivas \u00e0 sa\u00fade, sob o manto de uma suposta desburocratiza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 congressistas e empres\u00e1rios do setor que s\u00e3o bastante conscientes do seu papel de produzir e lucrar sem adoecer os trabalhadores\u201d, confia o procurador Lincoln Roberto N\u00f3brega Cordeiro, do projeto nacional de adequa\u00e7\u00e3o do trabalho em frigor\u00edficos do MPT.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 inconceb\u00edvel que, no momento da pior crise sanit\u00e1ria da hist\u00f3ria, em que os trabalhadores de frigor\u00edficos foram qualificados como essenciais, tenham retirados quaisquer direitos relacionados \u00e0 sa\u00fade e seguran\u00e7a do trabalho\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Dados do\u00a0Anu\u00e1rio Estat\u00edstico de Acidentes de Trabalho (AEAT) da Previd\u00eancia Social\u00a0apontam que, em 2019, houve em m\u00e9dia 62 ocorr\u00eancias por dia nas linhas de abate de bovinos, su\u00ednos e frangos, totalizando 22.757 casos de doen\u00e7as ocupacionais ou acidentes de trabalho.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">O que prop\u00f5e a ABPA<\/p>\n<p>Na consulta p\u00fablica, a ABPA diz ver problemas no \u201cinterfaceamento\u201d da portaria de 2013 com outras NRs que regem o setor industrial. A sobreposi\u00e7\u00e3o entre os itens de diferentes normas causaria \u201cburocratiza\u00e7\u00e3o, retrabalho e inseguran\u00e7a jur\u00eddica.\u201d<\/p>\n<p>Por exemplo, a ABPA prop\u00f5e que os itens relacionados \u00e0 gest\u00e3o de risco na NR 36 sejam desconsiderados, passando a valer as orienta\u00e7\u00f5es previstas na NR 1 \u2013 considerada menos rigorosa pelos sindicatos de trabalhadores.<\/p>\n<p>Algumas exig\u00eancias da NR 36, segundo a Associa\u00e7\u00e3o, \u201crepetem, alteram e at\u00e9 mesmo extrapolam o fixado na CLT.\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/73dd03b40fd8fdcb9dc834c0c5ad011c.jpeg\" \/><br \/>Setor de frigor\u00edficos registra entre 50 e 60 acidentes por dia; os casos mais comuns envolvem cortes ou mutila\u00e7\u00f5es com faca \/ Bruno Cecim \/ Fotos P\u00fablicas<\/p>\n<p>A reportagem entrou em contato com a ABPA para entender mais detalhes sobre essa cr\u00edtica e os riscos que uma altera\u00e7\u00e3o da norma traria para a sa\u00fade dos trabalhadores.<\/p>\n<p>\u201cA ABPA refuta qualquer afirma\u00e7\u00e3o sobre retirada de garantias \u00e0 seguran\u00e7a dos colaboradores. Ao contr\u00e1rio: as revis\u00f5es propostas s\u00e3o para melhorar as garantias\u201d, respondeu a entidade, por meio de nota. \u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u201cO setor produtivo tem se manifestado pela necessidade de revis\u00e3o e harmoniza\u00e7\u00e3o da NR 36, sem abrir m\u00e3o da imprescind\u00edvel e necess\u00e1ria seguran\u00e7a dos milhares de trabalhadores da ind\u00fastria.\u201d<\/p>\n<p>Ainda segundo a ABPA, \u201cpassados mais de sete anos de NR-36, \u00e9 o momento para corrigirmos o que n\u00e3o se mostrou eficiente, rever aquilo que gerou d\u00fabia interpreta\u00e7\u00e3o, (&#8230;) al\u00e9m de simplificar controles que se mostram desnecess\u00e1rios.\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">O que prop\u00f5e a CNI<\/p>\n<p>As sugest\u00f5es da CNI ao governo, em plena pandemia, falam em \u201cexcesso de burocracia e, por consequ\u00eancia, excesso e aumento dos custos na opera\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o da norma\u201d.<\/p>\n<p>Diferentemente da ABPA, a confedera\u00e7\u00e3o cita textualmente que a NR 36 \u201cimpacta diretamente nos custos (&#8230;) para o setor.\u201d<\/p>\n<p>Representantes da CNI mencionam \u201credu\u00e7\u00e3o da produtividade di\u00e1ria e, por consequ\u00eancia, redu\u00e7\u00e3o da competitividade da ind\u00fastria de abate e processamento de carnes e derivados\u201d, com \u201cposs\u00edvel comprometimento do n\u00edvel global de empregos no setor.\u201d<\/p>\n<p>\u201cO ambiente, portanto, \u00e9 de incertezas e inseguran\u00e7a jur\u00eddica acerca da interpreta\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o da norma, com potencial de gera\u00e7\u00e3o de conflitos. Ademais, gera duplicidade no atendimento, impactando em custos elevados e retrabalhos, sem agregar valor para a seguran\u00e7a dos trabalhadores\u201d, acrescenta o texto enviado pela Confedera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, integrantes da entidade\u00a0refor\u00e7am supostos impactos econ\u00f4micos, \u201ccom consequente redu\u00e7\u00e3o no n\u00famero de empregos, sem contribuir para a seguran\u00e7a e sa\u00fade dos trabalhadores.\u201d<\/p>\n<p>A reportagem questionou a CNI especificamente sobre esse \u00faltimo aspecto, ressaltando as contribui\u00e7\u00f5es da NR 36. A assessoria respondeu por meio de nota:<\/p>\n<p>\u201cAs sugest\u00f5es encaminhadas pela CNI no processo de tomada de subs\u00eddios para a revis\u00e3o da NR-36 se pautam pelo objetivo de modernizar, desburocratizar e simplificar as NRs sem preju\u00edzos \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 seguran\u00e7a do trabalhador, bem como o de harmonizar a referida norma com outras NRs j\u00e1 revisadas, como a NR 01, de forma a evitar sobreposi\u00e7\u00f5es ou conflitos com outros comandos normativos.\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Avalia\u00e7\u00e3o do MPT<\/p>\n<p>Sobre o \u201cinterfaceamento\u201d com outras NRs que regem o setor industrial como um todo, Lincoln Roberto N\u00f3brega Cordeiro argumenta que \u201ca necessidade da exist\u00eancia de uma norma espec\u00edfica de sa\u00fade e seguran\u00e7a para o setor decorre justamente diante dos maiores riscos espec\u00edficos existentes na atividade.\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito importante a atua\u00e7\u00e3o dos sindicatos e da sociedade em geral. Esse processo de revis\u00e3o da NR 36 ser\u00e1 objeto de audi\u00eancias p\u00fablicas no Congresso Nacional, e o papel dos empres\u00e1rios comprometidos com o desenvolvimento social tamb\u00e9m ser\u00e1 relevante para proteger a dignidade da pessoa humana\u201d, completa.<\/p>\n<p>Cordeiro ressalta ainda que o argumento da produtividade n\u00e3o se sustenta.<\/p>\n<p>\u201cSegundo estimativas globais da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, a economia perde cerca de 4% do PIB em raz\u00e3o de doen\u00e7as e acidentes de trabalho. Ent\u00e3o, al\u00e9m da perda de vidas humanas e da deteriora\u00e7\u00e3o da sa\u00fade das pessoas, o trabalho em ambientes insalubres leva \u00e0 perda de produtividade\u201d, observa.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>\u00a0questionou a\u00a0Secretaria Especial de Previd\u00eancia e Trabalho do Minist\u00e9rio da Economia, \u00e0 frente do processo de revis\u00e3o das normas.<\/p>\n<p>A Secretaria diz que a NR 36 \u201ctrouxe valoriza\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da qualidade de vida aos trabalhadores, sobretudo \u00e0queles que trabalham em empresas de processamento de carnes.\u201d<\/p>\n<p>O governo avalia que o processo de revis\u00e3o permitir\u00e1 pensar sobre a aplica\u00e7\u00e3o da norma nos \u00faltimos anos. \u201cTodas as bancadas poder\u00e3o trazer suas avalia\u00e7\u00f5es da repercuss\u00e3o da norma, desde melhorias simples no meio ambiente de trabalho at\u00e9 a redu\u00e7\u00e3o de acidentes e \u00f3bitos no setor frigor\u00edfico.\u201d<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Neglig\u00eancia ou descuido?<\/p>\n<p>Ao ser questionada sobre os aspectos da norma mais comumente negligenciados pelas empresas desde a cria\u00e7\u00e3o da NR 36, a Secretaria ponderou: \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel definir se algo foi negligenciado ou se foi apenas descuido.\u201d<\/p>\n<p>Em seguida, informou aspectos da norma inseridos como \u201cirregular\u201d em relat\u00f3rios de fiscaliza\u00e7\u00e3o por auditores fiscais do trabalho entre os anos de 2018 e 2020.<\/p>\n<p>O item 36.2.10 da NR 36, por exemplo, foi descumprido em 2018 e 2019: as empresas deixaram de \u201cmanter dispositivo que possibilita a abertura sem muito esfor\u00e7o das portas de c\u00e2maras frias pelo interior e\/ou deixar de manter alarme ou outro dispositivo de comunica\u00e7\u00e3o no interior de c\u00e2maras frias.\u201d<\/p>\n<p>Em 2020, foi registrado descumprimento do item 36.11.1 da NR 36: empresas n\u00e3o colocaram \u201cem pr\u00e1tica uma abordagem planejada, estruturada e global da preven\u00e7\u00e3o, por meio do gerenciamento dos fatores de risco em Seguran\u00e7a e Sa\u00fade no Trabalho.\u201d<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da pandemia, entidades sindicais reivindicam a garantia de Equipamentos de Prote\u00e7\u00e3o Individual (EPIs) adequados e distanciamento social nos locais de trabalho.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de assembleias nas portas das f\u00e1bricas, houve atos de rua em v\u00e1rias capitais do Brasil. O protesto de maior repercuss\u00e3o ocorreu em setembro de 2020, em frente \u00e0 Bolsa de Valores de S\u00e3o Paulo (SP).<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/ee5a876cf24cb8c8c1bf1042db20b604.jpeg\" \/><br \/>Trabalhadores do setor protestam em frente \u00e0 Bolsa de Valores em SP \/ Vanessa Nicolav\/Brasil de Fato<\/p>\n<p>Atentas \u00e0s movimenta\u00e7\u00f5es do governo e de setores empresariais, a Contac, a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores na Alimenta\u00e7\u00e3o (CNTA Afins), a Regional Latino Americana da Uni\u00e3o Internacional dos Trabalhadores da Alimenta\u00e7\u00e3o (Rel-Uita) e entidades filiadas lan\u00e7aram a campanha \u201cNR 36 \u2013 S\u00f3 Se Mexe Pra Melhor\u201d, no in\u00edcio de 2021. \u00a0<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o envolveu atos nas ruas, audi\u00eancias p\u00fablicas, encontros virtuais, outdoors e envio de of\u00edcios a ministros do governo Bolsonaro cobrando a manuten\u00e7\u00e3o dos dispositivos da NR 36 que protegem os trabalhadores.<\/p>\n<p>\u201cSob hip\u00f3tese alguma podem ser feitas altera\u00e7\u00f5es que piorem a situa\u00e7\u00e3o nas f\u00e1bricas. A preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as e acidentes \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o legal das empresas e, sem d\u00favida, de inestim\u00e1vel benef\u00edcio para os trabalhadores e a sociedade onde as f\u00e1bricas est\u00e3o inseridas\u201d, afirma o presidente da Contac, Nelson Morelli.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o vamos permitir que haja retrocesso nas conquistas desse setor, que emprega mais de 500 mil trabalhadores e desempenha servi\u00e7o essencial para a sociedade\u201d, acrescenta o presidente da CNTA Afins, Artur Bueno de Camargo.<\/p>\n<p>Um dos encontros organizados pela campanha, no in\u00edcio de 2021, recebeu o coordenador-geral de Seguran\u00e7a e Sa\u00fade no Trabalho da Subsecretaria de Inspe\u00e7\u00e3o do Trabalho do Minist\u00e9rio da Economia, Marcelo Naegele.<\/p>\n<p>O representante da Secretaria reconheceu a import\u00e2ncia da NR 36 na preven\u00e7\u00e3o de acidentes e doen\u00e7as nos frigor\u00edficos e buscou justificar o papel do governo federal.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o queremos revisar apenas a NR 36, mas todas as normas, de forma que elas estejam harmonizadas. N\u00e3o faz sentido dizer que queremos acabar com esta norma, e \u00e9 importante os trabalhadores estarem presentes neste processo\u201d, afirmou Naegele.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">JBS resiste a acordo anti-covid<\/p>\n<p>Durante a pandemia, confedera\u00e7\u00f5es sindicais do ramo da alimenta\u00e7\u00e3o procuraram a BRF e a JBS para negociar um acordo coletivo de trabalho.\u00a0<\/p>\n<p>Apenas a BRF respondeu favoravelmente sobre um tratado para a ado\u00e7\u00e3o de provid\u00eancias visando minimizar impactos da covid-19 no setor.<\/p>\n<p>O acordo nacional foi assinado em maio de 2020 e renovado este ano, com 25 cl\u00e1usulas. Entre elas, consta a realiza\u00e7\u00e3o de exames peri\u00f3dicos, a suspens\u00e3o da obrigatoriedade de entrega f\u00edsica de atestados m\u00e9dicos em casos de suspeita ou contamina\u00e7\u00e3o por covid-19 e a garantia de seguran\u00e7a nos transportes coletivos fretados pela empresa para o deslocamento dos funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O mesmo pacto tamb\u00e9m estabelece o afastamento de funcion\u00e1rios do grupo de risco de qualquer idade, empregados acima de 60 anos e gestantes. Em contrapartida, a BRF ir\u00e1 cobrar a compensa\u00e7\u00e3o de horas para os funcion\u00e1rios que foram obrigados a se afastar.<\/p>\n<p>\u201cO acordo com a BRF se deu ap\u00f3s muitas reuni\u00f5es no come\u00e7o da pandemia, quando ningu\u00e9m imaginava o que estava por vir. N\u00f3s fomos contra o ac\u00famulo de banco de horas, que inclusive n\u00e3o tem acontecido com os trabalhadores que est\u00e3o retornando depois de tomarem a segunda dose da vacina\u201d, relata Geni Dalla Rosa, secret\u00e1ria-geral do Sindicato dos Trabalhadores nas Ind\u00fastrias da Alimenta\u00e7\u00e3o de Serafina Corr\u00eaa, no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Com a JBS, refor\u00e7a Geni, nunca houve acordo. \u00a0<\/p>\n<p>\u201cForam intransigentes desde o in\u00edcio e seguem com a mesma postura at\u00e9 hoje, mesmo ap\u00f3s as 610 mil mortes por covid-19. N\u00e3o existe empresa santa, mas a diferen\u00e7a est\u00e1 em pelo menos se dispor ao di\u00e1logo com os sindicatos. Com a JBS, isso n\u00e3o existe\u201d, diz Geni, que acompanha as negocia\u00e7\u00f5es com os grandes frigor\u00edficos por meio da Contac-CUT.\u00a0<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/700d96a06c025ba6845dd2689819d6e6.jpeg\" \/><br \/>Entidades sindicais penduraram cartazes em frente a grandes frigor\u00edficos, em protesto contra a neglig\u00eancia das empresas \/ Contac-CUT<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Outro lado<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>\u00a0procurou as empresas citadas e ofereceu a possibilidade de comentar as situa\u00e7\u00f5es descritas.<\/p>\n<p>A BRF respondeu por meio de notas enviadas pela assessoria de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDesde o in\u00edcio da pandemia, a Companhia n\u00e3o mede esfor\u00e7os para garantir, em primeiro lugar, a seguran\u00e7a de absolutamente todas as pessoas envolvidas no contexto operacional, trabalhando de forma colaborativa com as autoridades de sa\u00fade e os munic\u00edpios onde est\u00e1 presente\u201d, afirma a BRF.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de assinar voluntariamente um compromisso junto ao MPT, a empresa tamb\u00e9m realizou acordo com sindicatos para reafirmar as pr\u00e1ticas estabelecidas no TAC.<\/p>\n<p>A BRF citou mais de 30 medidas preventivas e protetivas, que englobam o uso obrigat\u00f3rio de m\u00e1scaras e EPIs, distanciamento m\u00ednimo entre funcion\u00e1rios, medi\u00e7\u00e3o de temperatura nas entradas das unidades, limite de 50% da capacidade de trabalhadores nos ve\u00edculos fretados, afastamento de colaboradores do grupo de risco e casos suspeitos, refor\u00e7o de higieniza\u00e7\u00e3o em diversas \u00e1reas e nos ve\u00edculos de transporte, vacina\u00e7\u00e3o contra gripe e atendimento m\u00e9dico 24 horas, sete dias por semana.<\/p>\n<p>\u201cPara contribuir com o Plano Nacional de Imuniza\u00e7\u00e3o, a Companhia realizou comunica\u00e7\u00f5es constantes com colaboradores para transmitir informa\u00e7\u00f5es e tirar d\u00favidas, incentivando a vacina\u00e7\u00e3o\u201d, acrescenta a nota da empresa.<\/p>\n<p>A JBS disse \u00e0 reportagem que \u201ctem o prop\u00f3sito inabal\u00e1vel de garantir a sa\u00fade e a seguran\u00e7a de seus 145 mil colaboradores no Brasil. Com esse objetivo, desde o in\u00edcio da pandemia de covid-19, a empresa adotou um rigoroso protocolo de controle e preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a em suas unidades.\u201d<\/p>\n<p>Os procedimentos teriam sido definidos de acordo com as determina\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os de sa\u00fade e a consultoria de m\u00e9dicos e institui\u00e7\u00f5es-refer\u00eancia, como o Hospital Israelita Albert Einstein.<\/p>\n<p>Ainda segundo a empresa, foram investidos mais de R$ 3 bilh\u00f5es em protocolos de seguran\u00e7a e projetos de responsabilidade social.<\/p>\n<p>\u201cBoa parte do dinheiro garantiu a seguran\u00e7a dos colaboradores na linha de produ\u00e7\u00e3o. Por ser uma atividade essencial, a Companhia n\u00e3o parou de entregar alimentos para a sociedade e, por isso, teve de refor\u00e7ar a prote\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho\u201d, acrescenta a nota da JBS.<\/p>\n<p>A empresa afirma ainda ter doado cerca de R$ 700 milh\u00f5es para apoio \u00e0s comunidades em que opera e investido R$ 400 milh\u00f5es para refor\u00e7ar o combate \u00e0 covid-19.<\/p>\n<p>\u201cForam constru\u00eddos dois hospitais permanentes \u2014 no Distrito Federal e em Rond\u00f4nia \u2014 e financiadas 15 obras de expans\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade. A empresa tamb\u00e9m comprou 88 ambul\u00e2ncias, 561 respiradores, 1.612 monitores multipar\u00e2metros, 19,5 milh\u00f5es de EPIs e 2.022 leitos cl\u00ednicos e de UTI, entre outros itens\u201d, finaliza a JBS.<\/p>\n<p>A reportagem perguntou se a empresa assinou algum TAC junto ao MPT para adequa\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho na pandemia. A JBS optou por n\u00e3o responder.<\/p>\n<p>Todos os casos de acidentes de trabalho, contamina\u00e7\u00e3o e mortes por covid-19 nos frigor\u00edficos durante a pandemia foram reportados \u00e0s duas empresas investigadas pela reportagem. At\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria, a BRF e a JBS n\u00e3o responderam \u00e0s quest\u00f5es encaminhadas, mesmo cientes dos prazos de veicula\u00e7\u00e3o no\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>.<\/p>\n<p class=\"editor\">Edi\u00e7\u00e3o: Leandro Melito<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2021\/11\/15\/especial-mortes-sequelas-e-trabalho-exaustivo-o-rastro-da-covid-19-em-grandes-frigorificos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jornal Brasil de Fato<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto a carne se torna artigo de luxo no mercado interno, trabalhadores s\u00e3o expostos a risco de cont\u00e1gio e acidentes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3315,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[6,5],"tags":[408,18,435],"class_list":["post-3313","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-noticias","tag-covid","tag-destaque","tag-frigorifico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3313","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3313"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3313\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3316,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3313\/revisions\/3316"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3315"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3313"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3313"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.secpf.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}